Segunda-feira, 10 de Agosto de 2020
O que vem pela frente?

Como será a nossa vida após a pandemia? Especialistas traçam panorama

Filósofo, historiador e psicóloga ouvidos por A Crítica traçam como deve ser o panorama futuro após o letal vírus mudar o dia a dia de toda uma humanidade



20200707_200735_D755C5B1-7894-4E35-A06C-FEF740662C71.jpg Alguns hábitos, como o uso de máscaras, podem passar a fazer parte do cotidiano mesmo após a pandemia / Junio Matos-Freelancer
08/07/2020 às 09:57

Você já parou pra pensar como será a sua vida após esse período de pandemia do Covid-19, como vai ser o seu ritmo de vida, estilo, quais mudanças de hábitos vieram pra ficar? Nada será como antes? E o comportamento humano? Fomos atrás de alguns especialistas de segmentos da sociedade para tentar traçar um panorama futuro baseado nas observações atuais. Uma coisa é certa: se você quiser viver o futuro, observe o passado e procure viver melhor seu presente de forma saudável.

Entre as mudanças de comportamento e de conduta, o filósofo, professor e escritor Max Caracol analisa que isolamento social seguirá como significativo e importante componente pós-pandêmico.



“Querendo ou não o enclausuramento, isolamento social, essa estratégia da Organização Mundial da Saúde (OMS), procedimento de você separar e classificar, controlar e por último tratar, que os países adotaram para minimizar ao máximo possível a agressividade do vírus na sociedade planetária foi eficiente na sua medida. Querendo ou não essa estratégia teve seus resultados mesmo que não tendo sido completamente eficiente pois é um microorganismo que está no ar, do qual nem se pode sair de casa sob o risco e ser contaminado. (ficar em casa) É uma probabilidade, uma possibilidade que temos de evitar essa infecção”

O isolamento, analisa o filósofo, trouxe várias consequência, entre elas negativas como no segmento econômico onde empresários faliram, muitos trabalhadores ficaram desempregados e muitos setores que estavam em crescimento, decresceram e entraram em depressão. 

“Houve um impacto cultural das chamadas liberdades do direito de ir e vir e do uso do corpo e das relações sociais que foram limitadas. O cerceamento de vários tipos de recursos e serviços foram  estrangulados, mas por outro lado é preciso que tenhamos claro que temos que olhar para uma perspectiva positiva de as famílias estarem dentro de casa. Nós que vivemos em centros urbanos e temos uma vida corrida, eu como professor, que saio pela manhã e volto a noite, que sou pai e tenho a mãe com câncer, tenho pouco tempo em casa e vivemos praticamente para manter a vida.  Mas, efetivamente não vivemos a nossa vida, e sim, somos ‘vividos’ por ela. O enclausuramento residencial permite um desenclausuramento da cabeça, da mente das cabeças das pessoas”, explica ele.

“Eu espero que dentre as coisas que fiquem é essa redescoberta de sí mesmo, que as pessoas comecem e aprendam a se olhar novamente, ter mais detalhes e cuidar da família, atenção às mínimas coisas. Esse vírus fez com que fôssemos mais minuciosos. A preocupação com o asseio não se dá somente com a limpeza da sua casa, mas também com a limpeza do indivíduo”, relata.

“É preciso que essas lições fiquem e reinventemos as relações sociais, as familiares e fraternais. Estamos usando muito as redes sociais e usando a tecnologia para nos comunicarmos, nós que estamos habituados a nos contactar pessoalmente, a apertar as mãos e abraçar o outro. Isso é um impacto e um problema social muito grande”, pontua Max Caracol.

Sobre as dificuldades de manter as pessoas em casa, o filósofo destaca que não só o Amazonas, mas o Brasil, de um modo geral, tem como uma das características ter um povo andarilho

“Somos andarilhos, habituados a andar, e é difícil você conter pessoas que já te culturalmente essa prática de ser andarilho. “É difícil, Penso que há coisas que não vão mudar pois já vem de séculos, milênios de construção, mas há coisas onde é a oportunidade que nós temos de mudar para melhor, para sí, para o outro, a família, saber se reinventar, abrir a mente, fazer dessa clausura uma forma de desenclausurar a mente e enxergar as coisas sob uma outra perspectiva, reinventar valores e relações que agora, neste momento específico, você testa".

O próprio filósofo testou positivo para o Novo Coronavírus. “Eu, por exemplo, fui infectado pelo Covid e passei muito por isso onde determinadas relações que estavam há décadas esquecidas na minha vida, que eu entrava em contato uma vez ou outra, ressurgiram e entraram em contato no momento certo e são um suporte incrível na minha vida. De novas relações que são extremamente importantes, presentes e disponíveis a te ajudar e dar atenção, conviver com você, no momento de fragilidade. A humanidade tem uma oportunidade fantástica de se tornar melhor. Eu tenho otimismo quanto a isso, de aprender coisas em sua pequena célula que é a casa".

Há complexidades a serem resolvidas de diversas ordens não podemos comparar o enclausuramento social de uma classe média com alguém que vive em condições abaixo da linha da pobreza, diz ele. “Ai é difícil e são outras realidades, onde o Estado deve contribuir e intervir. Os ricos de bom senso deveriam ajudar no sentido de proteger porque não está em jogo a condição de classes, mas a condição de vidas. A saúde no Brasil parece um sintoma de condição de classe, onde quem tem dinheiro tem um excelente sistema, e quem não tem usa o SUS (Sistema Único de Saúde) com práticas deficientes, pobres, sofrendo dilapidação constante. E com ingerências terríveis dos governantes”, analisa o pensador.

ECONOMIA X VIDA

Sobre a perspectiva de que economia e vida andam simultamente, ela não é absurda e tem sentido, sim, diz o filósofo, no entanto, ele explica que, “porém, nesse momento inicial, no momento mais grave da contaminação, a grande estratégia seria continuar com a experiência utilizada nos outros países que é o isolamento social; a responsabilidade dessa confusão nós temos que vincular essa iniciativa ao atual presidente do País, de uma postura de achismos e pessoal de interesse de classe que não leva em consideração o discurso e as práticas e os resultados que a Ciência tem demonstrado”.

Paralelo a isso, ele fala que há interesses de governadores “preparando palanque para as eleições de 2022 em nome das suas candidaturas” e que o “Brasil nunca teve uma política efetivamente de Estado brasileiro, e sim de governo, sem planejamento estratégico de 10 anos, por exemplo, para Educação, Saúde, Economia e Cultura, por exemplo, e não levam em consideração o que é feito no governo anterior”.

Ao falar sobre corrupção, a “grande doença do Brasil”, segundo o próprio Max Caracol, o filósofo frisa que a prática está historicamente inserida no País desde “a carta de Pero Vaz de Caminha quando o mesmo escreve para dom Joao VI e pede uma vaga de trabalho de alto escalão para o seu cunhado, o que se chama nepotismo”.

Mudanças individuais

O historiador Juarez Clementino acredita que a relação das pessoas com a História vai mudar depois do Covid-19. “Muita gente vai passar a entender e valorizar que a História é importante para recorrer em casos como esse da pandemia, que não é a primeira, caso de muita coisa que foi feita na Gripe Espanhola e que está sendo feita agora nesta”, ressalta ele.

Juarez Clementino acredita, também, que o ritmo de vida após a pandemia vai variar de pessoa para pessoa e não de forma coletiva. “Isso não será generalizado. Muitas pessoas entenderam nesse período de quarentena e recolhimento que podem viver em um ritmo menos acelerado, dispensar algumas coisas. Muitos terão menos pressa variando de pessoa. 

O estilo segue o mesmo caminho, diz o especialista, “só que talvez mais perceptível grupalmente, coletivamente, e muita coisa deve mudar nos valores que se vai cultivar, com alguns sendo mais importantes”.

Quanto a mudanças de hábitos, a pandemia traz uma grande modificação ao uso da tecnologia. “Muita gente que não utilizava ou utilizava mal está passando a utilizar. Penso que alguns itens  tecnológicos vão ganhar mais atenção, como a Educação à Distância, que era pouco utilizada”.

Outro exemplo, diz o historiador, são serviços digitais como de automação bancária “que devem ganhar impulso bem como o comércio eletrônico”.

A pandemia ensinou coisas que não estavam muito claras e nem sempre valorizadas como os recursos humanos de Saúde. “Acredito que isso deva fazer alguma diferença na relação que essa a profissão devam ter nas redes de Saúde tanto pública quanto privada. E sobre o tratamento de pessoas deve haver ressignificação nisso. “A resistência à Telemedicina deve diminuir bastante, e com essa redução talvez seja possível fazer alguns atendimentos onde não havia, seja por limitação ética, legislativa, etc.

Cenário para adoecimentos mentais

A psicóloga Kelly Pereira analisa que a pós-pandemia será cenário para o surgimento de alguns adoecimentos mentais.

“Acredito que haverão alguns adoecimentos visto que, a quarentena, o isolamento social, o medo, a mudança do ritmo das relações sociais e a incerteza do amanhã mexem com o psicológico das pessoas. Aqueles que já têm um tipo de transtorno como ansiedade e depressão, poderão ter quadro agravado com esse isolamento, com essa quarentena, essa pandemia toda. Isso é  preocupante. Acredito que haverá muitas dificuldades para tentar recomeçar, se reinventar de novo, levar uma vida como antes pois não será a mesma coisa”, comenta a profissional.

“As pessoas morrem psicologicamente, e muita das vezes nem é a doença em sí”, diz Kelly. “Tenho como experiência a minha mãe, que tem câncer. E se eu não tivesse o conhecimento que tenho hoje quanto psicóloga e não soubesse como lidar com esse diagnóstico que ela recebeu? Ela já teria morrido. Eu trabalhei na mente dela, pois as pessoas veem o câncer como morte, mas muitas das vezes tem cura. Algumas pessoas já morrem no psicológico, não conseguem aceitar aquilo. Com a minha mãe foi diferente: falo sempre pra ela que tem cura, enquanto há vida há esperança, a Medicina e tudo mais. E ela não se abateu tanto pela doença. Uma colega me relatou que o amigo do pai dela faleceu de infarto ao saber que estava com Covid. A pessoa já coloca na mente aquilo e acaba absorvendo e morre porque nossa mente tem a facilidade de absorver informações sejam elas positivas ou negativas" explica.

Ela ressalta que o medo de recomeçar a vida e voltar à rotina como antes pode se agravar e causar transtorno de ansiedade. “Se a pessoa já tiver ansiedade isso vai se agravar mais”, pontua a psicóloga.

“Queira ou não o transtorno de ansiedade, ele vem gerado pelo medo. Temos certo medo, a ansiedade normal, digamos assim,  mas quando isso acaba interferindo  no seu cotidiano, no trabalho, na sua vida, como preocupações é medos excessivos, sudorese, palpitações dentre outros. Isso vai se focar mais na questão da aglomeração pois a pessoa vai ficar com aquilo na cabeça: será que o vírus foi embora mesmo? Será que eu vou me contaminar? Eu particularmente, quando vejo alguém tossindo ou espirrando  perto de mim já fico receosa pois não sei se a pessoa está com Covid ou não. Visto que antes achava "normal" Nossa mente é tão poderosa que, se ela adoece o corpo vai junto”, disse ela, que é pós-graduanda em Psicopedagogia Educacional.

 

Repórter de A Crítica

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