Sábado, 24 de Julho de 2021
ENTREVISTA

‘Toda medida de restrição vem com avaliações de risco’, diz diretor da FVS

Em entrevista ao A CRÍTICA o diretor-presidente da FVS, Cristiano Fernandes, ressaltou que o Amazonas hoje pode ser um espelho para os outros Estados para que possam se preparar melhor em relação à covid-19.



1875705_Critiano_1_4C88EB85-89CE-4B29-87E5-AEE50663C444.jpg Phil Lima/Freelancer
21/02/2021 às 08:12

Diretor-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS/AM), Cristiano Fernandes da Costa alerta que, apesar da atual desaceleração de casos e mortes provocados pela covid-19, no Amazonas, a população não “pode baixar a guarda”.

Alçado ao cargo, no final de janeiro, após a perda da ex-presidente da fundação, Rosemary Costa Pinto, uma das mais de 10 mil vítimas fatais da pandemia no Amazonas, Cristiano da Costa lembra, durante entrevista para A CRÍTICA, que a desaceleração da covid-19, no Estado, ocorre em um nível elevado de transmissibilidade e mortes. A seguir trechos da entrevista concedida na quinta-feira.



AC: Quais diferenças você pode destacar entre a primeira e a segunda onda da covid-19 no Amazonas?

Principalmente no número de casos. A incidência foi maior, nessa que gente chama de segunda onda, e a força de transmissão, além das taxas de letalidade. O número de óbitos que nós tivemos principalmente na segunda quinzena de dezembro e janeiro. Janeiro foi um mês que nós já superamos o pior cenário que nós tivemos no ano passado que foi em maio, então isso chama a atenção. Eu estou falando de um aumento em mais de o dobro do número de óbitos relacionados a covid-19, e isso, de fato, superou muito a primeira onda.

E isso chamou atenção pela transmissibilidade, número de casos da doença e a questão dos óbitos. Obviamente, que nós temos que olhar com muito cuidado e rigor pois, podem haver outras variáveis que podem ter influenciado nos casos graves e óbitos na primeira onda, no colapso da rede de saúde, e isso faz diferença. Precisamos olhar com cuidado se os fatores associados ao colapso da rede de saúde não contribuíram para a ocorrência de casos graves e óbitos pela doença. São cenários muito distintos.

AC: Nas duas ondas da doença o Amazonas foi o primeiro do Brasil a entrar em colapso na saúde. Em sua opinião por qual razão isso ocorreu?

O Amazonas hoje pode ser um espelho para os outros Estados do país para que possam se preparar melhor do que vem por aí. O período sazonal dos vírus respiratórios aqui no Estado tem uma influência muito maior no hemisfério norte, do que no hemisfério sul. Nesse período - o inverno amazônico - é o período que cursa as doenças respiratórias causadas por vírus que é diferente do cenário do sudeste.

Se nós pegarmos essa linha do tempo, o primeiro caso diagnosticado da covid-19 foi no dia 13 de março do ano passado, no dia 24 o primeiro óbito e no dia 28 nós já tínhamos a dispersão do vírus, principalmente, na capital e na maioria dos bairros. Foi muito rápido.

O que pode explicar ou pode trazer algumas hipóteses? O período sazonal de transmissão de vírus respiratórios. O inverno amazônico começa com o início das chuvas, normalmente em dezembro que acentua um pouco mais e vai até maio de junho. As pessoas ficam em ambientes mais concentrados, fecham as janelas. Você diminui a circulação de ar e isso favorece a propagação dos vírus respiratórios. O vírus entrou no período de maior incidência, no maior risco de transmissão de doenças respiratórias causadas por vírus.

Ele encontrou todas as condições, além da questão das medidas de prevenção algumas pessoas não entenderam, então é uma série de fatores que podem explicar isso. Obviamente, parte da dinâmica de transmissão está relacionada com o comportamento das pessoas, principalmente quando a gente precisa pensar na adoção de medidas de distanciamento social, medidas de higiene a questão a limpeza das mãos, uso de álcool em gel. Em Manaus a gente tem um mosaico com os bairros totalmente adensados com uma população muito grande em determinadas localidades e isso favorece as condições para transmissão de algumas doenças entre elas a covid-19.

AC: Com os números que temos hoje é seguro abrir os serviços não-essenciais?

O grande desafio que a gente tem, falando a nível Brasil e mundo, é você buscar um equilíbrio porque a ‘covid’ é uma doença que a gente ainda não conhecia como seria o comportamento, a capacidade de transmissão e com essa transmissibilidade quais as medidas que poderiam ter um impacto maior.

Hoje, do ponto de vista epidemiológico, a situação ainda é crítica. Estamos em uma fase que nós chamamos de fase vermelha com uma alta transmissão. Essa alta transmissão requer algumas medidas e alguns regramentos que precisam ser adotados. Hoje nós não podemos baixar a guarda embora o cenário mostre uma desaceleração tanto do número de casos, quanto do número de óbitos.

Lembrando que essa desaceleração está acontecendo em um nível elevado de transmissão, então até nós chegarmos em medidas mais seguras nós precisamos ainda manter os cuidados. Sobre a questão do comércio, hoje, a nossa preocupação é no sentido de evitar que a circulação de pessoas em aglomeração. Evitando a gente consegue reduzir essa taxa de transmissão. É um sacrifício que a gente busca e algumas decisões não são fáceis. O nosso desafio é tentar equilibrar. Eu tenho que equilibrar a questão voltada para a epidemiologia para proteger as pessoas, evitar novos casos e óbitos e ao mesmo tempo eu tenho que pensar nas questões econômicas, sociais. Buscar esse equilíbrio entre o que é possível e o que é necessário.

“Hoje nós não podemos baixar a guarda embora o cenário mostre uma desaceleração tanto do número de casos, quanto do número de óbitos”

AC: Existe uma estimativa segura de quando a abertura dos serviços é recomendada?

Como nós estamos trabalhando por fases. Quando nós chegarmos a uma transmissão moderada, a gente consegue assumir algumas etapas no sentido de mitigar o risco. Toda a medida de restrição ou de flexibilização vem com avaliações de risco. Na medida que eu consigo controlar esse risco ou assumir alguns riscos, mas de forma controlada, eu consigo reduzir muito a exposição. As etapas tanto da restrição quando de ajuste (flexibilização) elas devem ser feitas com regras.

AC: Havia como prever a crise do oxigênio?

Nós trabalhamos com estimativas. Trabalhamos com evidências. A partir dessas evidências nós traçamos projeções. Não tem ninguém hoje no Brasil que foi capaz e prever uma emersão de uma variante para a partir daí nós pudéssemos prever cenários da magnitude que foi. São muito complexas essas medidas. Nós emitimos alertas a partir do momento que a gente detecta qualquer mudança de padrão. A partir dessa mudança a gente consegue ajustar os modelos e ajustando os modelos nós emitimos alerta.

No ano passado, a gente precisa fazer um recorte do primeiro para o segundo semestre. A partir do mês de setembro a gente começou a perceber alguns movimentos no município. Nós reduzimos muito o número de casos a partir de junho, não deixamos de ter casos inclusive não deixamos de ter óbitos, mas em uma transmissão muito menor e ocorrência de óbitos muito menor. Isso fez com que as pessoas tivessem uma falsa impressão de segurança e isso fez com que muitas pessoas deixassem de adotar as medidas de prevenção.

Nós víamos muitas pessoas sem máscara, muitas pessoas com aquele discurso: já peguei covid-19, não vou pegar de novo. Nós víamos muitas pessoas participando de festas com aglomerações. Em setembro nós começamos com as convenções partidárias, mas o que a gente percebeu foi que alguns movimentos principalmente em aglomeração, as pessoas estavam simplesmente sem nenhuma medida de prevenção. São fatores que começaram a nos chamar atenção e isso já começou a refletir na rede. E nós começamos a emitir alertas. Tanto é que o alerta emitido em dezembro com a medida mais extensiva no sentido de fechamento houve um movimento popular contra a medida.

Aquela medida foi adotada a partir dos relatórios de vigilância em saúde porque naquele momento nos precisávamos adotar medidas de isolamento sociais para que nós reduzíssemos o risco coisa que não aconteceu. Foi exatamente na segundo quinzena de dezembro. A partir daí a gente perdeu o controle. Esses recortes a gente precisa entender até para avaliar como foi a dinâmica da transmissão e esse excesso de casos, colapsou a rede de saúde. Essa situação do oxigênio foi uma situação que nunca foi evidenciada no país todo e hoje alguns estados já estão sinalizando essa crise de oxigênio.

AC: Qual a faixa etária de maior incidência dos casos e por que?

Setenta por cento dos casos nessa segunda onda aconteceram na faixa etária de 20 e 59 anos, a parcela da população economicamente ativ,a a parcela da população que tem uma tendência de participar de eventos sociais. No entanto apesar da incidência ser maior nessa faixa etária, que é uma faixa grande da população, os óbitos continuaram a acontecer na população idosa acima dos 60 anos. As pessoas deixaram de adotar as medidas de prevenção participavam desses eventos, festas, bares, sem o uso de máscara, pegavam a doença e levavam para o ambiente domiciliar.

AC: A terceira onda pode ser uma realidade?

A gente tem até um cuidado para falar porque é muito fácil dizer: ‘vai ter uma terceira onda’. Tá, mas quando? Ninguém chegou, nenhum pesquisador, nenhuma pessoa que tem todo esse know-how (conhecimento). Lembrando, que nós temos responsabilidade sobre aquilo que a gente afirma naquilo que a gente emite nos relatórios. Desde a introdução o plano de contingência, as evidencias que foram geradas, os relatórios epidemiológicos, feitos com dados que são produzidos pelos municípios e são traduzidos em informações pela fundação de vigilância em saúde. [...] hoje é muito fácil as pessoas chegarem, surgirem do nada.

Uma coisa que não cabe quando você trabalhado com saúde pública, não cabe improviso, cabe criatividade. Não cabe aventureiros nessa seara e você afirmar qualquer situação com convicção, você está cometendo vários erros. Hoje a prudência é um dos melhores conselheiros no campo da epidemiologia e as evidências tem que ser colocadas ao crivo da luz da ciência. Nós precisamos consideram que temos uma vacina e acreditamos na segurança, eficiência e eficácia dessa vacina. Nós temos uma série das ações que tem sido feitas, na questão das medidas de controle. Eu muito fácil falar: vamos fazer um lockdown de 60 dias, o difícil é você saber avaliar as consequências que isso gera.

"Algumas decisões não são fáceis. Eu tenho que equilibrar a questão voltada para proteger as pessoas e ao mesmo tempo pensar nas questões econômicas, sociais”.

AC: A FVS trabalha com a possibilidade de que as vacinas disponíveis no mercado não sejam eficazes contra a nova variante?

Nós fazemos parte da rede de vigilância genômica do país. O Brasil até dezembro nós tínhamos depositado 3 mil sequencias genômicas do Sars-cov-2. Três mil no Brasil todos, nós [amazonas] tínhamos contribuído com 250. Desde março do ano passado nós fazemos o monitoramento da sequência genômica do vírus. Nós somos da rede sentinela da OMS (Organização Mundial de Saúde) para vírus respiratório e ajudamos na composição da vacina contra a influenza. A gente já tem uma expertise para a vigilância viral de doenças respiratórias a muito tempo. Essa rede de vigilância em parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) monitora essas identidades genética e a gente tem um trabalho não somente na capital mas também no interior.

Metade dos municípios nós temos amostras e a identidade genética que são as variantes. Até dezembro tínhamos identificado 12 variantes, ou seja, eram 12 entradas de vírus no estado de diversos estado, inclusive de diversos países. A partir de dezembro a gente conseguiu detectar uma reinfecção. A segunda reinfecção relatada no Brasil e para a nossa surpresa foi com essa variante que a gente chama de P.1, ou seja, ela mostrou a capacidade de reinfectar. Era [apenas] um caso, era mas precisa ser valorizado. A partir dessa identificação nós temos um sistema de alerta nacional por meio do Centro de Informações estratégicas de vigilância em saúde que é uma rede de vigilância em todo o país que qualquer evento de importância para a saúde pública imediatamente a gente emite um alerta para o CIEVS nacional e ele dispara para os 27 estados da federação e a partir dai medidas de prevenção serão tomadas.

AC: Tratamento precoce funciona? 

Existem vários protocolos, e a questão do tratamento ou não é um ato médico. Cada profissional médico, na conduta dele com o paciente, vai fazer a opção por um tratamento ou outro, uma recomendação ou outra isso é muito individualizado. Hoje nós temos muito mais conhecimento do que nós tínhamos no ano passado em março quando a doença começou a circular, os casos graves começaram a surgir e o mundo não estava preparado para isso A parit dessas experiências foram reavaliados protocolos, criados novos protocolos e a questão do tratamento é muito individualizada. Hoje nós temos uma preocupação muito grande com os pacientes que evoluem para casos graves porque normalmente são pacientes que tem comorbidades: diabetes, hipertensão, obesidade, cardiopatas e isso vem com a idade. Por isso a nossa preocupação principalmente com os nossos idosos. A vacinação está estratificada nesses grupos, logico porque a limitação no número de doses então precisamos proteger as pessoas mais vulneráveis. São questões que a gente tem que buscar e escolhas que são feitas baseadas em evidencias científicas da mesma forma é o tratamento.

AC: Quais as suas considerações sobre o alcance da marca de 10 mil mortes no Amazonas? Isso poderia ter sido evitado?

Se nós tivemos mantido a nossa guarda alta, se as recomendações do decreto estivessem sido atendidos nos poderíamos ter freado muitos casos. São situações que a gente consegue contornar outras não. Infelizmente nós chegamos a um número, e infelizmente não são números. São vidas, são famílias, são tragédias que nós vivenciamos nas nossas famílias. Nós vivemos tragédias pessoais aqui na FVS. Nós perdemos a nossa diretora-presidente, a doutora Rosemary Costa Pinto, que dedicou a vida dela toda para ações de vigilância. Ela tem uma carreira de vida profissional que poucos conseguiram chegar. A gente não consegue mensurar quantas vidas foram preservadas pelas nossas ações e pelas ações da doutora Rose. A bandeira da FVS primeiro é a questão ética, depois a questão técnica e a questão do respeito. Nós sempre estivemos abertos ao diálogo, sempre tivemos abertos a discussão científica que é extremamente necessária para construção de protocolos. [...] nós não precisamos de palanque.

Tem pessoas que escolhem o palanque e o palanque das vaidades. Nós escolhemos o trabalho, escolhemos a ciência como nosso aliado é isso que a gente faz. A gente tem sentido na pele isso. São mais de 10 mil óbitos. Quantas dessas vidas poderiam ter suas perdas evitadas? Pelo comportamento de uns, por falta de segurança, por falta de condições da gente controlar alguns movimentos que infelizmente não conseguiu. É uma doença que nivela todo mundo no mesmo patamar. Hoje quando a gente fala que vai voltar ao normal. Não, a gente não vai ter o normal mais. Nós não podemos esquecer, e a memória das pessoas as vezes é muito curta, do que a gente vivenciou em janeiro. Estamos vendo movimentos sociais da população querendo simplesmente abrir tudo. Não é assim que funciona. Qual o preço que nós estamos dispostos a pagar se nós abrimos tudo simplesmente de uma forma generalizada e que as pessoas deixem de respeitar as regras, porque eu acho que é isso que está faltando: É limite.

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