Quarta-feira, 25 de Novembro de 2020
EFEITO COVID-19

Maus-tratos e abandono de animais de estimação crescem com pandemia

Fakes news e informações sem comprovação científica de que animais podem transmitir o vírus elevaram denúncias



1594505_FEF7A487-EB9D-422B-B4AB-D956C7DC8415.jpg Foto: Junio Matos
05/04/2020 às 11:48

Essa semana a suposta transmissão do novo coronavírus (Covid-19) de uma pessoa para o seu gato de estimação, na Bélgica, foi assunto em vários países do mundo. Isso porque até então não existe comprovação científica de que uma transmissão possa acontecer nem de um humano para um animal e nem de um animal para um humano. O assunto, assim como muitos outros desde que surgiu a pandemia de Covid-19, tem gerado incertezas e medos.

A falta de informações e as fake news (notícias falsas) têm deixado a população confusa e pode ter sido o motivo do aumento dos casos de maus-tratos em animais, segundo estimativas da Delegacia Especializada em Crimes contra o Meio Ambiente (Dema). Isso porque, segundo dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-AM) somente no mês passado foram registradas mais de 50 denúncias na especializada. A media por mês ficava entre 10 e 15 registros de maus-tratos.



A situação, segundo a titular da Dema, delegada Carla Biaggi, pode ter sido influenciada pela disseminação das informações relacionadas à pandemia do coronavírus. Isso porque boa parte dos animais tem sido encontrada em residências, onde os moradores mudaram e abandonaram os animais.

“Com essas notícias fakes na internet, onde alguns falam que os animais transmitem o vírus (da Covid-19), acabou aumentando o número de denúncias de maus-tratos, porque o abandono é um tipo de mau-trato. Isso é uma coisa que vem acontecendo em toda Manaus, não tem como estipular o bairro com maior incidência, mas geralmente são em áreas mais humildes”, disse Biaggi.

A delegada explica que a maioria das denúncias é feita por vizinhos que observam o animal abandonado em residências e que quando os donos são identificados respondem criminalmente pelo ato. “Tem ocorrido muito em imóveis que as pessoas se mudam e deixam os animais lá. Aí os vizinhos ligam e dizem que estão alimentando até chegarmos ao local. Sobre a pessoa que comete o crime, a gente tem conseguido identificar na maioria das vezes. Isso porque em boa parte das situações eram locais alugados, onde tinham inquilinos. Então, através do dono do imóvel nós conseguimos identificar essa pessoa que pode responder criminalmente”, afirmou.

O denunciado, quando identificado, responde por meio de um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), e com penalidade de até dois anos. As denúncias podem ser feitas tanto na sede da delegacia, como nos canais online na Delegacia Interativa ou pelo disk 181. As duas últimas opções estão sendo as mais recomendadas pelo órgão nesse período de pandemia do vírus.

Especialista 

O médico veterinário Franklyn Ferreira de Oliveira explicou que o novo coronavírus é uma variante diferente do coronavírus veterinário, que somente afeta os cães, gatos e furões, especificamente. E que apesar de ainda não haver evidências científicas de que os animais de estimação podem transmitir a Covid-19, existe a possibilidade biológica de transmissão e replicação do vírus.


Veterinário Franklyn de Oliveira afirma que animais não devem ser isolados. Foto: Sandro Pereira.

“Os animais de companhia podem funcionar como vetores ou carreadores mecânicos (pêlos, unhas e língua) do vírus, exigindo cuidados de higiene após os passeios e contato com as áreas externas. No entanto, cientistas sugerem que pessoas confirmadas positivas para Covid-19 se mantenham afastadas de seus animais, pois existe uma pequena possibilidade de alguns animais albergarem o vírus por meio do contato próximo com pessoas doentes”, explicou.

O especialista ressaltou que existem disponíveis, em clínicas e consultórios, vacinas para coronavírus canino, mas que a mesma não protege contra o vírus atual e até então acometido em humanos. Neste caso, a recomendação é manter a higiene pessoal e do animal, que não deve ser abandonado.

“Não existem confirmações científicas que a vacinação de cães contra coronavirose canina proteja contra a infecção pelo vírus da Covid-19. Vale ressaltar que não há justificativa para abandonar ou isolar os animais, comprometendo o seu bem-estar, pois ainda são necessários mais estudos para entender como diferentes espécies animais podem adquirir o vírus e como ocorre a contaminação em espécies animais suscetíveis. Enquanto estas novas pesquisas buscam entender como os animais podem ser afetados pelo novo coronavírus, sugiro que medidas de precaução devem ser adotadas pelos proprietários”, afirmou o veterinário.

Faltam evidências para teoria

A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que até o momento não há evidências de que um cão, gato ou qualquer animal de estimação possa transmitir a Covid-19. Isso porque o vírus é transmitido principalmente através de gotículas produzidas por uma pessoa infectada, tossindo, espirrando ou conversando. As informações tomam como base a falta de evidências científicas comprovando essa teoria. 

No mundo todo, os relatos  existentes mostraram que  além do gato na Bélgica, que apresentou alguns sintomas e teria sido contaminado pela dona,  dois cães em Hong Kong também contraíram a Covid-19,  mais não apresentaram sintomas.

Orientações de cuidados

Devido à preocupação com as informações relacionadas aos animais de estimação, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), por meio da Assessoria de Bem Estar Animal, tem feito orientações a população sobre os cuidados básicos que devem ser adotados com os pets, os animais de estimação.

A principal orientação dos órgãos de saúde é de que a população evite ao máximo os passeios com os animais de estimação a não ser que sejam feitos apenas para atender às necessidades fisiológicas do animal, caso não haja outra alternativa. É necessário, ainda assim, evitar o contato com outros bichos e pessoas, buscando lugares menos aglomerados e horários mais tranquilos para a atividade.

Essas orientações ajudam a evitar o risco de transmissão pela Covid-19, principalmente, aos donos dos animais.

ONGs lamentam atitudes de donos

Em Manaus, algumas ONGs relacionadas à proteção animal lamentam os casos de animais que estão sendo abandonados ou maltratados devido um medo infundado de que os bichos podem transmitir a Covid-19. As ONGs destacam a falta de evidências de que os animais de estimação sejam fonte de infecção ou que possam ficar doentes devido ao novo coronavírus.

A gerente de programas veterinários na Proteção Animal Mundial, Rosangela Ribeiro, ressaltou que é imprescindível neste momento não abandonar seus animais e lembrar de abrigos e ONGs que acolhem os que estão em situação de rua. “É lamentável que devido ao medo infundado e a desinformação, algumas pessoas abandonem ou sacrifiquem os animais. Abandonar ou matar animais causa sofrimento à eles e, além de cruel e antiético. É ilegal e pode gerar punições”, disse.


A higienização das patas e pêlos dos animais ajuda na prevenção ao Covid-19. Foto: Divulgação

Segundo ela as pessoas podem seguir as recomendações do Ministério da Saúde e ajudar as ONGs com doações para que o trabalho com esses animais não fique desamparado. “Sobre a prevenção, a melhor maneira é seguir algumas recomendações do Ministério da Saúde, como, por exemplo, evitar beijar no animal de estimação, após passear com ele, higienizar patas e pêlos com água e sabão neutro de uso veterinário. Além disso, é necessário lavar bem as mãos antes de manipular alimentos ou brinquedos dos animais”, pontuou.

Para Carla Manarte, membro da ONG Sem Raça Definida, não é possível relacionar o aumento nos casos de abandono de animais com a Covid-19. “A gente não tem recebido reclamações quanto a isso, de abandono por isso. Agora tem o site, onde as pessoas podem denunciar e isso pode ter influenciado. Com certeza pode ter alguém abandonando por isso, porque ouviu falar do contágio por parte dos animais. Mas é algo que não chegou até a gente ainda e deve ser muito pouco”, disse.

Manarte explicou que o objetivo da ONG sempre foi disseminar informações para evitar o abandono, o aumento do número de animais nas ruas e a importância que a castração tem nesse sentido. Mas muitas pessoas têm procurado a organização para tirar dúvidas sobre a relação do animal com o coronavírus.

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Repórter de Cidades
Formada em 2010 pela Uninorte, é pós-graduada em Assessoria de Imprensa e Mídias Digitais pela Faculdade Boas Novas. Repórter de Cidades em A Crítica desde 2018.

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