Sexta-feira, 03 de Julho de 2020
DESEMPREGO

Crise econômica causada pela pandemia afeta duplamente os jovens

Relatório da Organização Internacional do Trabalho mostra que a além do desemprego provocado pela pandemia jovens têm a formação profissional interrompida



1770496_DEDEA519-B53A-437D-A38B-ED414460B8B7.jpg Foto: AFP / FETHI BELAID
31/05/2020 às 06:37

Em 2018, o amazonense Marcos Rocha, de 32 anos, começou a trabalhar em uma agência de intercâmbio e em meados do ano passado foi promovido para coordenar uma filial no interior de São Paulo. Com a crise econômica no setor de turismo e viagens provocada pela disseminação do novo coronavírus, a unidade fechou e Marcos ficou desempregado. Ele é apenas um em cada seis jovens que perdeu o emprego durante a pandemia, aponta estudo da Organização internacional do Trabalho (OIT).

“Ficou insustentável para a empresa manter tantos escritórios abertos que não estavam dando retorno financeiro. O número foi reduzido pela metade. Sabemos que não vai voltar no mesmo ritmo que estava. Até que volte o comércio ao ritmo que tínhamos antes vai demorar. Não estou conseguindo ter uma perspectiva otimista para esse segundo semestre, mas estou fazendo cursos de recolocação profissional”, disse o biblioteconomista.



Na avaliação do doutor em sociologia, Marcelo Seráfico, problemas já conhecidos que afetavam o mercado de trabalho se agravaram com a pandemia. Para ele, as políticas micro e macroeconômicas, empresariais e governamentais adotadas para fazer frente à pandemia estão aquém do atendimento das necessidades básicas dos trabalhadores assalariados e autônomos.

“O avanço do desemprego se combina à flexibilização das relações de trabalho e à 'uberização' para criar um cenário difícil para os jovens. E mais difícil ainda para os jovens pobres, negros e do sexo feminino. As desigualdades, portanto, se agravam. Combatê-las, antes, durante e depois da pandemia, implicaria usar o conhecimento disponível e aquele que vem sendo produzido para servir de base para decisões comprometidas com a preservação da vida de todos e com estratégias de recuperação econômica que atendessem a grupos específicos da sociedade, como os jovens. Lamentavelmente, não é isso o que se vê”, pondera.

Alternativas

A economista e professora universitária Kamilla Loureiro afirmou que a pandemia impulsionou novas alternativas de fonte de renda como as entregas em plataformas de delivery. Ela recomenda que essa possibilidade seja temporária em meio à crise e frisa a importância do emprego formal que assegura direitos aos trabalhistas.

“Está faltando no governo brasileiro programas de incentivo para inserir o jovem no mercado formal. Por exemplo, o programa Menor Aprendiz. Outras empresas adotassem mais essa iniciativa não somente no comércio, na indústria e também em outros setores”, sugeriu.

Na opinião de Marcos, o mercado de trabalho brasileiro não está tão aberto para receber os recém-desempregados. Ele avalia que as empresas irão priorizar neste momento manter o quadro atual de funcionários que investir em novas contratações. Com o desemprego, o jovem teve que interromper a graduação que cursava de administração de empresas e irá se organizar, inclusive, financeiramente para retornar os estudos, em Manaus, em 2021.

A economista enfatizou que o desemprego acentua a evasão escolar, além de agravar o endividamento dos estudantes que mesmo sem condições financeiras irão tentar continuar ou concluir a graduação. “Se você fizer um levantamento nas faculdades privadas vai observar que teve uma grande evasão com a pandemia e um dos principais motivos é que a pessoa que financiava os estudos ou o próprio aluno deixou de trabalhar e não tem como continuar a faculdade”, concluiu.

Personagem

Taylanna Monteiro, formada em Recursos Humanos e em busca de emprego 

Com a pandemia do novo coronavírus em Manaus, Taylanna Monteiro, de 35 anos, foi surpreendida com a antecipação das férias. Ao retornar, ela e mais 14 pessoas foram demitidas. Formada em recursos humanos, ela exerceu durante 10 meses a função de assistente financeiro em uma concessionária de veículos na capital.

Para ela, os jovens são os mais afetados nessa crise, principalmente, quem está ingressando no mercado de trabalho. “As empresas exigem experiência na carteira de trabalho, mas nem sempre as portas se abrem e é dado oportunidade. Todas as vezes foi muito complicado a recolocação e quando estive parada fiquei trabalhando como autônoma com vendas e agora abri uma loja virtual”, relatou.

A expectativa de Taylanna é retornar o mais rápido ao mercado formal e já iniciou a batalha pela recolocação enviando currículos. “Quando saí da última empresa me deram um feedback que ao retornar e por eu já conhecer o trabalho, talvez me chamassem novamente”.

Em números

9.010 é o número  de empregos perdidos no Amazonas de janeiro a abril deste ano, segundo Ministério da Economia. Em todo o país, no mesmo período, o saldo negativo é de 763,3 mil trabalhadores. A taxa de desempregados no Brasil subiu para 12,6% .

Legado negativo pode durar décadas

O diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Guy Ryder pediu aos governos que "prestem muita atenção a essa geração do confinamento" para evitar que ela seja afetada pela crise no longo prazo. Ele afirmou que as jovens estão sendo mais afetadas que outros grupos populacionais. "A menos que sejam tomadas medidas urgentes para melhorar sua situação, talvez tenhamos de suportar o legado do vírus por décadas", disse.

Estudo da OIT mostrou que, entre menores de 29 anos, um em cada seis jovens entrevistados parou de trabalhar desde o surgimento da covid-19. E aqueles que mantiveram seus empregos viram seu horário de trabalho diminuir em 23%. A pesquisa revelou também que cerca de metade dos jovens estudantes relata um ‘provável atraso’ na conclusão dos estudos, enquanto 10% deles acreditam que não serão capazes de finalizá-los. Com uma taxa de 13,6% em 2019, o desemprego juvenil já era maior do que em qualquer outro grupo populacional. Pelo menos 267 milhões de jovens estavam desempregados, não frequentavam a escola e nem cursos profissionalizantes.

Segundo a OIT, a política rigorosa de testes em massa reduz as perturbações no mercado de trabalho. Promovem ainda a confiança do público incentivando o consumo e a manutenção dos empregos, além de contribuir diretamente para criação de novos postos de trabalho mesmo que temporários.

Análise de Rangel Batista - Economista e professor do Centro Universitário do Norte (Uninorte)

O desemprego juvenil é uma tendência que vem antes da crise agravada pela Covi-19. Segundo dados da OIT, existem 9,4 milhões de jovens desempregados e 23 milhões que não estudam ou trabalham. A informalidade é a modalidade de ocupação mais presente nesta classe.

É uma tendência mundial e também local o desemprego ante a crise e setores mais atingidos com a pandemia foram justamente os da informalidade.  A economia do país já está sendo fortemente atingida. Podemos traçar um cenário para 2020 de retração de 2% a 3% da economia nacional. Talvez em 2021 ou 2022 o país comece a perceber um cenário de recuperação.

Dos motores de crescimento: exportações líquidas, investimento privado e o consumo estão prejudicados. O governo tem a obrigação de fazer este motor funcionar e o tem feito mesmo de forma tímida até porque não tem de onde tirar (devido a queda na arrecadação).

Os governos precisarão investir em infraestrutura, saúde, educação, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias e agora é urgente a união de todos os entes para promover um mínimo de recuperação da economia (keynesiano), e o lado liberal é precisar abrir mais concessões para a iniciativa privada.

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Repórter de A Crítica

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