Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ENTREVISTA

'A escola em hipótese alguma deve ser omissa', diz educadora Cleo Fante

Especialista em bullying relata os prejuízos causados às vítimas e o papel da escola, da família e da sociedade no combate a essa prática



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Educadora Cleo Fante. Foto: Divulgação
09/04/2018 às 16:21

O Brasil promoveu no último sábado (7), o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. A data, instituída pela lei de nº 13.277, de 29 de abril de 2016, marca o aniversário da tragédia do Realengo, quando Wellington Menezes de Oliveira, 24, ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada naquele bairro do Rio de Janeiro, invadiu uma sala de aula e atirou contra as crianças, matando 12 delas e se suicidando em seguida. O caso ocorreu em 2011. De acordo com relatos de parentes e mensagens deixadas pelo atirador, ele foi vítima de assédios violentos quando aluno da instituição, o que teria motivado o crime. 

O bullying, mesmo em suas manifestações mais amenas, tem sido apontado como o mais grave problema existente nas escolas em todo o mundo. Para esclarecer o que é o fenômeno, sua gravidade e possíveis desdobramentos e impactos na vida de crianças e adolescentes, A CRÍTICA entrevistou a educadora Cleo Fante, considerada a maior especialista sobre bullying e cyberbullying no Brasil. Ela estará em Manaus, nesta terça e quarta-feira, a convite das Escolas Idaam para palestrar sobre o tema que se amplia com o avanço da tecnologia. Fante defende que a informação é a melhor prevenção. Confira:

Afinal, qual o conceito de bullying?

O termo bullying atualmente vem sendo empregado em muitos casos, desde mordidas entre crianças pequenas a brincadeiras ou agressões pontuais. Isso se deve à falta de conhecimento, que tem colaborado para a generalização e, consequentemente, a banalização do fenômeno. Universalmente, o bullying é conceituado como sendo uma forma de violência entre pares, sendo mais comum sua identificação em ambientes escolares e virtuais. Na prática ocorre quando um estudante ou vários deles, de forma intencional, repetitiva e gratuita, coloca sob tensão e dominação outro(s), em desvantagem de força ou poder, causando danos e sofrimentos. Portanto, é uma forma de violência complexa que requer entendimento e ações emergenciais para a sua contenção.

Quais os tipos de bullying?

O bullying pode ser tipificado em: físico (bater, chutar, beliscar), verbal (xingar, ofender, apelidar), psicológico (amedrontar, ameaçar, perseguir), moral (caluniar, injuriar, espalhar boatos maldosos), material (furtar, roubar, estragar pertences), social (ignorar, isolar, excluir), sexual (insinuar, assediar, abusar) e virtual (divulgar imagens, enviar mensagens ameaçadoras, criar grupos para assediar).

Sobre o bullying virtual ou cyberbullying, como acontece e por quê é considerado o mais cruel?

Cyberbullying é a forma virtual de se praticar bullying. O que difere o bullying do cyberbullying é o ambiente e os recursos utilizados pelos praticantes, sendo mais comum o uso de celulares e câmeras fotográficas ligadas à Internet, aplicativos e redes sociais. O cyberbullying pode ser considerado ainda mais cruel porque enquanto o bullying na escola ocorre em um espaço privado de convivência, o cyberbullying ocorre em um espaço público, o que aumenta exponencialmente a exposição e o sofrimento dos que são alvos. 

Como lidar com o cyberbullying?

A prevenção sempre é o principal meio para se evitar qualquer problema. Porém, quando ocorre só resta a intervenção por parte da família e da escola e, se necessário, outras instituições. Por isso, crianças e adolescentes devem ser informados, alertados, orientados constantemente, tanto no sentido da utilização ética e responsável dos recursos tecnológicos quanto nos procedimentos que devem adotar, ao se depararem com imagens, conteúdos inadequados ou impróprios ou com a exposição vexatória ou ameaçadoras. Como a grande maioria dos casos de cyberbullying ocorre fora do ambiente escolar é importante que os pais ou responsáveis fiquem atentos e saibam identificar sinais que evidenciam possíveis envolvimentos e diante de suspeitas ou confirmações, procurar o apoio da escola ou de especialistas no assunto. 

Que sinais são esses?

Os mais comuns são mudanças de comportamentos e de rotinas. Muitos podem demonstrar preocupação, nervosismo, excitação, ansiedade, raiva, choro, medo, agressividade ao usarem tais recursos. Outros deixam de portar ou fazer uso do computador ou do celular ou se recusam a atender chamadas telefônicas. Podem se esquivar a comentar assuntos da escola ou de seus colegas, pedem para mudar de escola ou apresentam queixas para faltar às aulas. Podem também surgir alguns sintomas no momento de irem à escola, como dores de cabeça e de estômago, febre, ânsia ou vômito, tremor, suor excessivo, tonturas, febres, dentre outros. Portanto, lidar com o cyberbullying começa pela observação e constatação do fato, seja por parte da família ou da escola, desenvolvimento de ações conjuntas e encaminhamentos, que podem ser no campo pedagógico, psicológico, médico, policial, jurídico, obviamente, dependendo da gravidade do caso.

O que leva o autor a praticar o bullying?

É preciso compreender que as práticas de bullying são motivadas por diversos fatores. No entanto, é comum encontrar como autores crianças provenientes de lares desestruturados, violentos, permissivos, intolerantes, negligentes. Há que se pensar que a criança tem no adulto um modelo de identificação e suas atitudes são copiadas e reproduzidas em suas relações sociais. Prefiro dizer que há um conjunto de fatores que propiciam o bullying, dentre eles, a influência familiar, escolar, midiática, cultural, as condições socioeconômicas, a dificuldade em lidar com sentimentos e emoções etc.

O espectador também participa do ato?

O espectador tem um papel decisivo na interrupção ou na continuidade do bullying. Muitos dos estudantes que assistem não gostam do que veem, não participam, tentam ou conseguem interromper. No entanto, outros incentivam, aplaudem, participam dos abusos. Outros, nada fazem, por omissão ou por não saberem como agir ou em quem confiar, no sentido de denunciar o bullying. Por isso, a escola deve envolver a todos no processo preventivo, empoderando os estudantes para que saibam agir, sem se colocarem em situação de risco ou evidência.

O que diz a nossa Legislação sobre os agressores?

Em nosso País não existe, ainda, legislação específica que criminalize o bullying. No entanto, as sanções aplicadas, quando comprovados atos ilícitos ou infracionais, serão de acordo com o Estatuto da Criança e Adolescente. As práticas de bullying podem acarretar aos autores e/ou seus responsáveis legais punições e/ou sanções administrativas, trabalhistas, civis ou criminais, dependendo do grau e extensão dos danos causados às vítimas. De acordo com a legislação brasileira aquele que causar dano a outrem, por ato ilícito, fica obrigado a repará-lo. Portanto, as práticas bullying são passíveis de punição de acordo com a Constituição Federal, Código Civil, Código Penal ou Código do Consumidor, entre outras leis.

Como identificar o alvo de bullying?

Atualmente, qualquer estudante pode se tornar alvo de bullying, desde os mais “estranhos” aos “bonitos e inteligentes”, especialmente em ambientes virtuais. No entanto, existem alguns que parecem atrair para si o assédio, em decorrência de sua fragilidade física ou emocional, da dificuldade de agir e reagir, de denunciar o que acontece. Para identificar é preciso que os adultos observem as interações sociais, as mudanças repentinas de comportamento e de resultado acadêmico. Geralmente, os agressores elegem como alvos, meninos e meninas que não oferecem resistência frente aos ataques, como os extremamente tímidos, introvertidos, introspectivos, inseguros. 

Quais as consequências para o aluno que é alvo?

Tudo depende da gravidade e durabilidade dos abusos, além da capacidade de autossuperação. As consequências vão desde mágoa, tristeza, raiva a problemas de aprendizagem e prejuízos emocionais. Queda da autoestima, da resistência imunológica, dores generalizadas, tensão, transtornos de ansiedade, depressivos, compulsivos, automutilação, ideias suicidas, cometimento de suicídio, dentre outros.

O que fazer em sala de aula quando se identifica um caso?

O professor, enquanto autoridade em sala de aula, não deve permitir situações de intolerância, desrespeito, racismo ou qualquer outra forma de violência em suas aulas. Em relação ao bullying, ao identificar ou suspeitar deve interromper energicamente os ataques. Em seguida deve atuar como mediador, tratando a questão individualmente. Quando necessário, fazer os encaminhamentos e acompanhar os procedimentos pedagógicos adotados. Deve, ainda, tratar o tema coletivamente, com o cuidado de não expor os envolvidos, promover o diálogo, a conscientização, o desenvolvimento de estratégias preventivas. É imprescindível que se tenha o registro do caso, os procedimentos adotados e o acompanhamento ao longo do tempo, além da avaliação de resultados.

Qual o papel da família nesse enfrentamento?

O papel da família é fundamental, afinal, nenhuma criança nasce praticando o bullying. É durante o processo de desenvolvimento que aprende a conviver com o outro, respeitar as diferenças. Penso ser necessário que a família avalie quais são os modelos e a educação que tem oferecido, se pautados em valores e bons exemplos ou em autoritarismo, permissividade, superproteção, ausência de limites? Penso ser necessário, ainda, que a família avalie qual o grau de comprometimento e participação na vida escolar dos filhos e que tipo de parceria tem estabelecido com a escola. Afinal, é dever da família criar filhos educados, respeitosos, não violentos e a escola é parceira nesse processo. 

Na questão específica do bullying, o que os pais devem saber?

Primeiramente, que todos os atos praticados por seus filhos menores são de sua inteira responsabilidade. Portanto, ao desconfiar ou confirmar o envolvimento é preciso agir imediatamente. Nunca responsabilizar a criança pela vitimização e nem incentivar o revide. Por outro lado, nunca usar a violência ou apoiar a ação do praticante. Ajudem-os a encontrar soluções ou as propõem. Procurem ajuda profissional quando perceberem gravidade. Comuniquem a escola imediatamente e exijam que tome providências. Em caso de omissão procurem o Conselho Tutelar. Em casos graves, como lesão corporal, ameaça, perseguição, a polícia deverá ser acionada.

E qual o papel da escola no combate ao bullying?

A escola em hipótese alguma deve ser omissa ou negligente, pois pode ser responsabilizada legalmente. A gestão escolar deve convocar toda comunidade escolar – pais, alunos, profissionais - para um amplo debate sobre o tema. É preciso criar regras claras contra o bullying no Regimento Interno; identificar as possíveis causas e desenvolver estratégias de enfrentamento; oferecer alternativas para a melhoria da relação intrapessoal e interpessoal; criar canais de auxílio e denúncia. Deve, sobretudo, atender à Lei 13.185 de 2015, que estabelece o Programa Nacional de Combate ao Bullying, atribuindo dever às escolas no desenvolvimento de programas, de acordo com os objetivos nela contidos.

Avançamos ou retrocedemos nos últimos anos sobre o tema e seu enfrentamento?

Podemos dizer que avançamos nesses 18 anos de estudos sobre o bullying no Brasil. Demos visibilidade a um assunto que era praticamente desconhecido, apesar de antigo. Os estudos avançaram, basta ver a quantidade de publicações no mercado.  A sociedade está mais consciente, as famílias e escolas mais atentas e atuantes. Inúmeras legislações foram criadas, em âmbitos municipais, estaduais e federal. No entanto, a maioria dessas leis ainda não saíram do papel, por falta de interesse e descontinuidade de muitos projetos. A formação profissional, o estabelecimento de parcerias, as ações interdisciplinares, transdisciplinares e intersetoriais, ainda são insipientes para enfrentar o problema, que é complexo e multifatorial. Temos muito a avançar.

Quais os desafios para combater o problema?

Os desafios são grandes, sendo necessário inúmeras mudanças, por exemplo,na visão de alguns veículos de comunicação, que divulgam de forma precipitada e sensacionalista os casos (que nem sempre é bullying) e a dor humana; na rapidez com que muitos profissionais se arriscam a palpitar naquilo que desconhecem ou não tem informações suficientes; no olhar da sociedade quanto ao problema, que é grave e emergencial; na forma de compreensão e condução do problema por parte das escolas; no modo que muitas famílias têm educado seus filhos e influenciado de forma negativa na formação do caráter; no oportunismo e insensatez de muitos políticos que se aproveitam de tragédias para debater ou criar instrumentos mentirosos, incompletos e descontínuos no tratamento do problema; na falta de vontade política no desenvolvimento de políticas públicas e investimentos em prevenção, garantindo que crianças e jovens aprendam, convivam e se desenvolvam em um ambiente escolar e virtual saudáveis.

O que dizem os estudos sobre a prática do bullying no Brasil?

Infelizmente, as pesquisas específicas nesse assunto são raras em nosso país. As mais recentes são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – a Pesquisa Nacional da Saúde Escolar (Pense) –, que mostra que um em cada três estudantes brasileiros é alvo de bullying. E, um em cada cinco, é o autor. Os dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mostra que um em cada dez estudantes é alvo frequente de bullying nas escolas.

Perfil

Nome: Cleo Fante 
Estudos: Pedagoga, historiadora e doutora em Ciências da Educação
Experiência: Há 18 anos se dedica ao tema bullying e cultura de paz. Escritora com publicações no Brasil e Colômbia. Palestrante. Consultora em Educação.


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