Terça-feira, 03 de Agosto de 2021
Assistência deficitária

Pandemia expõe descaso de autoridades com indígenas, denuncia Vanda Witoto

Primeira a ser vacinada no Amazonas, Vanda Witoto, moradora do Parque das Tribos, se soma à Milena Kokama e Marcivana Sateré, para exigir cumprimento de medidas contra covid-19 nas comunidades. Em maio, Mandetta, então ministro do governo Bolsonaro, prometeu construir um hospital de campanha para atender indígenas



carta-pelos-povos-indigenas-de-todo-o-mundo-entregue-a-OMS-foto-da-jovem-lider-indigena-Vanda-Ortega-Witoto-parque-das-tribos_5B491474-C8BB-4039-B40E-AD2D7249E928.jpg Foto: Divulgação/Facebook. Na versão site: Christian Braga/Elle
29/04/2021 às 19:33

A técnica de enfermagem Vanda Ortega Witoto, primeira vacinada no Estado do Amazonas, denunciou ontem que, apesar de toda a divulgação de sua imagem enquanto membro da etnia Witoto, sua comunidade localizada no Parque das Tribos, zona oeste de Manaus, sofreu com descaso das autoridades de saúde durante a segunda onda da pandemia de Covid-19.

O relato da técnica de enfermagem foi um dos depoimentos apresentados durante o primeiro dia do seminário virtual Abril Indígena: Violação dos Direitos e Genocídio no Amazonas, realizado pela Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDII), Associação dos Docentes da Universidade do Amazonas (Adua), com a participação de diversos representantes indígenas de várias regiões do estado, professores e cientistas.



Durante o encontro vários relatos sobre os impactos da Covid-19 foram divulgados pelos representes de etnias  que responsabilizaram o poder público por negligência no atendimento aos povos indígenas aldeados, isolados e urbanos.

Vanda explicou que, apesar dos vários benefícios que a divulgação de sua imagem enquanto indígena trouxe para disseminar os processos de vacinação, sua comunidade ficou desassistida pelo município: “Aqui, no Parque das Tribos, primeiro bairro indígena de Manaus, as 53 comunidades indígenas que vivem em contexto de cidade foram extremamente afetadas pela covid-19. As ações de prevenção e de cuidados, porém, partiram das lideranças de cada comunidade que tiveram que iniciar ações para salvar a vida de nossos parentes. E quando precisamos do município para fazer remoção de parentes afetados pela covid, Manaus negou o direcionamento de ambulâncias para a remoção dos pacientes”, relatou Vanda.

Segundo Vanda, ao fazer contato com o serviço identificando a comunidade e o paciente enquanto indígenas, o Samu se recusou a enviar a ambulância. “A atendente disse que quem cuida da saúde dos povos indígenas é a Sesai  e não teria como disponibilizar a ambulância do Samu para nossa comunidade”, destacou.

Vanda disse que essa negligência é fruto da negação indígena. “Uma vez que o município e o estado reproduzem essa negação, ela contribuiu para a morte de nossa cultura, das nossas vidas e nossas línguas. Porque não se reconhece, né, essa identidade. Nós que estamos na cidade vivenciamos essas violências. (...) Vários parentes vieram a óbito sem essa identidade reconhecida. Foram enterrados como pardos porque não se reconhece essa identidade dentro da cidade de Manaus”, disse.

Kokama

Como o depoimento de Vanda, a representante do povo Kokama, do Alto Solimões, Milena Kokama, denunciou que várias lideranças indígenas morreram vítimas de Covid-19. “Meu povo foi o mais atingido pela Covid-19. Fomos o primeiro povo do Alto Solimões a ser contaminado. Tivemos a primeira indígena, que é agente de saúde da aldeia São José e foi a primeira indígena contaminada no Alto Solimões. Hoje, continuamos em perigo, morrendo. Hoje já temos 85 Kokamas mortos por Covid-19”, relatou Milena.

A Kokama reclamou sobre a ausência do poder público na atenção aos povos indígenas. “Parece que a gente é só número, só estatística de morte, é mais um que morreu. É muito difícil ver meu povo enterrado em valas, como eu vi meu povo. Em sepultura coletiva. Temos ainda algo sério porque somos enterrados como pardos. Meu povo não é pardo. Somos Kokama. Brigamos todo tempo para que no atestado de óbito conte ele como indígena Kokama. Até no último momento somos desrespeitados”, disse.

Milena contou que os indígenas estão trabalhando com a medicina tradicional indígena para ajudar a evitar mais mortes. “Mesmo com todos os esforços as mortes têm sido inevitáveis. Quando a gente descobre que um parente está com covid, tentamos chegar o mais rápido possível. Aqui no Alto Solimões nós não temos estradas, temos rios. Nós só temos ‘pec, pec’. A aldeia mais próxima fica há 15 horas de ‘pec, pec’. Mas, a gente não desiste. Precisamos da ajuda e do apoio de todos no Alto Solimões. Esperamos que nossos ancestrais nos guarde e nos proteja. Nós vamos continuar usando máscara, tomando nossa medicina tradicional, usando álcool em gel. Considerados que resistir a esses governos também é resistência”, disse.  

Representação

A Coordenadora dos Povos Indígenas de Manaus e entorno, Marcivana Sateré, falou das dificuldades de acesso à saúde dos indígenas. “Ano passado governo do Estado do Amazonas criou o hospital de campanha. E foi amplamente divulgado que ele atenderia a indígenas aldeados e indígenas da cidade. E, pasmem, nenhum parente conseguiu ultrapassar a porta de entrada que dava acesso à ala indígena”, afirmou a coordenadora em participação virtual.

Dentro desse contexto, a coordenadora disse que a pandemia evidenciou vários aspectos já vividos pelos indígenas, há anos: “Não foi a partir da pandemia que, nós indígenas, estamos morrendo nos grandes centros urbanos. Não é a partir da pandemia que, nós indígenas, morremos sem o direito de sermos enterrados de acordo com a nossa cultura, de ser pelo menos identificado. Manaus é um bom exemplo do que já discutimos há 5 ou 6 anos. Como podemos criar políticas de saúde para os indígenas aqui em Manaus se não temos nenhum tipo de informação?”

A coordenadora disse que essa luta não é de agora e que é necessário reafirma a questão o território. “Todo território de Manaus é território indígena. Sempre estávamos presentes nas grandes cidades. Não são os indígenas que vão para as grandes cidades. São as cidades que estão chegando às grandes aldeias indígenas e Manaus é um exemplo disso. Manaus é nosso território”, disse.

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) lembra que o sistema público de saúde no Brasil é tripartite, significa que a responsabilidade por sua manutenção é compartilhada entre Estado, Prefeitura e Governo Federal.

No âmbito da saúde dos indígenas aldeados, quem responde pela atenção básica são os  Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), ligados ao Ministério da Saúde (MS) através Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Caso seja necessário o atendimento de média e alta complexidade, os indígenas são assistidos nas unidades de saúde como Serviços de Pronto Atendimento (SPA e UPA), além de Prontos-Socorros (HPS).

O Hospital de Combate à Covid-19 foi referência para o tratamento de pacientes com a doença, não sendo de porta-aberta, ou seja, as transferências para a ala indígena  eram realizadas por meio da Central de Regulação do Amazonas. Os indígenas agravados eram prioritariamente referenciados para o Hospital de Combate, após atendimento inicial pela atenção primária, e removidos com base na avaliação clínica e no protocolo da unidade. No caso de pacientes do interior, as remoções eram realizadas por UTI aérea.

Quanto a região do Alto Solimões, também foi inaugurada uma ala voltada ao atendimento de pacientes indígenas com Covid-19. A estrutura foi instalada no Hospital São Sebastião, no município de Atalaia do Norte (a 1.136 quilômetros de Manaus), fruto de articulação entre o Ministério da Saúde (MS), por meio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), e o Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (Susam), com o apoio do município.

Prefeitura

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa Manaus), esclarece que diante do grave contexto de pandemia provocado pelo coronavírus, que no mês de janeiro deste ano, revê seus impactos mãos fortes na capital amazonense, envidou importantes esforços para garantir atenção e cuidado em saúde aos indígenas de Manaus, ações previstas no Plano de Enfrentamento Municipal para Infecção Humana pelo Novo Coronavírus (COVID-19) em Povos Indígenas das áreas urbana e rural de Manaus. Especificamente em relação à comunidade Parque das Tribos, bairro Tarumã (zona Oeste da Capital), a Semsa manteve a Unidade Básica de Saúde Lindalva Damasceno como unidade de referência, em nível de atenção primária, às famílias indígenas da comunidade.

Desde o início da pandemia, o Distrito de Saúde Oeste, por meio das equipes de atenção e vigilância, realizou atendimento exclusivo aos indígenas na própria comunidade, considerando a necessidade apresentada e a impossibilidade de locomoção por parte de alguns moradores, com o apoio das lideranças locais.

As ações da secretaria na comunidade incluíram atualização do cartão vacinal, dispensação de medicamentos básicos, orientações sobre medidas de prevenção e autocuidado frente ao coronavírus e visitas domiciliares aos acamados ou com dificuldades de deambulação, sempre em conformidade com as limitações impostas pela vigilância sanitária referentes a não aglomeração e à manutenção do distanciamento seguro.

Outras duas importantes medidas adotadas pela Semsa Manaus no enfrentamento ao coronavírus no Parque das Tribos e demais comunidades indígenas de Manaus foram a Implantação da Unidade Móvel de Saúde na comunidade, a qual realizou serviços de saúde voltados, não somente ao diagnóstico e tratamento da Covid-19, mas também, o reforço das medidas de autocuidado e prevenção ao agravo e Contratação temporária, em caráter emergencial, de Agentes Indígenas de Saúde (AIS), mediante Processo Seletivo simplificado, DOM nº 4908/2020 de 19.08.2020 (Cad. 01).

Ressaltamos que a comunidade segue monitorada e acompanhada pela equipe distrital Oeste, porém, o cenário de emergência na saúde pública resultante da disseminação da Covid-19 é bastante complexo. Em janeiro e fevereiro sobrecarregou todo o sistema de saúde da capital, impactando diretamente na efetivação cotidiana dos serviços de saúde, inclusive em nível de atenção primária, aí incluídos os atendimentos pelo SAMU 192 Manaus não só na comunidade Parque das Tribos, mas em toda a cidade.

Naquela ocasião, considerando a necessidade apresentada pela comunidade, a Semsa Manaus buscou parceria junto à coordenação distrital em saúde indígena, mantendo a articulação com as lideranças indígenas do local e com as unidades de referência para o fortalecimento das ações de saúde in loco às famílias do local.


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