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‘A cor não é a que está na pele, mas sim na raiz’, diz ativista das mulheres negras

A CRÍTICA entrevista professora Francy Júnior, que fala sobre os avanços e recuos na luta pela igualdade de oportunidades para todos 21/11/2015 às 13:48
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Professora Francy Júnior fala dos avanços e recuos na luta pela igualdade de oportunidades para todos
Oswaldo Neto Manaus (AM)

De 2004 para 2014, o número de pessoas que se autodeclaram “pretos” cresceu 2,1 %. Os dados estão representados na Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios), de 2013. No entanto, apesar do reconhecimento, o racismo ainda é latente por toda parte: na rua, nas redes sociais e no local de trabalho. Nesse domingo, quem opina sobre o assunto é a ativista, professora e articuladora do Movimento de Mulheres Negras Floresta  Dandara, Francy Júnior.     

Existe diferença entre racismo, preconceito e discriminação racial? 

Sim, existe. A maioria das pessoas pensa que preconceito também é racismo. O racismo vem pelo pigmento da pele. A discriminação vem de raça, pode ser com indígenas, pode ser com minorias como ciganos e negros. O preconceito pode estar relacionado com os gordos, os magros, o dentuço. Agora, o racismo vem muito centralizado na questão da cor da pele e ele é de classe. O negro pode ser rico como for, mas se tem o pigmento da pele mais escura ele é discriminado. Não interessa qual seja a classe social dele. O racismo está muito vivo dentro das pessoas, apesar de nós não nascermos racistas, a sociedade faz com que nós nos tornemos racistas. 

Como você avalia as políticas públicas do Amazonas e do Brasil no que diz respeito aos negros?

Nós tivemos alguns avanços. Um deles eu posso dizer que é a Lei 10.639, que é a lei que obriga as escolas públicas a ter história e cultura da África. Em alguns estados, nós percebemos que avançou e alavancou. Aqui no Amazonas, nós temos sinais e sabemos que isso não é de uma hora para outra, pois depende das pessoas que estão à frente das escolas, à frente do conteúdo de História, Geografia e Sociologia, começarem a despertar o interesse na comunidade escolar. Para nós, das Dandaras, pensamos que isso pode durar até 20 anos, para nós tentarmos mudar o pensar da nossa sociedade. Esse foi um dos maiores avanços. O outro é a questão do reconhecimento da dívida histórica com os negros e negras.

Nas escolas, essa lei é cumprida?

Na prática estamos no caminho, mas, para isso acontecer, os nossos educadores e educadoras teriam que passar por um processo de formação. Por exemplo, a minha pós-graduação é em cima de história e cultura da África, porém, muitos colegas meus não tiveram essa oportunidade. Posso citar aqui o projeto “A Cor da Cultura”, da Semed, que fomenta curso para os professores do município. O Estado também teve alguns sinais e deveria ter mais. Nós esperamos que isso aconteça, de se ter muito mais.

Qual a importância desse ensinamento desde o ensino infantil?

Nos nossos livros infantis que trabalhamos com as crianças, essas crianças não se enxergam. Quando nós chegamos no ensino fundamental, as crianças negras não se enxergam. No ensino médio é bem pior. Então uma das coisas que nós poderíamos começar como acadêmicos de universidade e pessoas que estudam, pesquisam, é fazer com que nossos livros didáticos apresentassem a cor do negro e da negra nos livros. Hoje a população negra nunca se enxerga. 

Como a senhora percebeu isso?

No meu TCC eu fui a três escolas, pois queria identificar o racismo dentro da comunidade escolar. Levei bonecas, brinquedos, fotografias e espalhei para que crianças e jovens escolhessem. Sempre ficava a boneca preta. As fotos de artistas, desde Djavan, Janaína Oliveira, Pelé, sempre ficavam no chão. Por mais que sejam retratadas como poderosos, sempre ficavam no chão. Mas por quê? Porque não é apresentado que esses negros, além de serem famosos, são pessoas como qualquer outro famoso com o pigmento da pele branca? A cor não é a que está no pigmento da pele, mas sim na raiz. A raiz, a cultura histórica é mais importante. É essa raiz que devemos preservar e fomentar, para que no futuro outras crianças se reconheçam. 

As redes sociais têm um papel muito importante na difusão de informações, por outro lado, vemos que existem muitos casos de racismo nelas. Como você avalia essa “gangorra” de ideias?

Eu penso que atores e atrizes que estão num certo patamar de visibilidade devem fomentar mais isso. Eu ouvi apenas uma atriz citando a Marcha das Mulheres Negras em Brasília. Nós, dos movimentos sociais, devemos fazer nosso papel com mais força, fazer com que as comunidades e pequenos grupos das periferias comecem a enxergar o seu povo negro lá. A mídia deve fomentar mais, os jornais e televisões. Dentro da mídia também há um racismo. Tanto é que as pessoas negras que são vítimas de racismo, pouco destaque há na mídia. 

No Amazonas, muitas pessoas têm vergonha da origem indígena. Isso é uma forma de discriminação racial?

Isso também é! Quando eu era criança, eu não via um menino ou menina dizendo ‘eu sou indígena’. A gente não percebia meninos e meninas negras dizendo ‘eu sou negro’. Por isso é extremamente importante que as políticas públicas sejam efetivadas, para que esses meninos e meninas se reconheçam. Quando os indígenas começaram a se organizar, isso na década de 80, onde indígenas saíram da academia para escrever e lançar livros, já foi se tornando importante, ganhando visibilidade, como nós negros. Nós temos um calhamaço de pessoas importantíssimas na academia que fomentam, trabalham e fazem com que outros negros e negras partam para esse lado.

O ativismo negro no Brasil teve um salto considerável nos últimos anos. No entanto, o número de mortes de negros continua aumentando, segundo dados do Mapa da Violência de 2012. O que falta para esse ativismo chegar no poder?

Nós temos quantos deputados estaduais no Amazonas? 24. Quantos negros nós temos lá? Quantas negras? Mulher só temos uma e ela não se identifica como negra. Vereadores? Quantos negros? Acho que um ou dois podem ser considerados, isso se ele se identifica como negro. O que está faltando pra nós é ocupar esses espaços também, ter força. Por mais que nós tenhamos um ativismo político, a maioria dos negros e negras não tem dinheiro para enfrentar rios de dinheiro que muitos empresários jogam em campanhas de pessoas com pigmento da pele claro.

Sobre a Lei de Cotas, ela possui mais pontos positivos ou negativos?

Na minha avaliação, são pontos positivos. O que falta é fazer esses negros e negras perceberem que não serão inferiores se entrarem numa universidade através das cotas. Sabe por quê? Quando ele não acessa as cotas, outros podem querer acessar. E aí aquilo que nós temos de avanço pode voltar ou acabar. Isso pra mim é importante. Não será para sempre e nem deve ser. O que nós temos que caminhar é para uma educação igualitária, onde o ensino de uma escola pública no interior dos barrancos ensine a mesma coisa que aqui na capital. É fazer com que esse currículo trate as pessoas com igualdade, que esses professores tenham qualificação e eles comecem a tratar a matriz curricular com mais vontade e ânimo.

O que você espera para os próximos anos? 

Eu espero que meus netos não sejam olhados nem analisados pelo pigmento da pele nesse olhar de qualificação, e sim pela sua intelectualidade, solidariedade, bondade e pelo ser humano. O que eu espero para o futuro é um Brasil sem racismo, sem sexismo, sem homofobia e contra a intolerância religiosa.

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