Domingo, 07 de Março de 2021
Vacinação

Vacinados, mas não menos angustiados

Profissionais da saúde, primeiros dos grupos prioritários a se vacinarem, falam do sentimento ao receberem a primeira dose



Sem_t_tulo_AD658074-99DA-4696-BBE9-38C5CE11FEE2.jpg Foto: Maria Luiza Dacio
26/01/2021 às 11:11

O médico e diretor clínico do Hospital Regional Dr. Jofre Matos Cohen, em Parintins, Paulo Roberto Pires de Souza, de 63 anos, pertence ao grupo de risco e precisou voltar à linha de frente contra a Covid-19 após a alta do número de casos confirmados e de internações pela doença viral.

Segundo o médico, o registro de internações saltou de 20, no final de dezembro, para 121, chegando a 100% da capacidade do hospital, única unidade de Parintins que atende pacientes com Covid-19 e também recebe moradores dos municípios paraenses de Terra Santa, Faro e Juruti. Com alta de contaminados, seis médicos foram infectados e afastados.



“A pandemia veio novamente de uma forma surpreendente e não teve como a gente ficar afastado. Adotando todas as medidas de proteção retornamos ao hospital por absoluta necessidade. Eu não me contaminei, mas o medo é inerente a todos que estão na linha de frente da covid. Não há ninguém que não esteja com medo, ainda mais agora que a gente percebe que a gravidade dos casos é muito maior e o vírus realmente está muito mais agressivo”, declarou.

Nos meses de pico da primeira onda, ele não esteve completamente distante das atividades do hospital. Permaneceu em home office cuidando da parte administrativa, por exemplo, escala de médicos e remoção de pacientes. O médico disse que tomar a primeira dose da vacina deu um certo alento, mas frisou que não está imunizado e por isso não pode descuidar das medidas de prevenção ao vírus.

“É um alento muito forte porque percebemos que as coisas não vão melhorar muito rápido. A impressão que eu tenho é que aquele ciclo de uma pessoa que contamina a outra, depois isola e isso acaba, eu acho que a gente perdeu o controle desse ponto. É necessário, mas não é uma garantia porque as pessoas fechadas em casa elas ainda estão contaminando as outras. É necessário e muito ainda fazer o isolamento porque senão vai ser uma situação muito pior do que isso”, avalia.

Sob estresse

O enfermeiro Paulo Dantas, de 36 anos, está na linha de frente desde o início da pandemia. Na primeira onda, ele coordenou o hospital municipal de campanha na capital e desde maio está no comando da UTI do 5º Andar do Hospital e Pronto Socorro 28 de Agosto.

Ele contou que a carga de estresse sob os trabalhadores de saúde aumentou, assim como a ansiedade da população, interferindo na atividade profissional. “A falta do oxigênio em si tem sido bastante estressante para quem trabalha no hospital. O desespero da população é tão grande e todo mundo acha que paciente com Covid tem que ser tratado com oxigênio. Não existe tratamento. A gente trata os sintomas que a doença vai desencadear. Se existisse um tratamento não estaríamos vivenciando o que estamos vivendo hoje”, relatou.

Dantas afirmou que receber a primeira dose do imunizante é um mix de alívio e angústia pelos colegas que ainda estão na fila da vacinação. “Essa falta de organização do governo com relação à disponibilização e efetivação da vacina dos profissionais me deixa angustiado, porque a gente fica com medo de desenvolver a forma grave da doença porque, quer queira ou não, nós somos a parcela da população que é mais exposta ao vírus. A gente lida de maneira direta”, ponderou o enfermeiro.

O enfermeiro contou que foi assintomático, mas não deixou de lado os cuidados e com a nova onda, quando não está de plantão, isola-se no quarto.  “Boa parte da população atribui a culpa aos governantes, não tirando responsabilidade deles, mas a população teve boa parte da  culpa desta segunda onda nisso. Não seguiram as recomendações das autoridades de saúde”, disse.

Gratidão pela vacina

Técnica de enfermagem da UTI da rede estadual de saúde, que preferiu não se identificar, relatou à reportagem que nunca teve medo de ser contaminada e nem de receber a vacina. Ela testou positivo em abril, ficou com sequelas e disse que a rotina de trabalho é muita cansativa.

“Me senti muito agradecida a Deus pelo fato da vacina ter vindo e os profissionais da linha de frente terem preferência. Cada dia que estamos no plantão nos deparamos com pacientes em estágio grave e que não respondem. Quando estão acordando eu falo: Lute. Não desista da sua vida. Foi difícil perder familiares, mas estou na luta para ajudar outras pessoas que precisam de mim”, declarou a servidora pública que perdeu uma irmã e o sobrinho para Covid-19.

Opinião

Wilson Aires, fisioterapeuta da UTI do 28 de agosto

“Trabalhei no primeiro pico no Hospital Nilton Lins e agora estou trabalhando no 28 de Agosto e tem sido corrido, principalmente, nesta segunda onda porque houve um aumento muito brusco do número de casos e muitos pacientes estão precisando de fisioterapia. A situação do oxigênio nos preocupou muito e nos deixou incapazes de prestar uma assistência adequada. Praticamente todos os pacientes internados precisam de assistência fisioterapêutica porque desenvolvem algum comprometimento respiratório. Sempre acreditei na vacina, na ciência e na pesquisa brasileira. Eu ainda não fui infectado pelo vírus, sempre tive o maior cuidado e agora vacinado tudo isso me dá uma certa segurança de que eu posso continuar realizando o meu trabalho, ajudando as pessoas que precisam, de forma segura. E estou esperando a segunda dose ansioso. Há sim um receio, principalmente, porque a gente vem para casa e não quer infectar as pessoas que moram conosco. O cenário que a gente vive é muito preocupante porque a tendência é só piorar. Acho que a população em geral ainda não se conscientizou sobre a necessidade de ficar em casa e de usar máscara. Porque nós profissionais estamos nos doando dia a dia para tentar levar um pouco de saúde para as pessoas que estão nos hospitais, só que a cada dia vai chegando mais pacientes e a gente está ficando sobrecarregado. As pessoas precisam se conscientizar o mais rápido possível de que é preciso um isolamento social”.

Comentário

Vanda Ortega, técnica de enfermagem e ativista indígena Witota

“Ser vacinada foi um ato de resistência e de luta dos nossos povos no estado. Minha vida mudou muito desde o ano passado no sentido do enfrentamento da Covid-19 e para que fosse construído algo para garantir o atendimento dos nossos indígenas. O meu corpo como um corpo político foi extremamente importante para garantir um hospital específico para acolhimento dos parentes. Tivemos uma UBS móvel dentro do Parque das Tribos e infelizmente foi desmontada em menos de três meses. Os indígenas estão tendo que se virar e com a ajuda da população, amigos e parceiros que sempre caminharam conosco. É muita luta o tempo todo e poder cuidar dos nossos parentes amenizando um pouco toda essa problemática que cerca as nossas vidas por falta de assistência do poder público é para mim motivo de muito orgulho e alegria. Nas duas primeiras semanas de janeiro, tivemos um surto de pessoas sintomáticas. Acionamos o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e a Semsa trouxe um médico. De 56 parentes, 33 estavam com Covid-19 e três em estágio grave. Antes de iniciar a campanha nas redes sociais, eu era solicitada e ia nas casas para monitorar os parentes. Agora conseguimos montar um espaço na comunidade, para concentrar os atendimentos, que foi estruturado com redes e conseguimos doações de oxigênio, medicamentos e EPIs. A média diária de atendimentos é de 16 parentes com sintomas. Na sexta-feira foi o dia mais difícil de toda a pandemia e olha que já vivi tanta coisa. Tivemos um parente que chegou com saturação de 36. Estou bem cansada e psicologicamente abalada porque infelizmente ele veio a óbito. Estamos muito preocupados por conta desse número grande de casos aqui dentro. Tem sido dias muito difíceis. Os nossos espíritos sagrados têm cuidado de mim e me dado muita força porque o cansaço é muito presente. Mas não consigo ter desânimo e tenho me fortalecido com nossas ervas medicinais. Minha mãe faz todo dia nossos chás e recebo também da comunidade que está cuidando de mim. Isso me fortalece muito porque assumi essa responsabilidade, muito grande, de cuidar da vida do outro”.


 

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