Sábado, 26 de Setembro de 2020
EXPERIÊNCIA

'Qualquer falta de ar, dá medo', diz médico que contraiu Covid em Manaus

Atuando na rede pública e privada, Renan Ziegler, 35, foi infectado pelo novo coronavírus e está há nove dias afastado, mas quer voltar aos atendimentos. 'Não posso me acovardar'



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15/04/2020 às 18:06

Com 1554 casos de coronavírus no Amazonas, trabalhadores da área de Saúde estão na linha de frente do combate à doença, mas também acabam sendo muito expostos ao risco de contágio. Sem um balanço oficial atualizado de quantos profissionais de saúde contraíram o novo coronavírus no Estado, se acumulam os relatos de quem vivencia a pandemia dentro dos hospitais. 

Um dos casos é o do médico Renan Ziegler, 35. Atuando em hospitais públicos e também em um estabelecimento privado, Renan está desde o último dia 6 afastado das atividades depois de ter contraído o coronavírus. Trabalhando em urgência e emergência, e também em terapia intensiva, Renan passou as semanas anteriores ao contágio trabalhando diretamente com pacientes de Covid-19, o que acabou causando o contágio. “O Covid tem uma característica muito marcante, que é essa transmissibilidade muito eficaz, mais eficaz que qualquer outro vírus respiratório. O menor contato é suficiente para causar o contágio”. 



Os primeiros sintomas vieram em um sábado, dia 4 de abril. Um mal estar acompanhado de uma dor de cabeça que, segundo ele, não cedia aos analgésicos comuns. Dois dias depois, após entubar um paciente, começou a sentir uma febre de pouco mais de 37 graus. Foi o sinal. “Ali eu já percebi: acho que a Covid me tocou”, relembra ele, que não possui qualquer comorbidade. Neste plantão, ele recorda que havia cinco pacientes na UTI, dois já confirmados com a doença e outros dois cujo diagnóstico viria a se confirmar nos próximos dias.

O quadro de Renan, até aqui, não exigiu uma internação, o que não significa que ele esteja tranquilo por isso. Atuando no fronte, tentando salvar vidas e minimizar impactos em seus pacientes antes de adoecer, o médico conhece o poder destrutivo da Covid-19 e por isso mantém todos os radares ligados. “Eu estou no nono dia de sintomas e ontem já senti que deu uma piorada. Diminuiu a diurese, a dor no corpo aumentou, estava meio sem condições de me levantar. Aí estou aqui medindo a saturação no dedo, contanto frequência respiratória, dá um susto. A gente começa a pensar: ‘será se eu vou evoluir mal? Será se eu vou ser um desses?’”, admite, em meio às tosses características da doença. “É um pouco assustador. Qualquer iminência de falta de ar, dá um medo…”, completa.

Para o médico, a pandemia mudou toda a rotina de atendimento, todos os fluxos, mas não só isso. Ele acredita que, por conta do contato direto com os pacientes aliado à alta transmissibilidade do vírus, quase que 100% dos profissionais de saúde que estão nos hospitais irão contrair a doença. “Numa pandemia toda a população vai ter contato, mas acho que no caso dos profissionais de saúde a transmissibilidade pode chegar a 100%. Minha coordenadora de UTI está com Covid, eu e mais três médicos estamos afastados da equipe, e colegas de outros hospitais também estão”, relata ele, ressaltando que há unidades com dificuldade até para fechar escalas diante da demanda tão elevada. O Ministério da Saúde, inclusive, enviou intensivistas para o Amazonas para suprir a necessidade do sistema local. Recentemente, pelo menos três médicos com experiência em atuaçao em Manaus faleceram por conta da doença. 

Cumprindo o isolamento em casa, sem qualquer atividade social, o médico não deixa que a doença afete sua disposição de voltar ao trabalho quando estiver recuperado. “Quando melhorar, vou voltar. Fico um pouco assustado, porque ainda não está muito claro para a gente se a imunização pós-Covid é duradoura ou não. Mas não posso também me acovardar. Vou tentar achar uma medida de reduzir a exposição, evitar muito tempo exposto à toda a carga viral, apesar dos EPIs (equipamentos de proteção individual)”, disse ele. 

Para Renan, o ideal era que houvesse testes em massa no País, para fazer o melhor mapeamento do vírus. “Mas não é para essa realidade que estamos caminhando”, lamenta ele, que não perde a esperança de dias melhores e reforça a necessidade dos cuidados e do isolamento social. “Não sei ainda qual é a melhor medida, mas o isolamento social parece ser a mais eficaz no momento. A gente tem esperança que vamos sair disso, que vamos poder abraçar uns aos outros e que dias melhores virão. Até lá, a gente tem que engolir o choro, tem que aguentar. Não tem outro jeito”.

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Jornalista de A CRÍTICA
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