Terça-feira, 24 de Novembro de 2020
DESINFORMAÇÃO

Crença nas fake news potencializa disseminação e problemas da pandemia

Levantamento mostra que cerca de 100 milhões de brasileiros acreditaram em pelo menos uma notícia falsa sobre o coronavírus



1690912_5067A1B8-C8ED-42FC-89E6-5BCD977815AE.jpg Foto: Jair Araújo
10/05/2020 às 07:00

Levantamento da Avaaz revelou que cerca de 100 milhões de brasileiros, sete em cada dez internautas, acreditaram em pelo menos uma notícia falsa sobre o coronavírus (Covid-19). Os resultados da pesquisa demonstram ainda que o alcance da disseminação de informações falsas no Brasil é enorme: 141 milhões de pessoas identificaram pelo menos uma fake news sobre o novo vírus.

Segundo o estudo, seis em cada 10 internautas receberam informações falsas sobre a doença pelo WhatsApp, principal vetor de desinformação. Em segundo lugar, vem o Facebook com cinco em cada 10 pessoas recebendo fake news pela plataforma. A pesquisa também foi realizada nos Estados Unidos e na Itália e mostrou que os brasileiros acreditam mais em notícias falsas.



Ao menos, 73% dos brasileiros acreditaram em alguma fake news, seguidos por 65% dos norte-americanos e 59% dos italianos. Aponta ainda que 80% dos entrevistados no Brasil responderam que gostaria de receber informações corrigidas por agências de checagem de fatos, mas 57% dos internautas informou nunca ter visto, nem mesmo alertas de conteúdo falso, no Facebook e em outras redes sociais.

Descrença

Na avaliação do antropólogo, Bruno Walter Caporrino, esse comportamento da população é resultado da descrença no conhecimento científico aliada à dissonância  cognitiva que inaugura a era da pós-verdade. “Rouba dos centros tradicionais de saber e notícias sua legitimidade. Em que falsas notícias se propagam como vírus, muito rapidamente, porque as pessoas passam a acreditar mais nas ‘informações’ que recebem de parentes em grupos de família do que nos cientistas e centros de pesquisa e comunicação”, afirmou, completando que essas pessoas tendem a idolatrar e a seguir líderes políticos, pela sua personalidade e carisma, do que acreditar em cientistas ou autoridades sanitárias.

De acordo com o médico infectologista André Patrício de Almeida, o grande impacto de informações falsas sobre a covid-19 é a disseminação do pânico aumentando a desinformação. “Alguns cientistas (da China) escreveram um artigo de como o medo e o pânico podem ser mais perigosos que a própria pandemia. O paralelo que a desinformação e a disseminação de fake news pode ter o efeito na população que não queremos. As pessoas entram em pânico e vira uma bola de novo. Começa a se disseminar vários tipos de informações que acabam, muitas vezes, atrapalhando a função do profissional de saúde”, disse.

Vírus novo

O infectologista atribuiu a proporção alcançada por notícias falsas sobre o coronavírus ao fato da doença e do vírus serem novos e com descobertas científicas quase que diárias. “Os conhecimentos estão mudando de uma forma bem rápida. Logo no começo, não sabíamos muito o que falar para os pacientes que nos procuravam e muitas vezes eles já vinham com uma ideia formada de algo que sabíamos não ser verdade”, citou referindo-se a fake news sobre o uso de chás, medicações caseiras e a origem do vírus.

André recomenda o senso crítico na análise de informações recebidas ou publicadas na internet e até mesmo na produção científica. “Uma das formas de combater é indo atrás de informações confiáveis nos artigos científicos. Não são todos os artigos que a gente lê e que se pode levar ao pé da letra. Tem que ter bastante cautela, inclusive, com os artigos que são lançados todos os dias. Estamos tendo uma enxurrada de informações e muitas vezes são publicadas sem uma análise mais crítica e nessa leitura acabamos tendo que ter esse senso antes de passar essa informação”.

Desafio da apuração é a autoria

De acordo com o advogado em direito digital, Aldo Evangelista, a produção e divulgação de fake news incorre em responsabilidade civil, administrativa e criminal. Tais condutas podem resultar nos crimes contra a honra comum e de denunciação caluniosa previstos no artigos 139 a 140 e 339, respectivamente, do Código Penal Brasileiro. Ele afirmou que acionar o Judiciário a respeito de uma notícia, seja verdadeira ou falsa, não implica em censura.

“Apontar uma  fake news não é algo tão simples. Tem que fazer o equilíbrio porque liberdade de expressão, censura e o acesso à informação são temas correlatos à fake news. Algumas pessoas estão em pânico diante dessa situação e querem o mínimo de orientação e acabam acreditando em qualquer informação que chega de forma instantânea em seu smartphone”, disse o advogado, acrescentando que o desencontro do posicionamento da classe política causa um desconforto na população.

Segundo Evangelista, o maior desafio das investigações é chegar à autoria das fake news e salientou que denúncias devem ser realizadas na Delegacia de Crimes Cibernéticos da Polícia Civil do Amazonas. “A dificuldade da perícia digital nessa área criminal é porque em alguns casos a fake news pode ser veiculada em Manaus, mas a produção é no sul do Brasil ou em qualquer parte do Mundo devido a internet não ter fronteira”, declarou.

Redes excluem

O Twitter fechou uma parceria com o Ministério da Saúde (MS) para que usuários ao buscar por termos associados ao coronavírus recebam, como primeiro resultado, uma notificação para acessar conteúdos oficiais do MS, facilitando o acesso a informações completas e confiáveis sobre o novo vírus. Instagram e Facebook passaram a remover notícias falsas sobre o vírus e a pandemia. Essas três redes sociais apagaram das suas plataformas o vídeo que mostrava o presidente Jair Bolsonaro em passeio no Distrito Federal, contrariando recomendações de isolamento social, por entender que o conteúdo cria ‘desinformação’ que pode ‘causar danos reais às pessoas’.

Análise de Clayton Rodrigues - Antropólogo

“Para fazer algum tipo de análise sociológica e antropológica desse fenômeno temos que levar em consideração a mentalidade da sociedade. Como a sociedade pensa as coisas e constrói essa ideia de realidade baseada em quê?

Temos ataques à ciência, afastamento do conhecimento mais técnico e a ideia deturpada do que é opinião. Temos um governo que prega isso e toda uma cúpula política representativa do povo que tem esse discurso de combate ao conhecimento científico e a proliferação de um pensamento religioso fanático. Hoje vale mais a opinião do que conhecimentos construídos durante séculos com comprovação e método.

As pessoas preferem fundamentar a sua perspectiva de vida naquilo que acham, pensam, acreditam, no que dizem para acreditar e no que está escrito em uma mensagem de WhatsApp. Até um tempo a sociedade brasileira transformava a ideia de verdade naquilo que aparecia na TV e no jornal impresso. Com o advento, a internet virou um novo espaço da verdade, mas é aquele lugar com o mínimo de controle.

A todo momento estamos recebendo qualquer tipo de informação sem filtro algum. São poucos os ambientes com filtro rígidos. Com as rede sociais isso se agravou e o que é verdade agora está no WhatsApp, no Facebook. Passamos por esse processo que é um problema de não termos um projeto de educação sério. Não conseguir passar para sociedade qual o papel de um cidadão ter responsabilidade com a informação.

Nesse período temos fake news que interferem na nossa segurança de vida, na saúde pública e coletiva que impacta demais. Temos legislação para esses crimes virtuais e precisam começar a aparecer, a institucionalizar esses crimes para as pessoas perceberem que a internet não é bem esse mundo sem lei.”

Comentário de Edilene Mafra - Jornalista e doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam

“As fake news já estavam sendo um gargalo para nossa sociedade. Não são simplesmente mentiras disseminadas. Fazem parte de estruturas, estratégias de domínio social que visam alcançar objetivos muito específicos. Sabemos que existem indústrias de fake news no Mundo. E o Brasil, infelizmente, tem se destacado muito por causa dessa temática.

De acordo com a Unesco, públicos bem informados que se engajam e compartilham conteúdos confiáveis são verdadeiros antídotos no combate à desinformação. Estudiosos estão chamando o período pós-pandemia de uma nova realidade e a gente começa a perceber que existe uma estrutura de desordem de informação.

Fake news são informações que ganham a dimensão e repercussão de notícia. Pode ser em foto, vídeo, meme ou áudio. As pessoas estão em casa desesperadas por causa da pandemia e vão no WhatsApp e não se atentam as informações recebidas e vão disseminar. Interpretam, recodificam e passam a mensagem. Essa estrutura toda ganha uma forma imensurável nesta pandemia.

O resultado dessa pesquisa por conta das pressões sociológicas, psicológicas e emocionais que vemos acontecer até muitas vezes dentro da nossa casa.

Temos que levar educação midiática. Explicar como as pessoas devem ter acesso às informações e conscientizar a sociedade. Profissionais da comunicação e da educação precisam estar juntos. Precisamos ir para base, onde as pessoas se reúnem, e combater, infelizmente, esse desgaste que está sendo feito pelo próprio presidente da nossa profissão e dos nossos profissionais para conseguir ganhar a confiança dessas pessoas e mostrar para elas o que representa essa disseminação de fake news.”

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Repórter de A Crítica

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