Imunização

Somos a favor da vacinação das crianças de 5 a 11 anos, afirma presidente da FVS

Em entrevista para A CRÍTICA, Tatyana Amorim detalha, dentre outras coisas, as medidas adotadas pela fundação para identificar possíveis casos da variante ômicron no Amazonas

Waldick Júnior
31/12/2021 às 12:02.
Atualizado em 08/03/2022 às 18:59

(Foto: Gilson Mello)

Em um cenário de aumento de casos de influenza no Brasil e com a sombra da variante Ômicron cada vez mais perto do Amazonas,  Tatyana Amorim, diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), recebeu a reportagem de A Crítica.

Durante a conversa de 40 minutos, a gestora destacou o aumento do monitoramento e de medidas de prevenção para adiar (não impedir) a chegada da nova cepa de covid-19 ao Amazonas. Nesse contexto, reiterou a importância da vacinação contra o vírus e orientou para o mantimento das medidas não farmacológicas, como uso de máscaras e distanciamento. 

A presidente da FVS também afirmou que a instituição é “a favor da vacinação das crianças de 5 a 11 anos”, atual tema que movimenta a política nacional. Isso porque, mesmo após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar a aplicação para a faixa etária, o  Ministério da Saúde (MS) planeja audiência para decidir se coloca em prática, ou não, a vacinação. 

A variante Ômicron continua a crescer pelo mundo, já matando mais de 1 mil pessoas por dia nos Estados Unidos e impactando a Europa. Como a FVS está acompanhando essa nova cepa?

Desde o início da pandemia, por que que nós fazemos o RT-PCR? Porque ele permite que façamos o sequenciamento genômico. É através disso, em parceria com a Fiocruz, que nós identificamos as variantes que circulam no nosso Estado. E somos o segundo estado do país em sequenciamento genômico. Isso permite que nós identifiquemos quais variantes circulam [no Amazonas]. Teve a Gamma, que foi predominante e, de novembro para cá, temos a predominância da variante Delta. E dos genomas até agora sequenciados, não foi identificada a variante Ômicron. É obvio que como é de alta transmissibilidade, é cinco vezes maior que qualquer outra variante, ela é muito rápida. Então, estamos trabalhando a intensificação desse monitoramento. 

Além disso, estamos fazendo busca ativa nos 62 municípios, bem como triagens tanto no porto como no aeroporto, e na rodoviária. E isso permite que possamos identificar. Não impedir a entrada, porque é muito rápida a transmissão e a gente não consegue minimizar. Consegue até minimizar os riscos, mas não consegue impedir a entrada, porque as pessoas, elas têm esse poder de livre acesso aos lugares. Mas temos feito esse monitoramento intensivo.

Não seria o caso de implantar medidas nessas fronteiras para minimizar a circulação de pessoas?

Algumas medidas de restringir o acesso, elas podem ser [implantadas], mas isso depende de uma política nacional. A gente não pode simplesmente impedir, instituir uma política “não, não vamos permitir a entrada de pessoas oriundas da África, do Reino Unido”, seja lá qual for o país. Mas é uma discussão que está aí justamente por conta dessa [variante]. 

A gente poderia minimizar os riscos, mas isso também não estaria assegurando que nós iríamos impedir a entrada. Uma vez que ela [a Ômicron] já entrou no Brasil também, né. Em São Paulo nós já estamos com transmissão comunitária. Então, o que precisamos mesmo é trabalhar a rede, intensificar a vacinação de forma que consigamos minimizar os riscos, uma vez que a variante entre no nosso estado. E as medidas são as mesmas para qualquer outra cepa.

E sobre o controle das fronteiras, como tem sido intensificado? O que exatamente está sendo feito nos portos, em rodoviárias e aeroportos? 

Estamos com uma ampliação nas testagens. Vocês acompanham o cenário epidemiológico e podem ver que estamos tendo aumento de casos principalmente no interior. Por quê? Porque estamos ampliando, fortalecendo essas testagens de forma que a gente consiga ter esse monitoramento mais fidedigno, principalmente no interior. Vou dar um exemplo do Alto Solimões. Lá, nós temos em Tabatinga o laboratório de fronteira que já faz a RT-PCR. E isso permite uma maior agilidade no resultado e manda pra cá para podermos sequenciar. Hoje temos testes nos 62 municípios, e Manaus também tem suas estratégias locais. Hoje em Manaus já tem 51 unidades básicas de saúde que disponibilizam o teste. Orientamos também os municípios a trabalhar triagens. Estão ofertando testes nas portas de entrada dos municípios. 

Em Humaitá, que faz fronteira com Porto Velho, orientamos ter triagem na porta de entrada do município, e ali as pessoas fazem teste. Já é uma barreira. Deu positivo? Vamos ter que isolar. É um conjunto de medidas para minimizar os riscos e a vacina é importante nesse processo. Por que tivemos essa redução de hospitalizações e óbitos? Em decorrência da vacina, porque o objetivo principal é o quê? Evitar que as pessoas agravem e morram. Então se a gente identificar precocemente, isolar essas pessoas e somar com as vacinas, e ainda a adesão às medidas não farmacológicas, a gente consegue minimizar os riscos de qualquer variante.

Sobre a vacinação. Os dados mostram que no interior do estado os números estão mais baixos em comparação à capital. A que a FVS atribui esses números mais baixos, embora o Estado esteja realizando campanhas de vacinação?

O [interior] Amazonas tem um diferencial da capital que é justamente a questão da acessibilidade, de logística e de conectividade. Os números que chegam até nós das coberturas pode ser que estejam defasados por conta de falta de inserção da informação [no vacinômetro]. Esse é um ponto que pode estar acontecendo. Os municípios não estão conseguindo inserir os dados em tempo oportuno para que consigamos avaliar. E existe, por exemplo, um município, não vou lembrar o nome, mas existem municípios que detectamos que falta quatro mil registros no banco de informações. E isso realmente dá um impacto na análise das informações quando vamos analisar a cobertura vacinal. 

Outro ponto que acontece bastante é que comunidades rurais e áreas indígenas são de difícil acesso. Fizeram a primeira dose [nesses locais], mas por várias outras questões não conseguem voltar para fazer a segunda [dose]. Precisa haver um trabalho direcionado para as especificidades de cada município, porque cada município vai conhecer quais são as necessidades e quais as dificuldades eles têm para acessar essas áreas para que possamos conseguir vacinar. E hoje temos o que chamamos de vários vazios nos municípios que não conseguimos acessar com a vacina. 

E o Estado supre a necessidade do envio de pessoas para essas localidades? 

A gente tem feito envio, por exemplo, hoje estou conversando com vocês e tenho uma equipe em Matupi, que é uma área rural de Manicoré. Então estou lá com uma equipe de sete pessoas. Entre Secretaria de Estado de saúde e FVS. Fazendo justamente essa questão da testagem, orientação de isolamento, vacinação. Mas temos feito ao longo desse ano e do ano passado também, várias idas a municípios estratégicos para que possamos acelerar e dar apoio local a secretarias municipais, mas não temos como suprir ao mesmo tempo os 61 municípios, mas os prioritários conseguimos encaminhar equipes. 

Em reportagem de A CRÍTICA, secretarias municipais de saúde do interior afirmaram que parte dos baixos níveis de vacinação está associada ao negacionismo. A FVS também vê esse mesmo problema?

 

Tem a questão política, e tem, sobretudo, a questão ideológica e religiosa. Há muitas pessoas que recusam ainda tomar a vacina. Só que é o que eu costumo dizer sempre aqui na FVS. Quem vai definir o cenário da covid-19 no Amazonas são os não vacinados, que não querem ser e que estão com ela [a imunização] atrasada. Elas é que estão deixando o meio propício para o surgimento de novas variantes, então temos que trabalhar campanhas de mídias, e vocês da comunicação são peças fundamentais na disseminação da informação, informação correta que a vacina realmente é a arma mais poderosa de enfrentamento da covid-19, somada a outras medidas, é a nossa esperança. Então, [sobre] aqueles que se negam por várias questões, a gente precisa alcançar essas pessoas, porque existe, sim, um número expressivo de pessoas que realmente recusam a vacina. Hoje mesmo lá em Matupi [Manicoré], o relato da equipe é que muitas pessoas não quiseram tomar a vacina.

A FVS-AM tem algum tipo de registro dessas pessoas que se negam a tomar vacina, alguma declaração afirmando que abrem mão da imunização, por exemplo?

As equipes trazem esses relatos, essas questões. A gente orienta trabalhar campanhas de comunicação que alcancem mais essas pessoas, mas é um direito assistido e temos que respeitar, embora tenhamos que tocar no coração delas de alguma forma para que possam ser sensibilizadas a tomar a vacina. Agora não existe um termo [que as pessoas assinem dizendo que abrem mão da vacina]. Nada documentado, só relatos. 

A Anvisa aprovou a aplicação de uma dose diferente da Pfizer para crianças. Apesar disso, o Ministério da Saúde ainda irá realizar audiência pública para decidir se irá orientar a vacinação para esse público. Como a FVS-AM se posiciona a respeito dessa discussão?

A gente sabe que já tem autorização da Anvisa e agora aguardamos as notas técnicas do Ministério da Saúde para que possamos ter essas vacinas [que ainda não foram adquiridas], porque embora seja Pfizer, a apresentação é diferente. E aí é preciso que o Brasil faça essa aquisição e distribua por meio do Ministério da Saúde. Então, estamos aí no aguardo da posição do MS para que possamos avançar nessa vacinação, mas entendemos que é importante, é preciso e é um grupo que está suscetível e somos a favor da vacinação das crianças de 5 a 11 anos. 

Apesar do avanço da vacinação, a senhora vê alguma possibilidade de, após as festas de fim de ano e com o avanço da Ômicron, Manaus ver o cenário de crise como ocorreu em janeiro deste ano?

O que está acontecendo? As pessoas não estão internando por covid-19. É mais por outras causas, entre elas, os vírus respiratórios. Mas eu não acredito em um cenário como o do ano passado. Acredito que a vacina veio justamente para minimizar todos esses riscos, principalmente de agravamento e óbitos, então acredito muito no poder da vacina e que não iremos ver um cenário igual ao do ano passado e nem do começo desse ano. Mas não iremos viver (o mesmo cenário) por conta da vacina e porque precisamos que as pessoas façam a sua parte, porque a vacina por si só não é uma medida isolada, continuamos com as medidas não farmacológicas, com a rede organizada para atendimento dos pacientes, mas precisamos que a população faça parte disso, então aqueles que estão com o esquema vacinal incompleto precisam ir. Agora temos dose de reforço para as pessoas com quatro meses da segunda dose. Nunca faltou vacina no Amazonas.

 

Uma das medidas mais importantes na prevenção à covid-19 é o uso de máscara. Pode ocorrer dessa ação se tornar padrão quando o Amazonas estiver passando por surtos gripais, como no período chuvoso?

Pode, sim. Isso já foi ventilado na fundação, até porque o Japão faz isso. Eles já usavam máscara há muito tempo. Acho que é uma medida que veio para ficar. Independente de sazonalidade, a pessoa que estiver com problema respiratório vai ter a sensibilidade de usar sua máscara, então penso que é um comportamento que veio para ficar.

 

Não que seja necessariamente uma medida vinda do governo, mas sim uma atitude de cada pessoa?

Isso, individual. 

De modo geral, o que a pandemia expôs e ‘ensinou’ em relação a medidas de saúde aplicadas no Amazonas?

No meio da dor, do sofrimento, do caos, de um esgotamento da rede assistencial, vimos fragilidades. Então hoje temos um maior número de leitos, uma maior oferta de serviços, mais profissionais de saúde. Embora tenha sido um momento difícil, talvez em uma próxima pandemia estejamos mais preparados para enfrentar. Porque nenhum gestor estava preparado para enfrentar a pandemia. Nenhum estaria, por melhor que fosse. Ela chegou e tomou conta, então o que posso dizer é que depois dessa experiência iremos errar muito menos.

As unidades de saúde do Amazonas veem hoje um aumento de casos de influenza. Inclusive, o vírus já está em outros estados do Brasil, sendo considerado uma epidemia. Como está o cenário de controle no nosso Estado?

Temos um aumento de casos expressivo de H3N2. Estamos no aguardo ansioso da antecipação da vacina de 2022, porque já passamos da campanha desse ano. O secretário de Saúde do Estado já pleiteou essa antecipação [com o Ministério da Saúde]. Quem tinha que ter tomado a vacina esse ano já tomou. Sabemos que temos um público infantil, que é o que mais tem sido internado, mas temos visto um aumento maior do número de internações por conta dos vírus respiratórios, sem ser covid-19, e estamos esperançosos com relação à antecipação da vacina e manter as medidas que sempre falamos. Todo ano tem uma vacina nova por conta das mutações, e a vacina precisa se adequar. 

Essa influenza que está circulando tem maior risco de óbito?

A H3N2 não tem esse perfil de agravamento. Se puxarmos o perfil de quem está internando é justamente idosos, crianças, pessoas com comorbidades. Então o potencial de agravamento é menor.

 

Além da influenza, vimos um aumento nos casos de covid-19 nesse final de ano. A quê é atribuído?

É por conta da sazonalidade, do relaxamento das medidas, de aglomerações, é por tudo isso. Mas assim, não foi um aumento expressivo. Saímos de uma média móvel de 32 casos diários para 37 casos por dia. E também temos a intensificação dos testes, por isso temos mais registros. 

Para finalizar, como gestora, o que mais lhe marcou durante a pandemia? 

Na pandemia, desde março de 2020 que temos enfrentado essa crise, um momento que mais me marcou foi a perda da nossa bússola [da FVS], que é a doutora Rosemary Costa Pinto [ex-diretora-presidente da fundação que faleceu por covid-19 em janeiro]. Tanto prova que o nome da fundação de vigilância se tornou o nome dela. Eu já estou na fundação há 11 anos, então ela nos ensinou a ser corajosos, a nos manter firmes, e eu não sinto que ela morreu. Porque ela vive diariamente, é presente em todas as decisões que tomamos, nas perguntas que nos fazem, vem a lembrança. E é importante sempre, e o maior desafio aqui na diretoria é seguir com o legado que ela deixou. Principalmente com o ponto de vista que na saúde não tratamos números, mas sim pessoas, e essas pessoas são amores de alguém. Então esse olhar, é sob essa ótica que tentamos aqui seguir com a fundação. Que não é um número, é uma pessoa e é o amor de alguém.

 

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