Sábado, 06 de Junho de 2020
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Veja o cotidiano de Manacapuru, cidade com mais casos de covid-19 por habitante

Nas ruas da cidade é comum observar pessoas sem máscaras. O discurso utilizado por muitos é que não precisam se proteger por terem fé de que Deus os livrará da doença



rua_197EDF40-B569-4B23-A205-EAB9A2D0CB9B.JPG Foto: Aguilar Abecassis
26/04/2020 às 18:12

Com pouco mais de 97 mil habitantes,  Manacapuru apresenta hoje mais mortes por covid-19 dos que os estados de Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Acre. Localizado na Região Metropolitana de Manaus (RMM), a cerca de 100 quilômetros da capital, o município está em primeiro lugar no ranking de cidades com maior incidência de casos a cada 100 mil habitantes.

Até sexta-feira, eram 238 casos confirmados pelo novo coronavírus e 14 mortes em decorrência da doença.  Manacapuru também ocupa o segundo lugar na lista de óbitos por 100 mil habitantes.



A reportagem esteve no município na sexta-feira e constatou que o Hospital Geral de Manacapuru não pode atender toda a demanda causada pela pandemia. Por isso, foi montado pelo governo do Estado um hospital de campanha, situado em frente à unidade hospitalar, onde funcionava uma clínica particular que foi adaptada para o tratamento da doença.

No local, encontramos um casal de irmãos que aguardava notícias da mãe, uma mulher de 57 anos que foi internada na quarta-feira, com sintomas da Covid-19. Como o risco é de alto contágio, os irmãos não puderam ficar dentro do ambiente hospitalar. Esperavam há horas do lado de fora esperando qualquer notícia da mãe.

A preocupação dos irmãos, que não quiseram ser identificados, era de que a mãe não estivesse com a Covid-19, mas por conta da exposição, fosse contaminada. A família suspeita que seja uma pneumonia.

Sem máscara

Nas ruas da cidade, é comum observar pessoas sem máscaras. Um discurso ouvido por repetidas vezes pela equipe de reportagem que esteve no município na sexta-feira é o de pessoas alegando que não precisam se proteger por terem fé de que Deus as livrará da doença.

A atitude fervorosa, no entanto, acaba fazendo com que muitas destas pessoas não tomem o mínimo de cuidado necessário. Ao redor do porto, pessoas comiam e confraternizavam sem qualquer tipo de proteção.

Na Feira da Liberdade, um dos pontos mais conhecidos da cidade, é possível ver barracas abertas e movimentação reduzida. “Depois que aconteceu a pandemia, o nosso faturamento caiu 66%”, disse o vendedor de pão, Francisco Silva, 47.

Outro responsável pela redução do movimento é o decreto que proíbe o transporte de passageiros intermunicipal e interestadual. Gelson Cordeiro, 42, funcionário de um posto fluvial conta que o movimento reduziu de 85 a 90%.

Funerais

Salatiel Marques, 26, é funcionário de uma funerária situada nas proximidades do hospital de campanha da cidade. “Estamos tranquilos, não estamos sobrecarregados. Porém, de fato, está uma demanda além do normal”, conta.

Ele não informa em quanto aumentou a demanda da funerária, mas afirma que têm tomado todos os cuidados para com as vítimas da Covid.

A Prefeitura de Manacapuru está arcando com os gastos dos funerais ocorridos por conta da pandemia.

O prefeito Beto D'angelo (PROS) não recebeu a reportagem por também estar sob suspeita da doença. Fez o exame e aguarda a confirmação. Em vídeo,  disse que a prefeitura recomendou o recolhimento social e estabeleceu uma barreira sanitária na AM-070, controlando o acesso e fazendo a busca ativa de casos.  Informou ainda que tem buscado a identificação de novos casos da Covid-19.

Personagem: Francisco Costa, pescador

O movimento na balsa do senhor Francisco Costa, 55, conhecido na cidade como Xibita, diminuiu muito. Ele e os outros pescadores do Terminal Pesqueiro de Manacapuru têm passado por maus momentos neste período em que parte da população pratica o  isolamento social.

“Antigamente a gente vendia de 500 a 600 jaraquis por dia. Hoje, não estamos vendendo nem 200”, reclamou o pescador.

“O pessoal fica dentro de casa e dificilmente vem comprar o pescado da gente”, contou.

Francisco vende peixes neste mesmo local há 20 anos. A renda da sua família depende exclusivamente do que consegue ganhar no beiradão. “Hoje eu não consegui nem os R$ 20 para pagar o gelo que eu peguei para refrigerar o peixe”, disse.

Ele relatou que sua família tem se alimentado apenas do básico, porque “outras qualidades de comida, não tem condição de comprar”.

Blog: Rodrigo Balbi, secretário de saúde do município

“Muitas mãos estão envolvidas neste processo. Não é um processo de uma única mão, é um processo em que boa parte da gestão e staff da prefeitura estão envolvidos, por conta da necessidade de nós nos unirmos para tornar este momento doloroso e menos complicado de desenvolver ações públicas a fim de diminuir o sofrimento e a dor de quem passa por essa doença. Hoje, Manacapuru tem atendido alta complexidade sem ter capacidade operacional para isso. Dez por cento dos pacientes acometidos de Covid agravam. O pior agravamento é o da condição respiratória. Sem o suporte ventilatório esse paciente evoluirá fatalmente para o óbito. Estamos tendo muita dificuldade com regulação. Não estamos conseguindo mandar nossos pacientes para Manaus. Eu acredito que deveria ter uma retaguarda de leitos para o interior ou uma estrutura de hospital de campanha com os recursos necessários”.

Filas causam aglomeração nas agências

A grande preocupação do prefeito da cidade tem sido a aglomeração em frente à agência da Caixa Econômica Federal, na avenida Boulevard Pedro Rates de Oliveira.

No local, a prefeitura montou um esquema de segurança que abrange a Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), Guarda Municipal, Defesa Civil, Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), Polícia Militar e Instituto Municipal de Sinalização (Intrans). 

Um dos fiscais que ajudam a controlar o fluxo de pessoas dentro da agência, afirma que uma média de 2 a 3 mil pessoas passam por ali todos os dias.

A avenida teve um trecho fechado apenas para atender a este público. No chão da Boulevard Pedro Rates estão marcações que registram a distância de um metro e meio por pessoa. “Contamos com a população para que este índice da pandemia se reduza”, diz a assistente social Regiane Santana, 38. Ela e a equipe da Semas distribuíam máscaras, álcool em gel e orientação para quem estivesse na fila para o auxílio emergencial.

Repórter de A Crítica

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