Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
IDEIAS DO BEM

Químicos da UEA criam dispositivo que detecta evolução da Covid-19

Grupo realiza vaquinha online para arrecadar R$ 51 mil para terminar ensaios para poder ter a aprovação da Anvisa



uea_5B048EBB-BF26-4722-9B4C-088BBC4626C7.JPG Fotos: Divulgação
19/05/2020 às 21:34

Com o intuito de auxiliar médicos na busca pelo tratamento mais adequado diante do processo inflamatório causado pelo novo coronavírus, pesquisadores da área química da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) criaram um dispositivo biossensor que detecta a evolução da doença no organismo do paciente.

O processo é bem parecido com um glicosímetro e a resposta leva apenas alguns minutos. É a partir da gotícula de sangue do doente que o biossensor quantifica três marcadores de substâncias químicas: a TNF-Alfa, a IL-1beta e a IL-6. As três citosinas são marcadores que identificam em qual fase está a doença no organismo do infectado.



“O efeito da Covid-19 se dá em várias fases e por algum motivo que os cientistas não conseguem entender ainda, ela dispara um mecanismo autoimune chamado tempestade de citocinas. E a evolução dessas substâncias pode informar se você está saindo de um quadro leve da Covid-19 e passado para uma fase dois ou três da doença. Essas substâncias vão aumentando e diminuindo conforme você vai passando de uma fase da doença para outra”, explicou o professor de química da UEA, Ricardo Serudo.

Ele também é fundador da Versalab, uma startup criada para facilitar a chegada do produto no mercado. “Hoje, um médico usa um exame clínico para tentar adivinhar se a pessoa está evoluindo para um quadro ou não, então, o índice de erro causado pela falta de informação é muito grande, e por isso há muitos casos em que o paciente falece em casa. A hipoxia e acidose no sangue podem mudar drasticamente, porém isso pode ser acompanhado por essas três citosinas que a gente consegue quantificar”, ressaltou ainda.

Em outras palavras, o biossensor permite que o médico acompanhe o processo inflamatório do paciente e o ajude no acompanhamento e administração da medicação. “O nosso biossensor não trata a doença, mas ele dá uma informação muito importante para o médico. A nossa ideia é ajudá-lo a encontrar a melhor ferramenta para auxiliar o paciente a não passar para os próximos quadros. O ideal é que ele não chegue nos quadros mais severos onde a chance de sobreviver é menor”.  O dispositivo pode ser conectado via celular ou via bluetooth e assim como o glicosímetro, também precisa de fitas sensoras. 

A apoiadora do estudo de biossensores, a médica Nayara Dias destaca a descoberta da tempestade de citosinas pela comunidade científica e ressalta que para cada fase da doença é necessário um tipo de medicação específica. “É exatamente nesse momento que o dispositivo vai ajudar em verificar se interleucinas aumentam, se está na fase 1 ou na fase 2 da doença. Eu saberei o que indicar para o paciente e de uma maneira mais sensível, eu consigo até quantificar a minha dose, não só o medicamento. E isso é fantástico”, destacou ela, sobre a relevância do dispositivo.

Campanha solidária

Todo o recurso do grupo foi utilizado para a criação do protótipo de biossensor. Antes de o equipamento chegar até a mão dos médicos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina que os pesquisadores realizem 1.500 ensaios em pacientes para que o trabalho seja aprovado. Caso seja liberado, os dispositivos chegarão primeiramente ao Hospital Nilton Lins, unidade médica em que há a parceria com o grupo de pesquisadores.

“A gente precisa fazer os ensaios que a Anvisa solicita para aprovação e autorização do biossensor para que seja possível a venda e distribuição do produto. Desde janeiro, nós investimos uma boa quantidade de dinheiro  só que infelizmente esse recurso está acabando e agora estamos com uma vaquinha online para arrecadar 51 mil reais para que a gente possa terminar esses ensaios para poder ter a aprovação da Anvisa”, disse Ricardo Serudo.

Além da arrecadação de recursos, a equipe deve nos próximos dias patentear o dispositivo. “A gente está com uma parceria com a Nilton Lins, estamos preparando a documentação para dar entrada no registro de patente e em breve a gente espera estar distribuindo para o Hospital”, acrescentou ainda. Com a captação dos recursos financeiros necessários, a meta é validar o equipamento junto à Anvisa, disponibilizar 1.500 testes e ainda produzir mais 12 dispositivos e disponibilizar 2.400 testes para 04 hospitais.

A campanha para arrecadação de valores em dinheiro está na internet e conforme a quantidade de doação, ele pode acessar as recompensas e verificar quantos pacientes ele poderá ajudar. Por exemplo, ao doar R$ 35, o doador ajudará um paciente a fazer o teste com o biossensor e de acordo com a doação de maiores valores, o número de pacientes para a realização do teste pode aumentar. Os interessados podem contribuir para o combate ao Covid-19 através do link: https://www.kickante.com.br/campanhas/em-qual-fase-covid-esta

Fases do estudo e patente

O biossensor voltado para a Covid-19 foi criado, em fevereiro este ano, por um time de desenvolvedores, alunos de diferentes níveis de graduação e de pós-graduação em química da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). A primeira fase da pesquisa do grupo consistiu na coleta de publicações e artigos. Durante essa primeira parte foi concluída a existência da tempestade de citosina no organismo do paciente com Covid-19.

A segunda fase do estudo teve por objetivo colher todas as informações adquiridas e somar com os sete anos em que o grupo estuda reações químicas de ancoramento, eletroquímica e eletrônica para desenvolvimento de um produto específico para a pandemia.

Na fase atual, a Anvisa solicita determinadas quantidades de ensaios em pessoas reais, além de informações a respeito do produto. O protocolo ocorre para que haja a aprovação do equipamento para o uso no mercado. A equipe está em busca de patentear o dispositivo e após autorização da Anvisa, os testes serão feitos em pacientes que estão em tratamento no Hospital Nilton Lins, localizado no bairro Flores, zona Centro-Sul de Manaus.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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