Sábado, 05 de Dezembro de 2020
Saúde Indígena

DSEIs monitoram aldeias no AM para proteger índios do coronavírus

Risco de contágio pelo Covid-19 em áreas de concentração de índios preocupa MPF e órgãos de saúde. A FVS-AM nega casos suspeitos em aldeias.



57457686-789d-4bf5-806d-0f094ff29d3b_0361B984-6CE9-4C29-ABED-75D2AF31D0CF.jpg Índios da etnia Mura fecharam o acesso à Aldeia São Felix em Autazes: outras aldeias da região fizeram o mesmo. Foto: Divulgação
30/03/2020 às 18:39

A confirmação, na quarta-feira passada (25), do primeiro caso de Covid-19 em Santo Antônio do Içá chamou a atenção para a possível chegada do novo coronavírus em aldeias indígenas. Isso porque o paciente que teve diagnóstico positivo para a doença é um médico que atua no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Solimões, localizada em uma área onde vivem cerca de 70 mil índios.

Tão logo foi dvulgado o primeiro caso no município, distante 1.201 quilômetros em linha reta de Manaus, o Ministério Público Federal (MPF) expediu recomendação à prefeitura de Santo Antônio do Içá e ao DSEI do Alto Solimões requerendo a adoção de uma série de medidas de enfrentamento ao novo coronavírus na região, entre elas colocar em quarentena e monitorar todas as pessoas que foram atendidas ou tiveram contato direto com o médico, profissionais de saúde e indígenas.



Conforme a diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), Rosemary Pinto, os exames das pessoas monitoradas já estão em Manaus.

“Recebemos 58 amostras de Santo Antônio do Içá de indígenas e não-indígenas. Todos ainda estão em processamento no Lacen-AM [ Laboratório Central de Saúde Pública do Amazonas]”, disse na tarde desta segunda-feira (30).

O MPF requereu também a montagem de barreiras sanitárias para impedir que o vírus chegue às comunidades indígenas da região e a intensificação de ações informativas de divulgação dos cuidados preventivos, sintomas e necessidades de procura dos serviços de saúde nos casos indicados, em especial naquela região, que concentra parte significativa dos povos indígenas isolados.

Portões fechados

Mesmo sem recomendação direta, muitas aldeias do Amazonas já tem fechado o acesso a não-indígenas espontaneamente. No município de Autazes, distante 113 quilômetros da capital amazonense, aréa de abrangência do DSEI Manaus, os índios das aldeias Iguapenú, Ponta das Pedras, Moiraí e São Felix já estão há uma semana de portões fechados. 

"Nosso maior desafio é providenciar alimentos para que eles não precisem ir às áreas urbanas, além da aquisição de máscaras cirúrgicas aos trabalhadores da saúde que atuam nas comunidades”, disse o coordenador distrital DSEI Manaus, Mario Ruy Lacerda.

Plano de contingência

Os povos indígenas são mais vulneráveis a viroses, em especial às infecções respiratórias. Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde, as epidemias e os elevados índices de mortalidade pelas doenças transmissíveis contribuíram de forma significativa na redução do número de indígenas no Brasil.

“Ainda hoje as doenças do aparelho respiratório continuam sendo a principal causa de mortalidade infantil na população indígena”, diz um trecho do Plano de Contingência elaborado pela Sesai distribuído aos 34 Distritos Especiais de Saúde Indígena (DSEI) localizados em todas as regiões do Brasil.

Segundo levantamento da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), a população indígena aldeada (aqueles que vivem distantes das áreas urbanas) é de aproximadamente 275 mil no Amazonas. O atendimento médico deles é responsabilidade dos Dseis, coordenados pela Sesai. Ao todo, há sete DSEIs espalhados pelo Estado. Cada um deles com autonomia de gestão administrativa e financeira.

O DSEI Manaus, por exemplo, atende a aproximadamente 29.506 mil indígenas em 11 municípios e 19 polos base, que abrange os municípios de Manicoré, Borba, Nova Olinda do Norte, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Autazes, Manaquiri, Manacapuru, Urucará, Anamã, Beruri, Novo Airão e Careiro Castanho. Os indígenas estão distribuídos em 235 aldeias, onde são atendidos por cerca de 13 médicos e 54 enfermeiros.

O coordenador distrital DSEI Manaus, Mario Ruy Lacerda, informou que todos os dias a Sesai passa orientações aos sete DSEIs.

“Nós temos passado as orientações sobre identificar sinais e sintomas respiratórios, bem como temos reforçado a orientação da OMS [Organização Mundial da Saúde] e do Ministério da Saúde quanto a importância do isolamento social para os índios não saírem da aldeia", disse.

Ainda de acordo com Lacerda, o monitoramento nos territórios indígenas tem sido diário.

“Os casos suspeitos que surgem próximos de territórios indígenas são imediatamente reportados. Caso o Covid-19 chegue a uma dessas aldeias, estamos capacitando as equipes médicas para preparar um ambiente para o paciente ficar isolado em quarentena ou, se for o caso, transferir ele para um hospital da capital. Cada polo base tem uma lancha ou um carro à disposição para isso”, destacou.

Nenhum caso suspeito

Conforme Priscila Marques Siqueira, da coordenadora Estadual de Saúde indígena, da Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas (Susam), os municípios e o Estado suprirão o atendimento dos eventuais casos suspeitos viabilizando o direito do paciente indígena a acompanhante e intérprete.

 “É necessário priorizar o acesso diferenciado aos indígenas de recente contato e assegurar o compartilhamento de diagnósticos e condutas de saúde de forma compreensível aos pacientes indígenas”, disse.

Sempre questionada sobre casos suspeitos em comunidades indígenas, a diretora-presidente da FVS-AM, Rosemary Pinto, tem assegurado nas coletivas de imprensa diárias que nenhum indígena consta entre os casos suspeitos notificados do Estado.

“Felizmente, não temos casos identificados em índios aldeados. Os DSEIs têm um plano de contingência próprio elaborado pelo Ministério da Saúde especialmente voltado aos povos indígenas”, explicou a diretora-presidente.

“É preocupante a identificação de casos no interior do Amazonas porque, devido à alta transmissibilidade do vírus, corremos o risco de termos uma ampliação do número de municípios com casos confirmados. Por isso, insistimos que todas as pessoas ainda permaneçam em casa para conseguirmos retardar o avanço do novo coronavírus no Estado”, reforçou

Índios de Manaus

Em relação aos 35 mil indígenas que vivem nas áreas urbanas, especialmente na Região Metropolitana de Manaus, a Susam informou que os casos suspeitos serão tratados conforme as orientações do Ministério da Saúde. Em outras palavras, receberão o mesmo tratamento da população em geral. O mesmo preconiza a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa).

A Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime) tem concentrado os seus esforços em auxiliar os índios que moram em Manaus e que vivem do artesanato e do turismo, duas das atividades econômicas paralisadas nesse período de pandemia, informou o coordenador da entidade, Turi Sateré.

“São mais de 50 comunidades indígenas em Manaus. Estamos procurando parcerias para providenciar cestas básicas e itens de higiene a essas famílias indígenas que moram em Manaus e tiram o seu sustento de empregos informais, e que estão enfrentando dificuldades nas últimas semanas. A falta de políticas públicas voltadas especialmente a esses índios que vivem em áreas urbanas acaba dificultando ainda mais”, apontou.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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