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Cotidiano
ENTREVISTA

'A Amazônia voltará a ganhar espaço no Brasil', diz ex-presidente da Bemol

Um dos mais bem sucedidos empresários do Amazonas, Jaime Benchimol ressalta que a retomada do crescimento econômico do Estado passa pelo asfaltamento da BR-319 e pela redução das exigências ambientais 30/12/2018 às 17:42
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Foto: Antônio Lima
Suelen Gonçalves Manaus (AM)

Nascido em uma família tradicional de Manaus e herdeiro de uma das empresas mais bem sucedidas do Amazonas, Jaime Benchimol dedicou-se aos estudos para gerenciar os negócios familiares. Esteve na presidência das lojas Bemol por 38 anos, mesmo período que também foi presidente da Sociedade Fogás, onde continua atualmente.

O economista falou para A CRÍTICA sobre as perspectivas econômicas para o novo governo do País, alternativas à Zona Franca de Manaus (ZFM) e os valores que permeiam uma boa gestão. Confira trechos da conversa:

O que pode ser feito de imediato para a recuperação econômica?

A recuperação econômica não é um processo imediato e nem muito rápido, mas já se percebe maior confiança dos consumidores e dos investidores e empresários brasileiros. Aos poucos, o interesse estrangeiro por investir no Brasil também retornará. Acredito que o programa econômico trará mais liberdade para o empreendedor e para o consumidor com melhoria do ambiente de negócios, privatizações, redução de barreiras para os investidores, redução de tarifas e impostos de importação, concessões, investimentos em infraestrutura, redução da carga tributária, simplificações de processos, maior estabilidade jurídica, governos menores, etc.

Que caminhos o Amazonas pode seguir para voltar a crescer?

Primeiro, o prometido asfaltamento da BR-319 deverá trazer muitas oportunidades para o Estado na agricultura, pecuária, mineração, logística de grãos, transporte de cargas em geral reduzindo os custos e o tempo do transporte e nos aproximando do Brasil. Segundo, a Amazônia voltará a ganhar espaço na geopolítica brasileira com maior preocupação com o controle das fronteiras e do narcotráfico e, possivelmente, maior importância para instituições como o Comando Militar da Amazônia, a Base Aérea de Manaus, o Comando Naval, o SIPAM/SIVAM, etc. Terceiro, acredito que o novo governo terá coragem de enfrentar a excessiva legislação ambiental, que nos tirou a oportunidade de usufruir dos nossos recursos naturais, e que precisamos rever para usarmos mais e melhor o território do Estado.

A Zona Franca de Manaus ainda é um modelo econômico válido?

Todos nós que vivemos em Manaus nos beneficiamos enormemente da ZFM e não podemos abrir mão dela, pois não temos outras alternativas no curto e médio prazos para sustentar a nossa economia. O modelo, entretanto, é baseado em isenções fiscais e não está ancorado em vantagens comparativas regionais, o que o torna frágil e vulnerável. Teremos desafios em breve na medida em que a economia se abrir e as alíquotas de importações e de IPI sejam reduzidas como é provável que a nova equipe econômica o faça. Além disso, estamos ameaçados pela obsolescência tecnológica com a convergência digital para os smartphones que estão gradualmente substituindo produtos eletrônicos. Boa parte do novo valor que está sendo agregado vem dos softwares e dos Apps que não produzimos.

Quais modelos são viáveis para o Amazonas como alternativa à ZFM?

Precisamos com urgência viabilizar alternativas para a diversificação da nossa economia avançando em áreas como mineração (inclusive petróleo e gás), turismo, fruticultura, aquicultura, extração florestal, bioativos, fármacos, construção naval, escoamento e beneficiamento dos grãos do Centro-Oeste do Brasil, etc. Essas atividades não florescem atualmente, em grande parte, pelas restrições ambientais que tornam a vida do empresário que deseja investir nessas atividades um verdadeiro inferno burocrático.

Quais os maiores gargalos para a geração de emprego e renda?

Os riscos e os custos de obediência das exigências ambientais para se empreender no Amazonas são enormes e atualmente constituem obstáculos quase intransponíveis para geração de emprego e renda. Em 1960, 5% da população de Manaus trabalhava nas indústrias de beneficiamento de produtos extrativos como madeira, castanha, borracha, sorva, couros e peles, essências naturais, peixes ornamentais, etc. Não estou propondo voltarmos ao passado, mas certamente muitas dessas atividades poderão ser modernizadas e readaptadas ao mundo atual.

Como o senhor vê a inserção do gás natural na matriz energética do Amazonas?

O petróleo e o gás de Urucu e de outras regiões do Estado nos criam alternativas excelentes para produção de energia, especialmente nos municípios próximos ao gasoduto que liga Urucu a Manaus e que tem ainda capacidade ociosa de transporte de quase 50%. Creio que a nova gestão da Petrobrás saberá precificar esses produtos de modo que eles tornem viáveis o seu aproveitamento não apenas para geração de energia elétrica como também como insumo para indústria de fertilizantes. A privatização da Amazonas Energia nos dá um novo alento para o aproveitamento do gás natural em vários municípios como Codajás, Anori, Anamã, Caapiranga, Manacapuru, Novo Airão, Iranduba que estão no trajeto do gasoduto.

Como fazer para que a população local desfrute do polo de petróleo do Estado e cresça economicamente?

Já estamos desfrutando dessa exploração há muitos anos. A Petrobras é o maior contribuinte de ICMS para o Amazonas e os royalties do petróleo sustentam a economia de Coari, por exemplo. Infelizmente as dificuldades porque passa a Petrobras e a queda nos preços do petróleo mundialmente impediram que novos investimentos fossem feitos, e a produção de Urucu e da refinaria Isaac Sabbá, em Manaus, estagnaram. Se não temos a percepção de estarmos nos beneficiando dessa atividade deve ser porque os estados, de um modo geral, gastam mal e desperdiçam boa parte da arrecadação.

O que mudou na maneira de gerir nesses 40 anos?

Nas áreas que envolvem o relacionamento humano, o respeito, a integridade, a confiança, os estilos de liderança, houve pouca mudança, pois a natureza e a psicologia humana quase não mudaram. As grandes mudanças, de fato, ocorreram na tecnologia de informação que possibilitou o alcance de grande eficiência nos investimentos, na comunicação e relacionamento com os clientes e na velocidade do atendimento. Por outro lado aumentou também a competição e o poder aquisitivo do consumidor. Vivemos todos mais e em um mundo muito melhor hoje do que há 40 anos.

O senhor geriu a Bemol por 38 anos e segue na presidência da Fogás. A que atribui a estabilidade das empresas?

Buscamos criar marcas fortes e íntegras que conquistassem a confiança dos nossos fornecedores, colaboradores, revendedores e especialmente dos nossos clientes ao longo dos anos. Nossa gestão foi sempre feita com o olhar no longo prazo, de forma conservadora, porém fazendo sempre investimentos em pessoas, em equipamentos e em processos atuais para buscar manter a competitividade no mercado e as empresas modernas e eficientes.

O senhor costuma falar da importância dos valores. Há valores comuns a serem seguidos?

Os valores de uma empresa são uma extensão dos valores de seus proprietários e gestores. Se forem bons e verdadeiros podem se tornar um diferencial competitivo importante e difícil de ser copiado. Penso que a integridade e a propensão para mudar devem estar sempre presentes quando se pensa em criar empresas longevas.

Que conselho pode dar para quem está começando a carreira e busca o sucesso?

Ter curiosidade, gostar da leitura, trabalhar duro, planejar, agir com ética, mostrar respeito, saber perguntar, ser humilde, ter um olhar aberto para o mundo e pensar em longo prazo.

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