Segunda-feira, 26 de Outubro de 2020
DÚVIDAS

Estudo sobre menor gravidade da Covid-19 por uso de máscaras é contestado

Pesquisadores brasileiros fazem ressalvas à respeito de estudo feito na Universidade da Califórnia (EUA) que faz relação com o uso de máscaras e a gravidade da infecção pelo coronavírus



afp1_88F4E99A-5BB0-4BE0-8FC1-C9F0CBA954CF.JPG (Foto: AFP)
20/09/2020 às 16:34

O uso de máscaras ganhou ainda mais importância como ferramenta para combater a pandemia causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) durante esta semana. Estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia (EUA) e publicado na última terça-feira (15) na revista The New England Journal of Medicine afirma que usar o assessório reduz a gravidade da doença e aumenta as chances de novas infecções serem assintomáticas.

Segundo os pesquisadores, investigações epidemiológicas conduzidas em todo o mundo, especialmente em países asiáticos que passaram a adotar máscaras durante o surgimento da SARS de 2003, sugeriram que há uma forte relação entre o uso e o controle do surto. Dados recentes de Boston demonstram que as infecções por SARS-CoV-2 diminuíram entre os profissionais de saúde depois que o mascaramento universal foi implementado em hospitais municipais no final de março.



Controvérsias

Pesquisadores fizeram duas ressalvas com relação ao estudo. O primeiro deles foi quanto à interpretação por parte de uma série de veículos de imprensa, que alegaram que as máscaras "induzem anticorpos", o que não é verdade. "Mascaras não induzem anticorpos. O artigo especula sobre a possibilidade de as máscaras, por diminuírem a carga viral a que somos expostos contribuírem para infecções leves ou assintomáticas. Uma carga viral menor estaria associada a formas mais leves da doença, ou formas assintomáticas. Isso evitaria formas graves da doença", explica a microbiologista Natália Pasternak, em sua conta no Twitter.

"Essas matérias foram mal elaboradas. O estudo sugere que as máscaras reduzem a carga viral, mesmo quando são menos efetivas (feitas de material menos protetor, como tecido). E sabemos que quanto menor a carga viral, maior a probabilidade de o indivíduo ficar assintomático. A máscara não induz imunidade", explica Eduardo Flores, virologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul.

A outra ressalva diz respeito à própria conclusão do estudo. "É preciso entender que a partir do momento em que o vírus entra no corpo humano, ele começa a se multiplicar independentemente da quantidade. Seria preciso determinar qual a carga viral seria capaz de determinar uma reação do organismo de forma mais ou menos intensa", analisa Marcos Guerra, infectologista e diretor presidente da Fundação de Medicina Tropical Henrique Vieira Dourado (FMT-HVD).

Uso da máscara na prática esportiva

Outra dúvida frequente com relação ao uso de máscaras é a utilização delas durante a prática esportiva. Com a flexibilização da quarentena e o retorno de atividades como academias e caminhadas ao ar livre, muitas pessoas ainda não sabem se devem ou não usá-las durante o exercício.

"Em ambientes externos, não havendo pessoas próximas, não tem porque usar máscara. No caso de esportes de alto rendimento, por exemplo, é mais complicado, porque acaba molhando e elas perdem a função. No caso do futebol, eles não usam e testam os atletas o tempo todo", afirma Eduardo Flores.

Mas em ambientes onde há presença de outros praticantes, o dr. Marcos Guerra recomenda o uso do acessório, juntamente com outras medidas. "Em academias o uso é importante, assim como manter a distância de outras pessoas e higienizar as mãos e os aparelhos", ensina.

Usar a máscara é importante

Apesar de algumas polêmicas, não há dúvidas quanto à necessidade do uso das máscaras neste momento. Mas também é importante ficar atento ao material usado. Em junho, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) disponibilizou o guia da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre máscaras cirúrgicas e de tecido. O documento foi atualizado para incorporar as descobertas mais recentes de pesquisas científicas e fornecer conselhos práticos.

A combinação ideal de materiais para máscaras de tecido não-cirúrgicas deve incluir três camadas: 1) uma camada mais interna feita de material hidrofílico (por ex., algodão ou misturas de algodão); 2) uma camada mais externa feita de material hidrofóbico (por ex., polipropileno, poliéster ou misturas desses materiais), para limitar a contaminação externa por penetração até o nariz e a boca do usuário; 3) uma camada intermediária hidrofóbica feita de material sintético não tecido, como polipropileno, ou uma camada de algodão, para melhorar a filtração ou reter gotículas.

A OPAS afirma ainda que uso somente delas, sem outras ações, é insuficiente para fornecer um nível adequado de proteção. Também é importante manter uma distância física mínima de pelo menos 1 metro de outras pessoas, limpar frequentemente as mãos e evitar tocar no rosto e na máscara.

Eficácia comprovada Esse não é o primeiro estudo a associar uma carga viral menor a uma doença mais branda. Outro experimento observado e publicado na Clinical Infectious Diseases, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, observou um surto de Covid-19 na Suíça entre uma população de 508 soldados, predominantemente do sexo masculino, com idade média de 21 anos. Os cientistas seguiram o número de infecções em dois grupos de soldados separados espacialmente antes e após a implementação de um distanciamento social rigoroso.

Dos 354 soldados infectados antes da implementação do distanciamento social, 30% ficaram doentes com a Covid-19. Embora nenhum soldado do grupo 154, em que as infecções tenham aparecido após a implementação do distanciamento social, tenha desenvolvido a doença, apesar da detecção de RNA viral no nariz e de anticorpos específicos para esse grupo.

Do portal vocativo.com

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