Quarta-feira, 03 de Junho de 2020
ESTUDOS

Médico propõe novo tratamento em pessoas com perda de olfato repentina

Quadro é um dos sintomas da Covid-19 e a intenção é criar uma saída eficaz para evitar entrada de mais infectados em estado clínico grave nas UTIs do Brasil



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31/03/2020 às 18:13

Uma nova abordagem quer oferecer oportunidade de tratamento para pessoas que apresentem quadro de anosmia aguda (perda repentina do olfato) que é identificado como um dos sintomas do novo coronavírus (Covid-19) e, por consequência, que apresentem ageusia aguda (perda repentina do sentido do paladar), em especial para doces e salgados; propondo ser uma saída possivelmente eficaz para evitar a entrada de mais infectados em estado clínico grave nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) em hospitais do Brasil.

O tratamento precoce vem sendo analisado por um grupo de apoio ao combate à epidemia causada pela Covid-19 e é formado por médicos, cientistas e especialistas de algumas renomadas instituições de São Paulo e de outras regiões do Brasil, além de contar também com as contribuições de médicos experientes no tratamento da doença em países como: Itália, EUA, China e de Hong Kong. No Brasil, a proposta da nova abordagem da doença é liderada pelo médico anestesiologista Luciano Dias Azevedo que é oficial médico da reserva da Marinha do Brasil e com experiência em saúde na região amazônica.



“A proposta é a de um tratamento nas fases iniciais da doença que ainda está em análise porque, levando-se em consideração de uma doença nova de alta infectividade e progressão muito rápida, ainda não existem estudos científicos sólidos nesse sentido. No entanto, já temos excelentes evidências de boas respostas clínicas descritas no tratamento dos pacientes graves em muitos países do mundo que enfrentam a doença, inclusive no Brasil”, explica o médico Luciano Azevedo.

Na correria contra o relógio, Azevedo desta que o Brasil está “literalmente em estado de guerra contra a Covid-19, diante do avanço extremamente rápido da nova doença no mundo”. Ele destaca que não há tempo de estruturar protocolos científicos como o que é “idealmente preconizado pelas autoridades em saúde”. 

O médico explica que o novo modelo de tratamento seria direcionado para as pessoas que não apresentem contra indicações ao uso das medicações, que estejam com sintomas leves como a perda repentina do olfato, sintomas gripais leves ou moderados (febre, coriza, dores no corpo, tosse) e, que, caso possível, apresentem o teste positivo para Covid-19. 

“O nosso objetivo é de salvar vidas e, por isso, propomos oferecer acesso ao protocolo experimental para todas as pessoas que apresentarem sintomas clínicos leves e, sendo possível realizar o teste e dando positivos para Covid-19, e mesmo sem evidências científicas sólidas do tratamento precoce, desejarem, voluntariamente, serem tratadas precocemente no intuito de, possivelmente, não complicarem e correrem o risco de entrarem em quadros avançados da doença”, enfatiza o médico.

Média mundial aponta 86% de casos assintomáticos

De acordo com o médico Luciano Dias Azevedo, existe uma média mundial que aponta os números de pessoas que foram infectadas com o novo coronavírus sem apresentar quaisquer sintomas, mas sem contabilizar os que tiveram a perda do olfato. 

“Uma média mundial de pacientes com a Covid-19 mostra que algo em torno de 86% das pessoas que testaram positivo para a doença (Covid-19), eram assintomáticas. No entanto, muitas dessas pessoas, consideradas previamente como assintomáticas, informaram que perderam repentinamente o olfato e, consequentemente, tiveram alteração do paladar. Porém, ainda não há dados oficiais mensurados desse percentual de indivíduos”, revela. 

De acordo com o médico, as evidências mostradas em trabalhos científicos Italianos e franceses sugerem que, num quadro de epidemia da Covid-19, na região estudada, há 99% de probabilidade de pacientes apresentando apenas perda repentina do olfato terem sido contaminados e já apresentaram alta carga viral da Covid-19. O dado, segundo o anestesiologista, possibilita o tratamento logo na etapa inicial da doença, caso autorizado pelo paciente, evitando assim que esses indivíduos sejam disseminadores da doença ou ainda, que o quadro deles possa se agravar levando à superlotação nas UTIs.

“Acreditamos que esse tratamento pode ser um ato humanitário porque poderemos oferecer a oportunidade de acesso às pessoas que estão em fase inicial da doença, e que elas possam dizer o que querem, já que estamos diante de uma possível catástrofe epidemiológica”, reforça Azevedo. 

Tratamento 

Apesar de os medicamentos propostos já serem amplamente prescritos e seguros no tratamento de outras doenças, não há estudos científicos que comprovem a eficácia deles nos quadros iniciais da COVID-19. Porém, o médico defende a eficácia do tratamento.

“Como há boas respostas clínicas e aparente diminuição da carga viral nos pacientes mais graves, é possível que consigamos repetir o mesmo resultado nos estados iniciais da mesma doença. Às pessoas com sintomas leves ou moderados ou simplesmente com a perda do olfato e que desejarem ter o acesso ao tratamento experimental, assinarão um Termo de Consentimento Livre e Esclarecimento (TCLE), e o tratamento precoce sugerido será feito com o uso de hidroxicloroquina, podendo ser associada à azitrocimicina e sulfato ou óxido de zinco, dependendo de cada caso.

Estados Unidos irá adotar a mesma medida

O médico Luciano Azevedo revela que ainda nessa semana, os Estados Unidos da América (EUA) deverão adotar medida semelhante e que “em países populosos como o Brasil e os EUA é, na prática, impossível testar toda a população, uma vez que não há recursos de produção mundial de testes capazes de suprir a demanda na atual conjuntura, sendo prioritário apenas os grupos mais vulneráveis”. 

“Eles (EUA) vão começar o novo protocolo com uso na medicação nos mesmos moldes semelhantes aos aqui sugeridos em algumas regiões ainda nesta semana. Diante dessa doença nova, o aprendizado é em tempo real e diário, feito por meio da observação e estudo do que ocorre nos outros países. Isso que nos dá a oportunidade de, observando, estudando e aprendendo, fazermos melhor e vencermos a doença com menos perdas de vidas aqui. Esse foi o ponto principal da formulação dessa nova abordagem que utilizou a observação dos resultados das condutas nos outros países”, esclarece o profissional da saúde.

O médico Luciano Azevedo é enfático ao dizer que o tratamento precoce “não significa a cura, mas uma possível ferramenta para amenizar danos à saúde das pessoas e, como desejado, diminuir mortalidade comparada à de outros países. 

“Na ausência de sintomas não há nenhum benefício do uso de medicações. Então, devemos continuar a seguir todas as recomendações previamente absorvidas pela população como: manter boa higiene corporal, distanciamento social, evitar aglomerações de pessoas, dentre outras tantas medidas até que tenhamos resultados conclusivos dessa nova abordagem da doença”, conclui o médico.

Estudo com uso de cloroquina em pacientes de Manaus ainda não tem previsão de resultado

O médico infectologista, Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), que comanda um estudo inédito em Manaus (AM) com o uso da cloroquina em pacientes internados e diagnosticados com a Covid-19, diz que ainda é muito cedo para se saber se a droga é eficaz ou não no tratamento da doença.

“Ainda não houve tempo para se ter uma resposta concreta. Estamos completando nove dias com o uso em dois pacientes. É muito precoce afirmar alguma coisa. Ainda estamos aprendendo”, salienta Lacerda.

Sobre o novo tratamento precoce sugerido pelo médico Luciano Dias Azevedo de tratar as pessoas identificadas já com anosmia, Marcus Lacerda declara que “essa pode ser sim uma doença muito grave e que essa é uma hipótese importante que está sendo testada em várias partes do mundo”. 

“Não é apenas em São Paulo que estudos desse tipo estão sendo feitos, mas também aqui em Manaus, onde estamos avaliando se funciona apenas em pacientes graves. Mas, acredito que cada estudo é complementar”, enfatiza o infectologista que lidera uma equipe de pesquisadores de várias instituições renomadas do Brasil. A pesquisa está sendo feita no Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz que é a unidade de referência no Amazonas no tratamento do novo corovírus.  

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