Segunda-feira, 15 de Julho de 2019
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'A esperança que vem das ruas quer mudanças', diz senador chamado de Harry Potter

Mais jovem senador e um dos mais influentes Randolfe Rodrigues  pede que as jornadas de junho sejam repetidas em agosto a fim de que as mudanças reivindicadas nas ruas sejam realizadas pelos poderes



1.jpg Randolfe Rodrigues tem, no Senado, o apelido de Harry Potter
28/07/2013 às 15:05

No primeiro ano de Senado, em 2011, a cara de menino rendeu ao senador do Psol do Amapá, Randolfe Rodrigues, o apelido de Harry Potter.

Estreante e senador mais novo da Casa, Randolfe, à época, optava por respostas mais diplomáticas, quando provocado a apontar quem eram os Voldemorts (inimigo de Harry na saga) do Senado.

Após dois anos e meio no Senado, Randolfe Rodrigues conquistou espaço, a atenção dos decanos da Casa e coragem para afirmar que o Congresso Nacional vive tempos de vilania.

“Temos tido tempos de Voldemort. Porque acho que os Harry Portters estavam nas ruas, em junho”, disse Randolfe Rodrigues, garantindo que estará à disposição do Psol para enfrentar Dilma Rousseff (PT) nas eleições de 2014 (Leia matéria na página A7).

Na entrevista que concedeu a A CRÍTICA, na passagem por Manaus na quinta-feira, o senador convoca as pessoas a voltarem para as ruas em agosto. E avisa:  “O grito ainda está muito distante dos ouvidos do Executivo, do Legislativo, e diria mais: do Judiciário nacional”. A seguir trechos da entrevista.

Como o senhor avalia a reação de senadores e deputados federais às manifestações das ruas?

Acho que o Congresso tentou reagir, mas a reação foi tímida. Por exemplo, nós tentamos acabar com a figura do suplente, só que, no Senado, fomos derrotados justamente pelos votos dos suplentes. Pagamos um mico. E, no dia seguinte, tivemos que fazer uma emenda constitucional meia-sola. Ao que pesem alguns esforços, boa parte da classe política brasileira ainda não está sensível às vozes das ruas. É necessário as vozes das ruas continuarem gritando. Não podem se acomodar. É necessário mais grito. O grito ainda está muito distante dos ouvidos do Executivo, do Legislativo, e diria mais: do Judiciário nacional. Citando novamente Ulisses Guimarães, o povo brasileiro ainda vai descobrir que existem outras rampas a serem invadidas na Praça dos Três Poderes, que não somente as rampas do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional.

O senhor acha que o Congresso vai acabar com o voto secreto?

Hoje não passa. Se as jornadas de junho não voltarem, não acaba.

A quem interessa as votações secretas?

A rigor, em uma democracia, não interessa para nada em nenhuma instância. Em uma ditadura sim, mas em uma democracia, o parlamentar não tem que prestar conta ao Executivo, vota como se quer. A proposta de Paulo Paim (senador do PT-RS) é a melhor. Acaba com voto secreto para tudo. Mas não tem voto para ser aprovada.

Por quê?

Porque não há vontade. Há oposição. Senadores dizem: “Ficaremos desprotegidos”. Reitero. Vão às ruas. Repitam as manifestações de junho em agosto. Senão o voto secreto continuará.

Qual proposta de reforma política o Psol defende?

Primeiro, tem que acabar com o fim do financiamento privado de campanha. Para combater a corrupção, tem que acabar com a causa. E a causa é que a maioria dos políticos tem dono: os donos de empreiteiras que financiam as campanhas. Ocorre que o mandato não é do representado que votou no representante. O mandato fica tutelado pelo empresário que deu dinheiro para o representante. O segundo é a possibilidade do povo, se quiser, após dois anos, revogar o mandato do eleito. Terceiro: aprovamos no Senado recentemente, como uma conquista das ruas: a redução das exigências do número de assinaturas para iniciativa popular de leis. Esse é um mecanismo que deveria ser melhor utilizado pela população. Reforma política para valer é isto. Tem que mudar as estruturas.

O fim do financiamento privado de campanha não estimularia o caixa 2?


Se nós criminalizarmos o financiamento privado, não. Temos que deixar bem claro que são incompatíveis os interesses de empresas com a política. Por uma razão básica: o interesse público é inconciliável com o interesse privado.

Os partidos políticos estão em xeque?

Não só os partidos, como o sistema político está em xeque.

O que levou a essa situação de tanto descrédito?

Porque o sistema está corrompido. Lamentavelmente, tivemos a derrocada, a conversão de um partido que era o grande desaguadouro da esperança do povo brasileiro, que era o PT. O partido fez um giro político. Se converteu de partido vivo, político, militante, em um partido acomodado à institucionalidade. Estamos conhecendo uma geração que foi fruto da decepção dessa conversão. É a primeira geração que vai às ruas após o PT no poder.

Um dos gritos das ruas era que o povo unido não precisa de partido. Preocupa ao senhor ouvir isso?

Eu me identifico com outros gritos, não com esse. Eu me identifico com outros gritos, como, “quero saúde e educação no padrão FIFA” e “quero transporte público de qualidade”. Com esses eu me identifico. Quando vejo uma geração de garotos da idade do meu filho na rua pedindo educação de qualidade, lá está a bandeira do meu partido. Quando vejo uma geração pedido o fim da máfia do transporte coletivo, na frente da Câmara de vereadores de Manaus pedindo passe livre, luta da minha geração, lá está a bandeira da esquerda, bandeiras com as quais me identifico.

E o que os partidos têm que fazer para mudar esse quadro?

Não tenho preocupações com os partidos. Eu me inspiro na máxima do Lenin (líder do Partido Comunista - 1870-1924) palavras somente convencem, exemplos arrastam. Não adianta fazer discursos e não dar exemplos. Não adianta propor pactos à nação, se não der exemplo, atitudes práticas. A esperança que vem das ruas quer mudanças de comportamento.

Que tipo de relação o senhor tem com o senador José Sarney (PMDB-AP)?

Eu o respeito como um senador do meu Estado. Mas ele tem uma posição política, e eu tenho outra antagônica. Ele é de um lado eu sou de outro. Eu acho que ele poderia dar uma contribuição enorme para a Amazônia, pelo poder político que o senador tem em Brasília, que não é pouco.

Como foi disputar a presidência do Senado com o senador Sarney em 2011?

É o Gramsci que diz que o homem é senhor de sua história. Cumpri num momento determinado o papel que me cabia ali. Não poderia me conformar com a unanimidade ali formada. Aquela unanimidade não refletia a contestação que existia na sociedade. Não tinha nenhuma aspiração a derrotá-lo. Apresentei um programa para dizer que o mundo real, fora daqueles tapetes azuis (do Senado), não dialogava com os acertos, acordos e conchavos firmados ali.

Durante a eleição, o senhor ganhou o apelido de Harry Potter. E a imprensa lhe perguntava quem era o Voldemort (inimigo de Harry na saga). Hoje, tem mais Harry Potter ou Voldemort no Senado?

Temos tido tempos de Voldemort. Porque acho que os Harry Portters estavam nas ruas, em junho (numa referência às grandes manifestações que ocorreram nas cidades brasileiras). Acho que a verdadeira escola de Hogwarts (escola de Harry) estava nas ruas em junho. Espero que voltem em agosto.

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