Segunda-feira, 17 de Maio de 2021
ÓBITOS

Pandemia derruba expectativa de vida no Brasil em pelo menos dois anos

A queda do índice chega a três anos em quatro estados brasileiros, incluindo no Amazonas, segundo estudo de universidades norte-americanas, incluindo Harvard, e também da UFMG



covid-nova_D7D817E8-B406-41A5-A527-A4F21DB6ECC2.JPG (Foto: Junio Matos)
17/04/2021 às 15:39

A expectativa de vida dos brasileiros estava em contínuo crescimento desde 1945. Com a pandemia do coronavírus, as projeções que antes indicavam uma expectativa de 77 anos, em 2019, caíram para 75 anos, em 2020. A queda do índice chega a três anos em quatro estados brasileiros, incluindo no Amazonas. A estimativa é de um estudo preliminar conduzido por cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no Brasil, e das universidades de Harvard, Princeton e da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos.

Com o segundo pico da pandemia gerado pelo surgimento de variantes, que causou superlotação de leitos e aumento de sepultamentos em todo o país, um fator que preocupa os epidemiologistas é a mudança de perfil das vítimas da Covid-19. Segundo a Associação Brasileira de Medicina Intensiva (Amib), 52% dos leitos de UTI reservados para a doença no país são ocupados por pessoas até 40 anos. 



Para a médica infectologista, Ana Galdina, o aumento da mortalidade em pessoas de 30 a 45 anos observado no primeiro trimestre de 2021, pode impactar diretamente os índices econômicos do Amazonas.

"Temos que pensar que num primeiro momento a gente teve uma mortalidade muito grande nas idades mais avançadas. Depois viemos com um movimento de imunização desse grupo. Só que essa população mais idosa não é uma população economicamente ativa, que é o jovem adulto que precisa sair para trabalhar. Ele que faz a roda da economia girar. A contaminação da faixa etária entre 30 e 45 anos passou a ser mais prevalente na UTI, portanto passou a morrer mais. Isso pode sim, impactar diretamente nos indicadores econômicos. Porque não vamos ter mão-de-obra, pessoas para trabalhar. A gente vivencia nesse momento as pessoas adoecendo. O que pode vir ai na frente é algo que seja catastrófico para economia. Temos duas catástrofes: a humanitária, perda dessas vidas; e depois a econômica, que é não ter pessoas para girar a roda da economia", destacou a infectologista.

Queda da população

O volume de óbitos ocorridos e registrados no Amazonas nos últimos 10 anos aumentou 44,2%, passando de 11.674, em 2009, para 16.834, em 2019, Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os jovens, os maiores impactos ocorreram entre 15 a 19 anos (46%) e 20 a 24 (36,3%). No grupo até 14 anos, houve queda apenas no intervalo de 1 a 9 anos. Entre as idades intermediárias, houve aumento significativo em todos os grupos de 35 a 59 anos, sendo o mais destacado o grupo de 40 a 44 anos (53%).

Só em Manaus, durante todo o ano passado, foram realizados 2.328 sepultamentos, de acordo com dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). Enquanto em janeiro deste ano, a capital já registrou 5.645 sepultamentos. Ou seja, um aumento de 142,48% no número de enterros.

Apesar do Amazonas estar na 13ª posição no ranking nacional com sua população de 4.207.714, em 2020, oitos municípios amazonenses tiveram quedas de população. Japurá, Itamarati e Silves foram os três municípios com menor população no Estado, de acordo com dados do IBGE.

A infectologista Ana Galdina comenta que estes índices já demonstram uma mudança da pirâmide populacional.

"É importante falarmos sobre a pirâmide populacional no Brasil que já havia mudando. Porque a gente sabe que a pirâmide a base dela é mais larga, uma vez que entra os nascimentos. A gente observava que não vinham nascendo tantos brasileiros. Nós já percebíamos que essa base já havia diminuindo. A tendência da pirâmide era uniformizar as suas etapas. O que acontece? Eu vou ter uma diminuição dessa população do meio da pirâmide. E isso vai impactar por sua vez, no nascimento. A gente já teve a taxa de natalidade menor do que a taxa de mortalidade. Ou seja, menos pessoas nascendo do que as pessoas morrendo. Isso é algo preocupante, este é o nosso cenário", alertou Galdina.

Terceira onda 

Com a iminência de uma possível terceira onda, Ana Galdina ressalta sobre os principais fatores que podem desencadear um novo colapso de saúde no Amazonas e no país. Segundo ela, quanto maior for circulação de pessoas, maior será a transmissão do vírus, podendo até mesmo surgir novas variantes.

"O principal fator que contribui para o aparecimento deste episódio da terceira onda seria o aumento da circulação viral, um aumento da transmissibilidade. E como é que isso pode acontecer? Esse aumento da circulação viral está inevitavelmente atrelado ao aumento da circulação de pessoas. Quanto mais as pessoas passam a circular, mais aquele vírus que está naquela pessoa contaminada e muitas vezes não sabe, passa a circular também. Não podemos descartar que nessa aba venha uma cepa mais transmissível. Estamos falando de vírus que são extremamente mutáveis. A gente fala que a cada 5 contaminações, acontece uma mutação. E essas mutações, na maioria das vezes, não causam maiores impactos. Mas é a natureza. Não podemos garantir que dentro dessas mutações, não possa emergir uma cepa de uma transmissibilidade, virulência, de maior gravidade", ressaltou a infectologista.

Medidas permanecem

Questionada se até mesmo as pessoas vacinadas pela segunda dose podem transmitir Covid-19, a infectologista destacou que ainda não é possível afirmar com certeza e que, por isso, os protocolos sanitários de prevenção devem continuar.

"Aí é que está o grande ponto de interrogação. Não temos essa certeza ainda. Não podemos afirmar com certeza que as pessoas vacinadas que ela não carregam o vírus, não tenham a transmissão. A vacina não garante que não será desenvolvida a doença. A ideia da vacina é que você não vai ter uma forma grave. Você pode fazer uma forma pouca sintomática da doença e com essa forma você ser transmissor. Por isso a gente fala, ser vacinado, não é uma carta branca. Porque, mesmo vacinado, você pode desenvolver uma forma branda da doença e transmitir para outras pessoas", acrescentou Galdina.


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