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‘A força de uma greve é o prejuízo que ela traz’, diz Márcia Perales

Reitora da Universidade Federal do Amazonas avalia o momento atual vivido pela instituição, que passa pela 19ª greve de sua história, afetando a vida de seus milhares de alunos e professores    03/10/2015 às 11:46
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Márcia Perales está no segundo mandato como reitora da universidade
Saadya Jezine Manaus (AM)

Reitora pela segunda vez na Universidade Federal do Amazonas (reeleita), Márcia Perales enfrenta mais uma greve na instituição. Ela iniciou sua carreira na universidade como discente em Serviço Social. Fez mestrado na Ufam e doutorado na USP. Ela Fala dos gargalos da sua administração e do desafio de gerenciar a universidade em um período considerado de crise financeira em meio a uma greve que divide a instituição.

Até que ponto decisões judiciais que interferem em questões administrativas (internas) da Universidade, como a que impede o Consuni de deliberar sobre calendário acadêmico, ferem a autonomia universitária?

Quando nós recebemos uma sentença judicial que impede um conselho de tomar uma decisão, eu acredito que isso prejudica a universidade na medida em que esse conselho precisa ter responsabilidade suficiente para tomar medidas levando em consideração as leis que existem e que são vigentes no País e as legislações que existem na universidade. Nesse sentido, eu acho que nenhum conselho deve ser proibido de tomar alguma decisão, mas ele deve tomar levando em consideração que estamos num estado democrático e de direito, e a legislação vigente tem que ser respeitada.

Qual sua opinião em relação aos investimentos mistos (públicos/privados) ou privatização na Universidades?

Eu defendo com toda veemência que a Universidade se mantenha pública. Agora, defendo também as parecerias com as instituições privadas, desde que a gente preserve aquilo que é fundamental que são os nossos princípios. Nós temos várias parcerias com instituições privadas, e para que elas possam acontecer, tem um trâmite institucional, passam por vários setores, são analisadas, são submetidas ao conselho superior da instituição que diz estar de acordo ou não. Há uma anuência, uma autorização e isso tem acontecido sem nenhum problema.

Por que motivos obras como as da Casa do Estudante e da Fábrica de Medicamentos foram paralisadas?

Nós não temos hoje nenhuma obra parada por falta de pagamento. A que está parada é a Casa do Estudante. A empresa que ganhou a licitação e estava fazendo a obra faliu e nós temos que fazer a rescisão contratual, tudo aquilo que está previsto na lei, tomar todas as providências e fazer uma nova licitação para verificar se tem alguma empresa que vai fazer a complementação da obra que está 68% construída. As medidas legais todas serão tomadas. Mas de nenhuma maneira foi por falta de pagamento. Com relação à Casa do Estudante, o processo judicial ainda está na procuradoria jurídica que ainda vai fazer o destrave desse contrato, que multa deve ser aplicada ou não ou que valor ainda temos que pagar à empresa para fazer esse destrato. Somente quando isso for finalizado é que poderemos fazer um novo processo de licitação.

E o HUGV?

O HUGV está com um pouco de atraso por conta da complexidade da obra, que consiste nos padrões que precisam ser seguidos por ser um hospital, a climatização, os equipamentos que muitos são de fora. São R$ 90 milhões de recursos envolvidos e acreditamos que a obra se encerrará inicio de 2016. Com relação ao centro de produção de medicamentos (CEPRAM), quando chegamos na gestão, ele já tinha sido construído, mas numa época em que se podia contratar pessoas de outras fundações para tocar uma fábrica. Depois da lei de 2008, que alterou completamente essa relação das universidades com fundações de apoio, temos vários problemas. O prédio foi construído mas não foi finalizado. Mas o aspecto mais importante é que se depende primeiro da liberação do Ministério da Saúde para que ele autorize a produção de medicamentos que ele mesmo irá comprar.

Qual é a situação atual?

Hoje a universidade não tem pessoas para contratar para trabalhar numa fábrica. O que ela pode fazer é encontrar parcerias para que possa produzir esses medicamentos e que o SUS garanta a compra. Mas até o momento, não chegou a se produzir nada. A gente vem tentando negociação com diversas empresas, mas é um processo difícil. Precisamos da autorização do MEC para produzir medicamentos, dando a garantia que seriam rentáveis para as empresas que quisessem investir e por outro lado, o SUS para a aquisição desses medicamentos.

Essa é a primeira vez que vimos a Ufam rachada e com calendários paralelos (fruto de decisão judicial que considerou legítima tanto a greve quanto a manutenção das aulas). Como a senhora avalia esse cenário?

É um cenário previsível dentro de uma instituição que tem grupos diferentes. Essa é a 19º greve da universidade e em todas as outras greves não houve 100% de aprovação de todos os professores. Isso foi, realmente, a primeira vez que ocorreu e com esse quantitativo e da forma como foi feito. Embora a lei de greve não seja direcionada ao servidor público, mas é a que é adotada pela iniciativa privada, está colocada claramente que é direito e legítimo fazer a greve, e é direito e legítimo não fazer, não aderir. Na Ufam, nós fazemos exatamente esses dois processos, nesse confronto entre os dois grupos. A posição da administração entende essas duas maneiras de pensar.

Tendo em vista que a senhora entrou na Universidade com 20 anos e participou de algumas greves como discente, docente e agora como reitora, qual a principal diferença que a senhora encontrou ao longo desse tempo?

Nessa greve, essa divisão, com a força que veio, com a formalização, foi uma coisa nova que faz com que cada um de nós tem que repensar estratégias. Esse quadro novo que estamos vivendo no País, na instituição, isso é bem diferente das outras greves que presenciei.  Eu nunca tinha passado por uma situação igual a essa.

Com relação aos prejuízos da atual greve, já foram calculados para os alunos de Pós-Graduação, Iniciação Científica e Extensão?

O que nós sabemos é que alguns cursos de pós-graduação pararam, outros não. A Capes não leva em consideração se parou ou não. Isso vai ter que ser administrado. As graduações e entradas de novos alunos serão postergadas. Fisioterapia e Medicina que têm duas entradas ao ano – março e agosto – não entrará agora porque dependem de unidades que ainda estão em greve.

Nós teremos as conseqüências de um movimento de greve. E nosso trabalho também deve ser tomar as providencias para minimizar isso. A força de uma greve felizmente ou infelizmente, é o prejuízo que ela traz. É uma forma de pressão pra negociação é o prejuízo. Então, eles estão postos e cabe à administração superior, construir os caminhos para minimizá-los, e isso que estamos tentando fazer.

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