Domingo, 27 de Setembro de 2020
ENTREVISTA

‘Ônibus lotado é como uma sala pegando fogo’, diz diretora da FVS-AM

Em entrevista para A Crítica, a Rosemary Pinto explica que, apesar da redução da velocidade de novos casos, existe o risco de um novo pico da doença na capital: "Vai depender do comportamento da população"



1779233_6AFEAEC7-B094-46D4-A40F-605B92AB63A1.jpg Foto: Aguilar Abecassis
22/06/2020 às 10:52

Apesar da queda nos números de internações e de óbitos causados pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) na capital amazonense, aglomerações em locais como transporte público podem ser fatores para que o número de infectados volte a crescer por aqui. 

Em entrevista concedida para A CRÍTICA nesta semana, a diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), Rosemary Costa Pinto, reforçou o apelo para que a população continue adotando as medidas de prevenção. Confira:



Qual a realidade da pandemia, hoje, no Estado?

É muito pouco o número de casos novos no Amazonas e digo isso porque, quando vamos analisar o número de exames de RT PCR, o qual detecta o vírus presente nas cavidades nasais, é muito pequeno. Já os números de testes rápidos realizados, que mostra um retrato de oito dias até três mêses atrás de presença do vírus, é bem maior.

O que está acontecendo é que nós estamos testando mais porque temos mais acesso aos testes rápidos, consequentemente, detectando casos antigos. Por isso nós podemos dizer que os casos estão diminuindo, assim como as hospitalizações estão diminuindo em Manaus e interior, e os óbitos também reduziram drasticamente.

Com a reabertura das atividades econômicas na capital, nós temos visto o transporte público tomado por passageiros. Com a aglomeração acontecendo, temos possibilidade de um segundo pico de pandemia?

Sim, nós temos esse risco. Por isso, eu continuo falando reiteradamente que o vírus está aqui. Não é porque houve a queda no número de casos e a flexibilização para retorno gradual das atividades que acabou todo o perigo. Nós voltarmos à situação anterior vai depender de cada um de nós, de como nós nos comportamos.

A atitude adequada é encarar qualquer pessoa, inclusive você mesmo, como alguém que está contaminado e assim vamos tomar todos os cuidados para evitar a transmissão do vírus. Pessoas que entram deliberadamente dentro de um ônibus lotado, elas estão se expondo. E qual a atitude prudente? Não entre nesse ônibus, aguarde o próximo transporte coletivo que, com certeza, terá menos passageiros. As pessoas precisam pensar que é como se uma sala estivesse pegando fogo, ninguém entraria lá.


Rosemary Pinto também alerta para outras doenças respiratórias no AM. Foto: Divulgação

E o cenário do interior do Estado? Como explicar que o número de casos no interior é maior que na capital e apresenta letalidade mais baixa que Manaus?

Os municípios normalmente têm uma rede de atenção básica maior, a cobertura melhor e essa capilaridade faz com que pessoas sintomáticas sejam identificadas mais precocemente e isoladas durante 14 dias. Outra situação que nós vimos em alguns municípios foram  prefeitos muito comprometidos, que baixaram decretos restritivos, e nós temos uma população muito mais obediente que a população de Manaus.

Além disso, o interior tem maior oferta de leitos clínicos. Então, a população teve acesso mais precocemente à internação e assistência médica mais adequada.  A adesão da população às orientações refletiu nesse menor número de casos graves e de óbitos, mas é claro que continuamos com os casos e mortes. Mas, no geral, a situação da pandemia no interior foi menos grave do que em Manaus.

Na sua avaliação, a falta de cobertura em atenção primária teve impacto no número de óbitos?

Sim, pode ter sido. O acesso da população à rede básica, as medidas de orientação, o isolamento dos sintomáticos contribuiu para redução da transmissão e uma rede básica estruturada pode fazer, sim, muita diferença. Destaco aqui que a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) não focou apenas em trazer doentes para Manaus, mas teve toda uma ação intensa no sentido de estruturar as unidades de cuidado intermediário no interior, a rede de gases, a oferta de oxigênio, e a possibilidade dos pacientes terem acesso aos leitos de Unidades de Cuidados Intermediários (UCIs) no interior, tudo iddo fez muita diferença.

Já é possível afirmar com precisão quantas pessoas de fato morreram de Covid-19 no Amazonas?

Todas as mortes são testadas para Covid-19. Inclusive nós temos, na FVS-AM, uma curva que mostra o excesso de óbitos completamente fora do padrão e fora do esperado. Nós sabemos que muitos desses óbitos não estão identificados como Covid-19, mas tudo o que aconteceu de diferente nesse período foi Covid-19. Nós temos quatro vezes o número de óbitos esperados. Com certeza nós temos que ver se esses óbitos foram por Covid-19 ou se eles foram causados pela epidemia.

Aqui na FVS-AM, desde o início, nós tratamos essa questão da pandemia com muita transparência. É claro que nós temos muita subnotificação, muitas pessoas ficaram em casa, muitos foram orientados a não procurar as unidades de saúde. Então, muita gente ficou em casa, não teve acesso a testes e nós não sabemos quem são essas pessoas, mas temos a plena consciência de que o número de casos de Covid-19 foi muito maior que os registrados.


A diretora da FVS-AM anunciou, no dia 13 de março, a confirmação do primeiro caso da doença no AM. Foto: Aguilar Abecassis

A senhora falou que é preciso esclarece quais óbitos ocorreram em decorrência da Covid-19. Como a FVS atua nessa questão? As mortes domiciliares estão sendo investigadas?

Nos últimos 20 dias, nós trabalhamos intensamente para investigação dos óbitos domiciliares em Manaus. Todos os óbitos que podiam ser Covid-19 e que morreram sem uma definição de causa básica, eles foram investigados. Agora nós estamos na fase de tabulação desses dados e de apresentar os resultados no sentido de esclarecer esses óbitos em casa.

Nós queremos também entender quais foram aqueles óbitos em casa em que a pessoa morreu por uma outra causa. Queremos saber se essas pessoas morreram em casa tentaram chegar ao pronto socorro para receber a assistência adequada  e não receberam ou se elas ficaram com medo de ir procurar assistência e se contaminarem com a Covid-19.

Nós montamos uma comissão de investigação de óbitos hospitalares. Nós queremos saber se, daqueles óbitos que ocorreram em hospitais que tinham sintomas, podem ter sido Covid-19. Dessa forma,  estamos fazendo revisão de prontuário, temos cinco médicos que estão trabalhando nisso para tentar identificar, o máximo possível, os óbitos que podem ter sido por Covid-19 justamente porque nós queremos saber a nossa realidade.

Ainda continuam as mesmas orientações de prevenção?

Sim. As pessoas, que puderem, permaneçam em casa. Não é hora de a gente baixar a guarda, não é hora do churrasco com os amigos, não é hora de visitar a família. É hora de nós continuarmos com as medidas de precaução. Só saia de casa caso seja muito necessário e, se ver um ambiente aglomerado, fuja dele.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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