Terça-feira, 22 de Setembro de 2020
RETRATO

Resistência da população em aderir isolamento pode resultar em 'lockdown' no AM

4º lugar no ranking nacional da pandemia do novo coronavírus, o AM pode vir a adotar 'lockdown' diante da resistência de boa parte da população de respeitar o isolamento social, medida recomendada pela OMS para evitar o contágio



WhatsApp_Image_2020-04-16_at_12.17.06_C842DD8C-07C6-4F8B-88FE-1A300C121BE6.jpeg Foto: Junio Matos
16/04/2020 às 12:20

Com o avanço do novo coronavírus (Covid-19) no Estado e o descumprimento do isolamento social, o governador Wilson Lima (PSC) já declarou que cogita adotar medidas mais extremas para evitar o contágio, entre elas, a quarentena geral e até mesmo o ‘lockdown’ paralisação total, inclusive, do comércio essencial. A alternativa divide opiniões na sociedade.

O Amazonas teve seu pior período de 24 horas desde o registro do primeiro caso de coronavírus no estado com recorde de novos casos e mortes. No intervalo de um dia, foram 209 novos casos e 19 novas mortes. O estado já soma 1.484 casos registrados ocupando o 4º lugar em números de casos positivos no país para Covid-19. Com 90 óbitos, e outras 13 mortes estão sendo investigadas, está na 5ª colocação no ranking de números de mortes no Brasil do Ministério da Saúde.



Com os novos números, a taxa de letalidade da doença no estado chegou a 6%, dado acima da média nacional, que até a segunda-feira era de 5,5%. Do total de casos confirmados, 1295 são em Manaus e outros 189 espalhados em 18 municípios do interior. A cidade líder em casos depois da capital é Manacapuru, que reúne 100 casos confirmados e três óbitos. Cerca de 590 exames aguardam resultado, segundo boletim divulgado, ontem, pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

No dia 23 de março, o governo do Amazonas decretou calamidade pública por conta da pandemia e anunciou o fechamento de estabelecimentos comerciais e de lazer. No dia 1º de abril, o governador prorrogou até hoje, dia 15, o decreto que restringe o funcionamento do comércio e de serviços considerados não essenciais, mantendo a suspensão do atendimento ao público em geral de todos os restaurantes, bares, lanchonetes e praças de alimentação, sendo autorizada a atividade como ponto de coleta e para entrega. As aulas na rede estadual de ensino estão suspensas até o dia 30 de abril.

Aglomerações

Mesmo com o decreto de isolamento, o risco de contaminação vem sendo ignorado. Em Manaus, tem sido recorrente ver famílias reunidas em feiras e supermercados e também aglomerações em agências bancárias e casas lotéricas, além de comércio de serviços não essenciais aberto. A quebra do isolamento social já tem sido apontada como uma das causas do aumento exponencial de casos da Covid-19 no Amazonas.

“Um dos motivos para que isso esteja aumentando significativamente é o fato de muitas pessoas não estarem respeitando o isolamento social”, disse o governador Wilson Lima durante pronunciamento, nas redes sociais, no domingo.

Wilson informou que o pico da pandemia, que estava previsto para ocorrer até a primeira quinzena de maio, está sendo antecipado. Ele renovou o apelo para que as pessoas fiquem em casa e evitem aglomerações como única forma de mitigar o avanço da doença e assegurar leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Colapso

Projeções da Susam mostram que o isolamento social pode reduzir em 31% o número de infectados em Manaus e na região metropolitana. O mesmo estudo revelou que, sem a restrição de circulação de pessoas, 22 mil leitos de UTI seriam necessários no estado. 

Estudo do Banco Mundial revelou que medidas de isolamento geral, aplicado a toda a população, resultam em menos casos de Covid-19 que a medida de restrição seletiva, grupos específico como idosos. A pesquisa analisou as medidas de contenção da contaminação do vírus em 25 países, inclusive, no Brasil.

Tem problema de prioridades, Luiz Fernando Santos 

Quando os sistemas de telefonia passaram a monitorar os usuários notou-se que em todas as regiões do país que o isolamento social tem sido furado. O ideal é 70% da população em isolamento. Aqui no Brasil em nenhum lugar isso foi possível. Em Manaus chegou a 48%, o máximo. Por que as pessoas estão furando essa determinação? 

Penso que por uma clara falta de articulação entre a dimensão econômica e da saúde. Isso tem sido um debate mundial. Os dados têm apontado que nações em que seus dirigentes tomaram para si esse debate importante, como Espanha, Itália, Alemanha, Estados Unidos e no Brasil, os índices de infecção pela Covid-19 e de mortalidade da mesma são altíssimos. 

Agora nações, que são poucas, que tem reafirmado que mais importante do que discutir a recessão econômica é colocar a vida da população em primeiro lugar as taxas são menores. Por exemplo, Nova Zelândia e a Argentina. Me parece que tem um problema de prioridades. A economia tem sido colocada na voz dos dirigentes como prioritária e no Brasil é mais assustador porque o Presidente da República assume essa leitura e sistematicamente tem contrariado as determinações do Ministério da Saúde.

Os seguidores do presidente tomam para si sair do isolamento como uma tarefa de resistência política. Isso tem sido horrível e tido resultados terríveis. Se comparar com os lugares em que nos últimos anos a inclinação ideológica e política de voto foi em direção a Bolsonaro essa resistência é muito maior. A cidade de Manaus não fica fora disso. 

Governadores e prefeitos em todos os lugares do país tem uma dura tarefa de furar esse bloqueio que não é simples. Mas é necessário chamar à população para o isolamento social. Não há outra forma de evitar o colapso dos sistemas hospitalares. Estamos na iminência de isso acontecer e as pessoas insistem em estar nas ruas. Caso permaneça nesse estágio, os governadores vão ter de assumir a tarefa de manter, via força policial, os cidadãos em casa e ter a coragem política e sanitária de chamar para si o lockdown caso não seja possível o convencimento de que o isolamento é a melhor saída.

Personagem Matheus Dias. Como manter os salários?

O líder do Movimento Nas Ruas no Amazonas, Matheus Dias, 21 anos, avalia que o governo Wilson Lima precisa repensar medidas restritivas, por exemplo, o uso da força policial no descumprimento do isolamento social. Ele afirmou que a quebra do isolamento justifica-se pela necessidade das pessoas em continuar trabalhando e sustentando os familiares.

“Estamos vivendo uma situação atípica, e não há até agora, um consenso científico sobre o que deve ser feito. Entretanto, muito me preocupa a ideia do governador, em tom ameaçador, dizer que pessoas podem ser presas por descumprirem esse esse isolamento social. É nítido que muita gente não adotou o isolamento. Acho que o caminho, se tratando de pessoas honestas e trabalhadoras, jamais deve ser a repressão”, afirmou.

Ele avalia que o ‘lockdown’ não deve ser adotado e insistir nessa alternativa pode apresentar prejuízos ‘imensos’. “A saúde, por exemplo, só funciona se tiver dinheiro, como é que o Estado vai manter todo aparato dos hospitais, manter salário dos servidores da saúde em dia se o governo não arrecada?”.

Comentário: Dessana Chehuan, infectologista

“Uma questão cultural influencia na resistência ao isolamento social. O brasileiro nunca passou por uma situação dessa de ficar privado de liberdade e sempre foi muito caloroso, de toque diferente dos orientais, que evitam o contato físico com as pessoas, o isolamento é muito mais fácil.  Isso tudo causa uma resistência maior, acaba atrapalhando o isolamento que é necessário nesse momento e em um período muito curto é difícil trabalhar essa adaptação com a população. Não que ser um povo caloroso esteja errado, mas neste momento precisamos deixar um pouco esses costumes para respeitar o isolamento. As pessoas estão enclausuradas e (a ida ao supermercado) acaba sendo um motivo para sair de casa. Ela pode ir fazer as compras uma vez na semana ou no mês e evite o contato físico. Precisamos conscientizar a população de que precisa ter muita cautela, nosso números aumentam a cada dia e a única medida eficaz nesse momento é manter o isolamento social. Medidas extremas foram tomadas em outros países, na Europa, por exemplo, em Portugal as pessoas só caem de casa com uma comprovação. Acredito que culturalmente para nós precisa ainda trabalhar, incentivar e conscientizar as pessoas de que é preciso evitar aglomerações. Talvez de uma forma mais lúdica conseguindo entender e conscientizar as pessoas. Acredito que determinações radicais dessa forma possam ser necessárias, mas ainda podemos trabalhar culturalmente e conscientizando as pessoas. A melhor forma de prevenção é a lavagem das mãos com água e sabão, ou álcool em gel e evitar o contato da mão com as mucosas. A máscara é uma proteção a mais e a eficácia dela é maior quando barramos pessoas sintomáticas”

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