Segunda-feira, 14 de Junho de 2021
ESTUDO

Quem já teve dengue possui mais chances de apresentar sintomas na Covid

Conclusão é de pesquisa comandada por Marcelo Urbano Ferreira, da USP; ele lembra que pico da Covid ocorreu no ápice da transmissão da dengue



WhatsApp_Image_2021-05-07_at_16.29.10_8DC267B3-1877-450E-89AB-315F89880268.jpeg Fotos: Bárbara Prado / Fapesp
08/05/2021 às 08:56

Pessoas que já foram infectadas pelo vírus da dengue têm duas vezes mais chances de desenvolver sintomas, caso sejam infectadas pela Covid-19. É o que afirma o estudo do pesquisador Marcelo Urbano Ferreira, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). O artigo foi publicado na última quinta-feira (6), na revista científica "Clinical Infectious Diseases".

A pesquisa analisou 1.285 amostras de sangue de moradores do município de Mâncio Lima, no Acre. O trabalho teve apoio financeiro da Fundação de Amparo a Pesquisa de São Paulo (FAPESP). Segundo Marcelo Ferreira, uma das explicações para esse resultado se dá pela vulnerabilidade socioeconômica da população - quando menor o poder aquisitivo socioeconômico, maior a chance de infecção por Covid-19 e dengue.



"Não sabemos ainda se há algum fator biológico que explique esses achados. A infecção prévia pelo vírus da dengue, sintomática ou não, poderia resultar em um padrão de resposta mais inflamatório durante uma infecção subsequente por SARS-CoV-2, aumentando o risco de sintomas. Outra explicação seria simplesmente a sobreposição das duas epidemias, dengue e COVID-19, nos mesmos segmentos mais vulneráveis (do ponto de vista socioeconômico, por exemplo) da população. Essa sobreposição tende a ser agravada pelas dificuldades em manter as medidas de controle de vetores da dengue durante a epidemia de COVID-19, que impede que as equipes de saúde façam a vigilância rotineira de criadouros nas casas das pessoas", descreveu Ferreira.

Alta transmissão na segunda onda

A principal linhagem de SARS-CoV-2 que circulou durante a segunda onda de COVID-19 em Manaus, e agora se espalhou por todo o Brasil, conhecida como P.1, parece ser mais virulenta ou agressiva, além de ser mais transmissível. Segundo Marcelo Ferreira, o período de maior transmissão da dengue ocorreu simultaneamente ao segundo pico da pandemia de Covid-19.

"Na segunda onda (entre o final de 2020 e o primeiro semestre de 2021), tanto em Manaus como restante do país, tivemos uma combinação de fatores que ainda não tinha ocorrido no Brasil: a pandemia de Covid-19 agora com a disseminação de uma linhagem mais agressiva, a P.1, de modo simultâneo com a dengue, cuja transmissão aumenta exatamente nos meses correspondentes ao verão no Sudeste e à estação de chuvas na Amazônia Ocidental. Até então (abril a outubro de 2020), tínhamos transmissão elevada de COVID-19 mas estávamos fora da época de maior transmissão de dengue", destacou o médico.

O pesquisador afirma ainda que tanto dengue como COVID-19 levam a uma resposta inflamatória muito intensa, especialmente em adultos. Os quadros mais graves tendem a ocorrer em indivíduos mais velhos. "Há um grande risco de coinfecção (pois as duas infecções atingem as mesmas populações), o que pode agravar ainda mais o quadro", pontuou Ferreira.

Novo estudo

A gravidade da dengue em todo o Amazonas, é um combante enfrentado pelo estado anualmente. Para o pesquisador, é possível que o vírus da dengue tenha sido um dos elementos que agravaram o cenário da pandemia no Amazonas.

"É uma possibilidade, qualquer que seja a explicação para a associação entre dengue e Covid-19 que encontramos. Mas a disseminação de uma variante mais agressiva de SARS-CoV-2, a linhagem P.1, certamente teve um papel importante em Manaus, como também no resto do país, durante a segunda onda", pontuou Ferreira.

Em relação este cenário, o médico destacou que está sendo desenvolvido um outro estudo para analisar se existe uma relação de pessoas que tiveram dengue com a nova variante.

"Isso pode explicar porque há agora tantos casos graves de COVID-19 em pessoas jovens e sem comorbidades. Ainda não sabemos como essa linhagem se comporta em pessoas que já tiveram dengue – este é o tema dos estudos que estamos fazendo neste momento lá no Acre", destacou o médico.

Fortalecimento do SUS

Para Marcelo Ferreira, é possível reverter esse cenário propício ao maior desenvolvimento da doença do coronavírus na população. Segundo ele, é necessário o forlacimento da saúde pública em todo o país, principalmente nas áreas mais afetadas, como a região Norte

"É fundamental fortalecer as ações básicas de saúde, no contexto do SUS. O controle de vetores da dengue, por exemplo, é uma tarefa do sistema público de saúde, que tem de ser mantida mesmo em meio à grave pandemia de Covid-19 que vivenciamos. Para tal, é preciso haver financiamento, manutenção e treinamento de equipes, campanhas de educação em saúde pública. Em relação à COVID-19, não há dúvida: a grande arma de que dispomos é a vacinação em massa, que precisa ser acelerada de modo a proteger uma parcela significativa da população, especialmente os segmentos de maior risco", acrescentou Ferreira.

Vacina para dengue

Um outro estudo, desenvolvido pelo Instituto Butantan, de São Paulo, está em andamento em Manaus desde junho de 2016. Coordenado pelo médico infectologista Marcus Lacerda, da Fundação Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), o estudo pretende desenvolver uma vacina contra a dengue.

Em Manaus, o recrutamento de participantes encerrou em fevereiro de 2019 e segue em fase de acompanhamento pelo período de 5 anos. Mais de 1.500 pessoas, com idade entre 24 meses e 59 anos, participaram do estudo na cidade. O estudo está no ensaio clínico de fase 3.

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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