Domingo, 31 de Maio de 2020
o que fazer?

Especialistas dão dicas para evitar a ansiedade em tempos de coronavírus

Pandemia testa os limites da saúde mental com uma ‘chuva de informações’ e o isolamento compulsório



idoso_2CE1AF42-AA8F-4F52-B20A-F951E7CA3256.JPG Amazonense já sente as mudanças na rotina desde a última semana. Foto: Reprodução / Internet
22/03/2020 às 08:26

Evitar aglomerações de pessoas tem sido uma das melhores formas de impedir que o novo coronavírus (Covid-19) infecte mais pessoas. Desde a confirmação do primeiro caso no Estado, muitos amazonenses, com ou sem sintomas gripais, estão de quarentena em casa. No entanto, controlar a vontade de ir para a rua encontrar os amigos ou ficar sem renda tem causado estresse e ansiedade em muitos. Enfrentar um recolhimento social pode ter impacto na saúde mental, por isso A CRÍTICA conversou com especialistas para saber como lidar com esse período da melhor forma possível.

Habituado à correria para cumprir as suas últimas obrigações acadêmicas antes de formar, o estudante de ciências biológicas da UEA Jhonatan Gomes, 24, tem tirado o melhor proveito possível desse período de quarentena. “Tenho aproveitado para desacelerar um pouco, colocar a leitura em dia e assistir às minhas séries favoritas. O que realmente tem me incomodado é a sensação de perda de liberdade de ir e vir”, contou.



Para o psicólogo clínico Alexandre Cavalcante, apesar do estresse que a limitação social eventualmente causa, a quarentena pode ser uma oportunidade para descansar a mente e se voltar para outras atividades mais caseiras como produções audiovisuais, leitura e colocar o sono em dia.

“As pessoas precisam ter consciência de que as informações divulgadas na mídia não são para gerar caos, mas para evitar que isso aconteça com a disseminação do vírus. A empatia nunca foi tão importante nesse momento pelo qual o mundo está passando. Exige sensibilização da população evitar atividades rotineiras visando o bem estar coletivo”, observou, complementando que é comum, após tantos anos de rotina acelerada, que algumas pessoas encontrem dificuldades de exercer tarefas individuais.

Cavalcante diz ainda que o recolhimento social é um momento de saber também que as mudanças envolvendo a adaptação ao álcool em gel e a higienização mais rigorosa dos objetos vão exigir um autocuidado mais intenso daqui para frente.

“Isso significa que a motivação para essa quarentena pode ser uma oportunidade de despertar uma reflexão sobre o quanto estamos dispostos a sermos tolerantes com a nossa própria presença por longas horas e o quanto também podemos cuidar de quem queremos bem”, apontou.

Para quem necessita do contato social para tirar a sua renda mensal a história tem sido outra. O DJ Paulo Soares, 21, já tem sentido no bolso os impactos dos cancelamentos dos eventos. “Esses dias têm sido horríveis e entediantes. Eu tinha quatro apresentações confirmadas nesse fim de semana. Todas foram canceladas. Agora as minhas dívidas vão acumular e isso tem me deixado bem ansioso”, contou ele, que ainda não faz ideia de como vai organizar a vida financeira nesse período de escassez.

Com eventos sendo cancelados desde a semana passada, o dj Paulo Soares já sente no bolso os impactos do recolhimento social. FOTO: arquivo pessoal

A psicóloga organizacional Aline Félix orienta que a quarentena pode ser uma ótima oportunidade para se reeducar financeiramente ou criar planos que, de alguma forma, possam incrementar a carreira (como cursos de idioma gratuitos pela Internet).

“Como escape, precisamos ter um contato social com as pessoas que gostamos, mesmo que à distância, por telefone ou pelas redes sociais. Independentemente da situação, nós precisamos manter um convívio para mitigar a ansiedade. Exercícios físicos dentro de casa, com auxílio de vídeos da internet, são uma ótima opção. Podemos considerar que, quando tudo isso passar, estaremos mais fortes”, projeta.

O psicólogo Sérgio Freire, que tem pesquisado sobre a saúde mental em tempos contemporâneos na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), lembra que não só é preciso cuidar do corpo tendo uma boa alimentação durante o recolhimento, evitando álcool, por exemplo, como também incentiva que todos busquem a resiliência (capacidade de lidar com problemas sem deixar de encontrar soluções para superar as adversidades).

“Olhe a situação de forma realista sem entrar em pânico. Foque no que você pode controlar. Vamos tentar diminuir a ansiedade dosando a overdose de informação [sobre o Covid-19]”, ensina Freire. “É um bom momento para aprender as atitudes ‘não julgar’ e ‘aceitação’. A pandemia não vai durar para sempre e você é mais forte do que pensa”.

Blog: Sérgio Freire, psicólogo e professor de Letras

Cenários que mudam bruscamente tendem a inquietar as pessoas. Então, regra geral, vamos tentar diminuir a ansiedade dosando a overdose de informação sobre a Covid-19. Aproveitemos o tempo para ressignificar a solidão como tempo de reflexão e encontrar nossos espaços de subjetividade. Ler, ver filmes, conversar, ouvir música. Reestabelecer conexões perdidas com os seus por chamadas de vídeo. O isolamento social é biológico apenas. É hora de fazer aquilo que lhe dá prazer e que o corre-corre do dia a dia não deixa. Elaborar uma agenda de atividades em casa para o tédio não tomar conta. Ao cuidar de si, pense sempre no coletivo e se proteja para proteger os outros.Para algumas pessoas, mais impactadas economicamente, será mais difícil. A sociedade vai ter de redescobrir a solidariedade e novas formas de se ajudar. Deve haver um grande impacto econômico – já está havendo, de fato – com profissionais liberais, esses que se não trabalharem não recebem. Na Europa e nos EUA, os governos estão traçando políticas de renda provisória. No Brasil nada ainda.

Estresse e depressão

De acordo com uma revisão de pesquisas, publicada este mês na revista científica “The Lancet”, sobre os efeitos psicológicos da quarentena durante o período da epidemia de síndrome respiratória aguda que surgiu em 2002, 29% dos entrevistados apresentaram sintomas de estresse pós-traumático, enquanto 31% tiveram depressão depois do período de quarentena.

Atendimento psicológico online e gratuito

No site “A Chave da Questão” há diversos psicólogos conectados oferecendo apoio gratuito a pessoas que estejam lidando com alguma dificuldade durante a quarentena. O endereço é www.achavedaquestao.com.br. A página ressalta nas redes sociais: “somos pessoas respondendo, não robôs automáticos”.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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