Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ALERTA

Uso indiscriminado de medicamento contra malária pode ser prejudicial

Primeiros testes com a cloroquina e com a hidroxicloroquina são animadores, mas médico alerta para que população não faça uso por conta própria por conta dos sérios riscos à saúde



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21/03/2020 às 18:29

Depois que o Estados Unidos da América (EUA) anunciaram “um certo encorajamento” para se chegar à cura do novo coronavírus (a Covid-19), a procura pelo hidroxocloroquina e cloroquina (medicamento usado no combate à malária) disparou nas farmácia de todo o pais. Mas, o que a maioria da população ainda não se deu conta é de que o mesmo medicamento usado no tratamento da nova doença pode causar graves sequelas para a saúde daqueles que não têm qualquer tipo de sintomas. 

“Estamos encorajados porque o medicamento vem mostrando que tem uma certa eficácia no tratamento e na redução de mortes na China, França e mais recentemente na Itália, porém, ainda não é a cura. Trata-se de um tratamento nesse momento de crise. Muitos estudos com embasamento científico ainda estão sendo elaborados. Alertamos para que as pessoas não usem indiscriminadamente e nem se automediquem sem sentir qualquer tipo de sintoma do novo coronavírus”, alertou o médico Luciano Dias Azevedo, que trabalha na Rede Notredame Intermedica de Campina (SP), e também é médico Oficial da Marinha com larga experiência em saúde na Amazônia.



O médico alerta que os efeitos colaterais do hidroxocloroquina podem causar: náuseas, vômito, diarreia e até mesmo cegueira e surdez nas pessoas. Por isso, a preocupação para o uso indiscriminado.

“Trata-se de um medicamento usado para o tratamento da malária que é a doença que mais mata no mundo e por isso é administrado por profissionais da saúde. E, além da malária, existem outros grupos de pessoas com doenças do tipo reumatológicas, entre outras, que precisam desse medicamento para o tratamento e se ele acabar, elas ficarão sem o remédio”, enfatizou o especialista da saúde publica.

Azevedo salientou que o uso da cloroquina vem sendo o forte tema de debate entre as autoridades em saúde no mundo todo e que o Ministério da Saúde já estuda o uso em pacientes diagnosticados com o novo coronavírus no Brasil. Uma nova avaliação está sendo feita junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que o medicamento seja administrado seguindo os protocolos internacionais no combate à Covid-19.  

Isolamento da Amazônia pode ajudar

Seguindo as orientações e protocolo internacional de saúde, a recomendação dada pelo médico Luciano Dias Azevedo é de que as pessoas estejam cientes de que o isolamento social é a melhor solução para o enfrentamento do novo coronavírus, assim como aconteceu no caso de Hong Kong, na China, onde a população agiu rápido e optou pelo isolamento espontaneamente, antes mesmo de o governo decretar quarentena e toque de recolher.
 
“Não é necessário pânico. É necessário planejamento. Ainda não somos a Itália e temos tudo para não ser se cada pessoa compreender que é necessário o isolamento social. É preciso que as pessoas tenham informações corretas e que só busquem as unidades de saúde se realmente estiverem com algum sintoma considerado grave, como: febre acima de 37.8 graus e complicações respiratórias”, salientou em forma de apelo, o médico.

Ao analisar a densidade demográfica do Amazonas, o médico avaliou que a região amazônica deve enfrentar a pandemia de uma forma diferenciada, se considerada a realidade da região.

“A região amazônica é privilegiada primeiro pelo clima quente o ano todo, segundo pela qualidade de vida das pessoas e também por contar com populações mais isoladas e com menor probabilidade de contágio da doença.  Porém, tudo isso tem que estar alinhado à um planejamento na área da saúde. As Secretarias Municipais devem seguir os protocolos do Ministério da Saúde e da Secretaria de Estado de Saúde, além de trabalhar pesado a conscientização das pessoas para seguir no isolamento social e na questão da higiene”, reforçou.  

Na linha da escala global, a previsão do especialista é de que 90% da população brasileira será acometida com o novo corona vírus em forma de uma gripe leve. O restante, segundo Luciano, será de pessoas que terão quadros mais graves e esses são os que devem, de fato, procurar uma unidade de saúde. 

“Vamos supor que 20 pessoas serão infectadas pela doença, mas que só temos cinco leitos preparados para atender os quadros mais graves. Desse número então, perderemos 15 pessoas porque não teremos como atender à todos ao mesmo tempo. Por isso, repetimos que deve ser feito planejamento com o isolamento das pessoas e para que tenhamos um número mais demorado de pessoas indo aos hospitais. É necessário planejamento para se evitar uma sobrecarga no sistema”, reforça o especialista. 

O que fazer quando falta o álcool em gel?

O principal item de higienização das mãos sumiu rapidamente das prateleiras das farmácias e supermercados assim que o Governo brasileiro confirmou o primeiro caso do novo coronavírus. Desde então, o álcool gel virou quase um artigo de luxo em meio a crise de saúde pública. Mas, o que a população pode fazer para manter a higienização na ausência do produto? O médico Luciano Azevedo dá uma dica de fácil acesso, mas que deve ser seguida com cuidado.

“O líquido de Dakin é uma fórmula que se pode fazer em casa e que tem a mesma função do álcool 70%. Para fazer a mistura, basta colocar uma colher rasa de sopa de água sanitária em um litro de água e deixar, de preferência, no próprio recipiente de água sanitária para evitar confusão com os produtos. A pessoa pode usar a própria garrafa que esteja vazia e não deve colocar em garrafa PET, para evitar problemas no uso, já que a água sanitária pura é danosa ao corpo humano. Com essa mistura, a pessoa pode até lavar as mãos, na ausência de álcool em gel, bem como utilizar o produto para limpar superfícies”, recomendou ele ao ressaltar que estamos em fase de planejo para impedir que a doença se alastre.

Além do isolamento social apontado como principal meio de se evitar que a pandemia se alastre, o médico dá outras discas de higienização práticas e seguras que devem ser adotadas no dia a dia. São elas:
 
I.    Limpe bem a casa – em algumas situações, o vírus permanece em até 9 dias no piso, na maçaneta da porta, na barra do ônibus, entre outras superfícies. Porém, em contato com produto de limpeza, seja algum alvejante ou ácool 70%, ele vive menos de dois minutos. Por isso é necessário limpar bem e desinfetar a casa;

II.    Coloque um pano por cima de um plástico na entrada da porta. Assim, toda vez que chegar da rua, retire os sapatos (de preferência do lado de fora da casa) e borrife água sanitária na sola dos sapatos. Dessa forma, você e sua casa estarão protegidos caso tenha pisado em alguma saliva de pessoa contaminada;

III.    Quando for ao supermercado ou ao mercadinho no bairro onde mora, escolha os horários nos quais existe menor volume de pessoas, como, por exemplo, no período de 6 às 8h da manhã ou tarde da noite e sempre mantenha distância de pelo menos um metro e meio da outra pessoa;

IV.    Prefira tocar maçanetas e apertar botões de elevadores, entre outros, com a mão que não é dominante, evitando o contato mais fácil com boca e olhos;

V.    Lave bem as mãos com sabão ou sabonete, em todas as regiões inclusive unhas, dedos polegares até o dorso no antebraço;

VI.    Lave as roupas normalmente; 

VII.    Peças de roupas como jaquetas de couro e casacos que não são fáceis de enxugar rapidamente, além dos sapatos, podem ficar expostos ao sol por, no mínimo, quatro horas; o que faz com que o vírus morra;

VIII.    Álcool em gel só deve ser usado quando em ambientes que não possuam pia e sabão para lavar as mãos e, ao ser usado, deve enxugar naturalmente. Não enxugue as mãos após passar o álcool em gel;

IX.    Pets (cães e gatos) também devem ser higienizados - não esqueça de limpar com água e sabão, as patas dos pets (cães egatos). E se for passear com eles, carregue-os evitando o contato com o chão;

X.    O isolamento social evita contatos físicos e contaminação. Por isso é imprescindível se prevenir.

“Todas essas medidas podem nos ajudar a diminuir a mortalidade e o número de infectados. Precisamos acabar com isso logo porque não temos saúde financeira para que essa crise se arraste por muito tempo. Queremos que esse vírus vá logo embora e a gente possa voltar a nossa vida normal”, concluiu o médico Luciano Azevedo.

FVS alerta para o uso de hidroxocloroquina

Em entrevista coletiva online na última quinta-feira (19), a diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), Rosemary da Costa Pinto, esclareceu que o medicamento com hidroxocloroquina e cloroquina, usado no tratamento da malária, ainda não era recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e nem pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de pessoas infectadas com o novo coronavírus.
 
A diretora explicou que há pesquisas em andamento com um grupo de medicamentos, incluindo os que possuem hidroxicloroquina e cloroquina, mas que os resultados ainda não são conclusivos.

“Vários estudos estão apontando para essa possibilidade, mas como o próprio presidente dos Estados Unidos disse, trata-se de estudos, de pesquisas e ainda não temos protocolo de tratamento por parte da Organização Mundial de Saúde (OMS)”.

A diretora reforçou que o medicamento é dispensado gratuitamente na rede pública, exclusivamente para o tratamento de malária, e alertou para o uso indiscriminado.

“O estoque de cloroquina que temos no Estado é destinado para os pacientes de malária, devendo ser usado de acordo com a prescrição médica, para evitar o desenvolvimento de resistência. Se começarmos a usá-lo de maneira indiscriminada, certamente nós corremos o risco de perder esse importante medicamento para o controle da malária”, declarou Rosemary.

Esclarecimentos da Anvisa – A Anvisa emitiu nota afirmando que a hidroxicloroquina e a cloroquina são registradas para o tratamento da artrite, lúpus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária, e que, apesar dos primeiros resultados das pesquisas serem promissores para o novo coronavírus, não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desses medicamentos para o tratamento da Covid-19.

Para dúvidas e orientações sobre o novo coronavírus ligue 136

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