Terça-feira, 11 de Agosto de 2020
ENTREVISTA

Resultado de pesquisa com corticoides está quase pronto, diz cientista do AM

Em entrevista ao A CRÍTICA, o médico infectologista e pesquisador Marcus Lacerda explicou os resultados dos estudos que demonstraram ineficácia da cloroquina para tratamento da covid-19, e que agora mira em corticoides como um dos caminhos para o tratamento



share_big_DIVULGA__O_FAPEAM_0AA582AF-B8EE-49A6-AE8C-EC71E5D007E1.jpg Foto: Arquivo AC
05/07/2020 às 10:10

A cloroquina, remédio usado contra a malária, assumiu protagonismo na pandemia do novo coronavírus. O presidente Jair Bolsonaro foi um dos políticos que defendeu o uso do medicamento contra a doença mesmo sem a comprovação científica de sua eficácia. Na esteira, ainda em março, o Amazonas foi o primeiro estado do país a testar a cloroquina em pacientes internados em estado grave no Hospital Delphina Aziz. 

Em meados de abril, pesquisadores suspenderam a maior dosagem de cloroquina, que era usada na China em estudos iniciais, por ser tóxica para o coração e levar à morte. Dos 81 pacientes que receberam diferentes dosagens da droga, 11 morreram. Após essa informação vir a público, seguiu-se uma onda de ataques aos pesquisadores do estudo nas redes sociais que foram convocados a prestar esclarecimentos ao Ministério Público Federal e Estadual.



Em entrevista ao A CRÍTICA, o médico infectologista e pesquisador Marcus Lacerda explicou que a acusação, sem fundamentação científica, de que o estudo foi o causador das mortes por superdosagem não é verídica e que nos primeiros sinais de complicações a pesquisa foi suspensa no grupo que recebeu a maior dose. O cientista comentou ainda sobre os resultados da pesquisa e as ameaças que tem sofrido após divulgar o estudo sobre a não eficácia da cloroquina para o tratamento de pacientes com covid-19.

Os resultados preliminares da sua pesquisa respondem se a cloroquina é eficaz ou não no tratamento da covid-19?

Foi um estudo que foi desenhado em março. Naquela época não sabíamos qual seria a melhor dose nem para o doente grave e o não grave. O que nós fizemos e propusemos para a Comissão Nacional de Ética em Pesquisas foi testar duas doses diferentes para saber se seriam toleráveis. O nosso estudo era de segurança. Pegamos uma dose muito alta, já utilizada em outros estudos, e resolvemos usá-la para covid-19 e uma mais baixa, recomendada pelo Ministério da Saúde. 

Sabemos que o vírus precisa de doses mais altas para ter eficácia e para droga chegar no pulmão e na secreção respiratória. Testamos as doses monitorando os pacientes diariamente com eletrocardiograma e o que vimos é que essa dose (alta) começou a ter mais efeitos colaterais. Apareceram alterações no eletrocardiograma e o nosso Comitê Independente de Especialistas não esperou morrerem mais pessoas no grupo da dose alta. Ao menor sinal de que aquele grupo estava tendo mais complicações no coração encerramos. 

O resultado é que a dose mais alta não foi melhor, que era a nossa expectativa. O estudo feito na Inglaterra, Recovery, usa no primeiro dia uma dose muito mais alta do que usamos. A questão da dose ser alta e ter matado pessoas de propósito como ficou lançado em alguns sites, acabou ganhando o WhatsApp e chegando ao conhecimento do Ministério Público e é uma informação equivocada. Ninguém usou uma dose desconhecida ou alta que não tinha regra anterior.

 A que o senhor atribui as críticas em relação à pesquisa?

Acho que o estudo foi feito para cientistas e médicos. Pessoas leram o estudo sem a devida formação e interpretaram mal. Nenhum cientista da área de doenças infecciosas achou estranho o que foi feito. Quem achou estranho foram pessoas que tiveram uma interpretação política achando que o nosso estudo dizia que a cloroquina não funcionava de jeito nenhum. Não foi isso que a gente mostrou. Até porque nunca trabalhamos com pessoas em estágio leve da doença. Hoje já temos clareza de que (o medicamento) não funciona para pessoas graves. Isso foi fundamental para orientar os pesquisadores do resto do mundo a não tentarem novos estudos com doses altas. A partir do nosso estudo várias pesquisas foram canceladas. Acho que a politização da cloroquina fez com que houvesse essa interpretação equivocada do estudo.

Que lições o senhor tirou desse episódio?

O limite da dose foi a grande descoberta. Outro ponto positivo que acho, apesar de tudo que aconteceu comigo e com o nosso grupo, é o fato da população começar a discutir pesquisa clínica mesmo não sabendo interpretar. Em muito tempo não víamos a população falando sobre pesquisa clínica, ciência e como é que se desenvolve uma droga para uma doença.

O que faria diferente?

As escolhas que fizemos naquele momento foram as mais adequadas. Não teria feito nada diferente. Fico muito ressentido de ter visto a forma política como a gente foi usado. As pessoas precisavam defender a cloroquina porque o presidente já havia dito que funcionava, ia comprar e usar em todo mundo. O nosso trabalho de uma certa forma não confirmou essa ideia do presidente. E os apoiadores dele, de uma forma bastante canalha, pegaram o que a gente encontrou e jogaram isso para população que não estava preparada para entender. 

É importante que a sociedade compreenda o que aconteceu e que ouça outros pesquisadores e cientistas para entenderem que o que fizemos não foi antiético, não foi absolutamente nada que não tenha sido muito bem planejado até porque o estudo tinha um comitê de pessoas experientes na área que acompanharam tudo. A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa aprovou o estudo, todos os pacientes sabiam e assinaram um termo de consentimento, ou seja, tudo foi feito seguindo as boas práticas clínicas e todas as normas de pesquisa clínica internacionais.

As ameaças resultaram em investigações policiais?

As pessoas não podem falar o que querem sem provas. Ninguém pode ameaçar o outro de morte ainda que seja em uma rede social. Todas as ameaças estão na mão da polícia e também do Ministério Público do Estado. Não podemos admitir que alguém difame ou fale do outro sem entender, de fato, o que aconteceu. Essa exposição é ruim para o grupo de pesquisa. Compromete a reputação de uma instituição, Fundação de Medicina Tropical, que faz pesquisas há mais de 40 anos. Isso não é bom para sociedade amazonense. 

Felizmente, houve uma compreensão da sociedade pelo menos tenho recebido muito apoio. Curiosamente, houve uma denúncia no Ministério Público baseada em notícias de sites, que muitos já não existem porque sabemos que eram pagos com recurso federal. O  promotor decidiu levar adiante o inquérito e estamos respondendo com muita tranquilidade e mostrando que foi fake news. As pessoas não sabiam o que estavam falando e fizeram denúncias graves a mim e ao grupo de pesquisa.

A pesquisa chegou à conclusão de que a cloroquina mata o vírus?

Indiretamente, acabamos descobrindo pela primeira vez que a cloroquina não era capaz de eliminar o vírus na secreção respiratória. O trabalho francês, que deu origem a isso tudo, disse que a cloroquina funcionava e no quinto dia de doença não existia mais vírus na secreção respiratória. Vimos, em Manaus, que no quinto dia quase 90% das pessoas ainda tinham o vírus. Quem leu o trabalho identifica e ele mostra que a cloroquina não funcionava como um antiviral. Essa é uma informação do trabalho que nunca foi comentada, talvez, de propósito. As pessoas nunca leram essa parte que é a mais importante e  se concentraram na dose alta que foi usada em poucos pacientes porque rapidamente suspendemos. A bula é feita a partir dos estudos clínicos. Não existe uma bula de cloroquina para covid. Sendo uma doença nova tem que fazer estudos clínicos, como fizemos, para descobrir qual é a dose segura. 

Como ficou o andamento da pesquisa?

A imprensa noticiou que o estudo havia sido interrompido. Não é verdade. Apenas interrompemos o grupo que estava usando a alta dose. No grupo da dose baixa continuamos a pesquisa, incluímos quase 250 pessoas e mostrando qual era a segurança da dose baixa nesses pacientes internados. Ainda está em fase de análise.

Outras pesquisas ainda estão sendo realizadas com a cloroquina?

Iniciamos um outro estudo com pacientes mais leves que também não mostrou a eficácia da medicação, mas teve que ser interrompido porque o Ministério da Saúde publicou uma nota recomendando (cloroquina) para todo mundo. Ficamos com muito mais dificuldade de convidar uma pessoa a participar do estudo e dizer que ela pode cair no braço de cloroquina ou no braço placebo, que não usa nada. Depois que o Ministério adotou essa norma e com as evidências no Brasil e no mundo de que a droga não funciona decidimos não seguir na linha de cloroquina. Resolvemos fazer pesquisa com o uso dos corticoides que são anti-inflamatórios mais potentes que a cloroquina e os resultados devem estar saindo nas próximas semanas.

Há informações de que o Exército brasileiro tem estoque de mais de 1,8 milhão de comprimidos de cloroquina, adquirido para o combate à covid-19. Qual é a sua opinião sobre essa reserva e o uso?

Isso é uma grande trapalhada porque se gastou muita energia, tempo e recurso com a cloroquina. Ainda hoje há muitos estados e municípios que estão usando a medicação que não há nenhuma comprovação científica. O que sei sobre a compra talvez seja o mesmo da imprensa. O Brasil  ainda tem uma grande demanda de cloroquina para malária. Ainda é a medicação para tratar a malária na região amazônica. Quero acreditar que ainda que tenhamos um excesso de cloroquina a gente vai conseguir usar para tratar malária sem grandes prejuízos. É ruim que a população acredite no uso da cloroquina porque isso desvia os cuidados que se deve ter. É lamentável, mas é uma decisão de governo. A gente não tem como interferir nisso, mas dizer a população que ainda que estejam tomando cloroquina que os outros cuidados devem ser adotados porque, de fato, funcionam. 

Permanece forte o embate entre o uso e não da cloroquina. O que diz hoje à ciência sobre o uso desse medicamento?  

Isso é uma coisa que apenas continuou no Brasil. Por algum motivo a ideia de que os trabalhos mostraram que não funciona parece que não chegou (no país). Virou um tema puramente político. As pessoas querem usar de propósito. É claro que (a cloroquina) tem uma função importante em diminuir febre, dor no corpo, mas não vai evitar que as pessoas de forma grave sejam do quadro grave. O embate na ciência não existe mais. Para o cientista e médico acabou a dúvida: não funciona. Os trabalhos mostraram que não existe ação viral, ação sob morte e mesmo os trabalhos feitos na fase leve mostraram que não funciona. É só no Brasil que ainda permanece essa ideia de que deve ser utilizada e a discussão é política.

Quais as motivações?

Senadores, deputados, prefeitos e governadores querem estimular o uso porque querem dar para a população alguma esperança. Mas é falsa e isso toda a ciência já definiu. Não há mais uma discussão científica sobre o tema. Os estudos foram interrompidos no mundo inteiro. Ninguém mais está fazendo estudo com cloroquina porque a informação é muito clara para todos nós. É lamentável que o Brasil ainda esteja nessa onda de querer usar uma medicação que o mundo inteiro desaconselha.

A pandemia favoreceu o conflito entre pragmatismo científico e fundamentalismo político/religioso. A ciência sai fortalecida desse embate?

No Brasil, infelizmente não. Acho que a politização fez com que a população tenha hoje a impressão de que o cientista é devagar, lento demais e que ele está querendo se posicionar politicamente. Foi dito que fizemos o que fizemos porque éramos do PT. Ninguém é filiado ao partido. E usaram a ideia de que cientista também é político e estava querendo fazer um estudo de propósito para provar que não funcionava porque era contrário. O brasileiro ainda acredita que o pesquisador é capaz de matar alguém por política. Ninguém entendeu que o pesquisador é neutro, quer mostrar a verdade e o que acontece dentro do laboratório, na pesquisa clínica. E o cientista se comunica mal. Ele não está conseguindo se comunicar bem com a população. É um treinamento que precisa ser (feito) um esforço de todos nós.

É possível indicar o percurso da pandemia no Amazonas? E no Brasil?

As cidades no mundo que tiveram um aumento muito rápido e que quase toda a população que era suscetível pegou a doença naturalmente controlou, caiu o número de casos e mortes. Foi assim na China em Wuhan, em Milão, Nova Iorque e em Manaus. A abertura (do comércio) em Manaus já completou um mês e vimos que não houve, de fato, aumento do número de casos. A chance de ter infectado a maior parte da população é real. Mas o vírus não desapareceu. O fato de não ter uma segunda onda não quer dizer que quem estava em quarentena não possa pegar. Individualmente quem não teve pode pegar sim, mas uma segunda onda é muito pouco provável.  Até o momento as cidades que tiveram uma primeira grande onda não voltaram a ter segunda. Cada estado vai passar por uma onda diferente. Não dá para falar do Brasil como um todo. Cada estado está tendo o seu pico. Dentro do próprio Amazonas é difícil falar do estado inteiro. Tivemos (uma onda em) Manaus e depois no interior. Manaus que concentra metade da população do estado talvez, sim, já tenha vivido o seu pior momento e agora gradualmente voltamos a vida normal.

Como retomar a "normalidade"?

Por desconhecer o que vai acontecer devemos manter o uso de máscara, a lavagem de mãos, uso de álcool em gel e o distanciamento social. Os grandes eventos de aglomeração por enquanto devemos evitar. As chances de ter uma segunda onda são baixas e acho que a abertura seja sempre gradual com as medidas de precaução. As pessoas querem saber até quando vão usar máscara. Não sabemos. Talvez o vírus seja sazonal, veio e vai desaparecer sozinho. Precisamos entender ainda o que vai acontecer. A hora que o vírus desaparecer completamente e tivermos a certeza de que não há mais vírus dentro da cidade, talvez, a gente volte a verdadeira normalidade.

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