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Cotidiano
ENTREVISTA

‘A iniciativa agora é implementar investimentos’, diz presidente do Inmetro

À frente do Inmetro por um ano e cinco meses, Carlos Augusto de Azevedo, detalha o balanço de sua gestão, os projetos para 2018 e explica a parceria com o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) 12/12/2017 às 17:08
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Carlos Augusto de Azevedo. Foto: Reprodução/Internet
Rebeca Mota Manaus (AM)

Na última semana, o presidente do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), Carlos Augusto de Azevedo, esteve em Manaus para acompanhar as obras da Unidade Básica Fluvial de Fiscalização e Pesquisa Científica que visa realizar análises da fauna e flora, água e madeira.

Com um ano e cinco meses no comando, o presidente destacou o balanço atual de sua gestão, as perspectivas e projetos para 2018, além de explicar como é feita a parceria com o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA). Confira a entrevista a seguir!

Nesse tempo que o senhor está na presidência do Inmetro, que balanço o senhor faz sobre a situação atual do instituto?

Quando eu assumi o Instituto nós estávamos com muitos problemas internos e externos. Eram problemas orçamentários graves. E a partir do nosso entendimento com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), Marcos Pereira e o secretário executivo Marco Jorge, nós fizemos um trabalho muito bom junto ao Ministério de Planejamento e da Fazenda. Nós fizemos a recuperação orçamentária e financeira do Inmetro. Um trabalho capitaneado por nosso ministro junto aos outros ministérios para que o Inmetro recuperasse sua capacidade de investimento e financeira.

Há mudanças ou medidas previstas para 2018? Quais?

O que existe é que vamos fazer agora mais investimentos. Já realizamos alguns no ano passado. Primeiro, regularizamos os problemas agudos e emergenciais. Também entregamos o primeiro barco da unidade fluvial. Então, a iniciativa agora é implementar investimentos, como nesse ano que foi o barco de fiscalização e de pesquisa científica. O segundo barco será entregue para o Amazonas e  outro para o Pará.

Qual o setor que ainda tem dificuldade em alcançar bons resultados no controle de qualidade?

A questão da qualidade é o seguinte: todos os setores têm a necessidade, porque isso passa pela a capacitação das pessoas. Então nós temos que capacitar os nossos empresários, principalmente o pequeno empresário. As grandes indústrias têm dinheiro suficiente para fazer isso, o micro e o pequeno empresário é que tem dificuldade, pois os investimentos são grandes.  Então dentro da política do nosso Ministério, é ajudar os pequenos e médios produtores a qualificar seus produtos. Então eles vão poder qualificar, por exemplo, a farinha, o peixe e a juta, pois sabemos que aqui no Amazonas existe a sazonalidade dos produtos, onde as famílias, para sua sobrevivência, a cada época do ano têm um tipo de produção diferenciado. Portanto, se nós conseguirmos qualificar essas produções e dar a qualidade necessária, nós vamos conseguir o melhor preço  e as famílias vão ter mais dinheiro para  investir. E isto é um ciclo virtuoso que nós queremos criar. 

Sobre metrologia, como o senhor observa o Brasil no cenário mundial? Qual o papel do Inmetro nessa posição?

Hoje em dia, podemos dizer que o Inmetro está dentro dos melhores institutos de metrologia do mundo. Nós temos uma metrologia compatível com a nossa economia, isso eu posso dizer: nessa área de metrologia e qualidade o Inmetro está perfeitamente sintonizado com o tamanho da economia que o País tem. Isso é muito importante. Tem algumas áreas que não ocupamos o décimo lugar que deveria ocupar de acordo com a nossa economia.  O Inmetro é muito respeitado, tanto que nós estamos fazendo um convênio com o Inmetro americano, alemão e chinês. Tanto que nessa unidade fluvial vão vir pesquisadores desses países com projetos conjuntos para falar sobre a qualidade de água e dos alimentos.

Com a atual situação econômica e política nacional, como o setor de tecnologia e inovação está inserido?

Tem uma crise, mas sempre tem algum dinheiro e você precisa empregar bem esse recurso como nós estamos empregando aqui. Um exemplo é aquela primeira balsa que construímos, no seu primeiro ano de funcionamento praticamente se pagou. Então é isso, você não sai da crise chorando no canto, e sim dribla a crise trabalhando e inovando, agora é inovação com ciência, pois tem uma ‘corrente’ aí que acha que vai fazer inovação sem ciência, isso é bobagem, não existe, e essa cadeia da qualidade é metrologia e qualidade, você não tem qualidade sem metrologia.

O senhor acha que está claro para a população o papel do Inmetro, bem como a criação do Ipem-AM?

 Sim, eu acho que a população entende. É tanto que uma pesquisa que fizemos revela que 90% da população conhecem o Inmetro e 87% confiam no instituto.

De que forma a população pode ajudar na fiscalização?

Nós temos um número de ouvidoria e qualquer reclamação que a população tiver, seja fraude de combustível, selo do Inmetro falsificado ou qualquer outra coisa que a população achar, deve ligar para o Inmetro ou para as ouvidorias do Ipem e, repassando ao Ipem, são tomadas imediatamente as medidas de fiscalização.

Qual a importância do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) nesse cenário?

É muito importante, o CBA é uma unidade muito importante. Tanto que o Inmetro está procurando auxiliar a Suframa para o funcionamento do CBA.

Como o Inmetro administra o fato de ter o CBA em sua estrutura?

Hoje em dia o CBA ainda não está na estrutura do Inmetro, na verdade o Inmetro presta uma ajuda ao CBA, porque o Inmetro também é uma agência de fomento à metrologia. Então, na verdade, o Inmetro recebe dinheiro da Suframa e com este dinheiro compra materiais de laboratório, paga os pesquisadores através de bolsa e auxilia dessa forma. Mas até hoje o CBA não é uma unidade ainda do Inmetro, poderia ser, mas não é.

Na sua avaliação, essa é a melhor solução para o CBA?

A solução seria ele ser uma unidade autônoma, mas isso tem que ser construído, ele ainda  não está pronto para isso.

Que linhas de pesquisa estão em desenvolvimento no CBA atualmente?

Procuramos orientar para que ficasse nas áreas de água e alimentos, porque isso já é um ‘mundo’. Ninguém pode ser bom em tudo, então temos que escolher umas áreas e nos dedicarmos a elas. Porque quando se fala sobre alimentos terá que falar em genômica, proteômica, bioinformática, ou seja, vai ter que estudar sobre uma série de coisas e desenvolver várias áreas que precisam de pessoas e dinheiro para isso.

Qual é o orçamento destinado ao CBA?

A Suframa repassa para nós cerca de R$ 5 milhões.

Quais são os próximos desafios para o CBA?

O CBA tem que ter mais pesquisadores e conseguir atrair lideranças. Quando eu cheguei ao Inmetro, nós tínhamos quatro doutores e conseguimos atrair lideranças, abrir novas áreas e hoje temos 300 doutores no Inmetro. Atualmente é uma instituição de ciência e tecnologia e fizemos isso em 10 anos. Então, o mesmo caminho que fizemos no Inmetro, podemos fazer no CBA. É importante que possamos trazer lideranças nacionais ou internacionais nas áreas. Vou repetir o que um dos maiores educadores brasileiros menciona. O Zeferino Vaz, o homem que construiu a Unicamp, tinha um quadro atrás da mesa dele em que os seis primeiros nomes eram gente, gente, gente... o que quer dizer com que gente boa e capacitada você tem bons projetos e que com isso se tem dinheiro para fazer as coisas e dessa forma atrai outras pessoas para trabalhar, foi assim que fizemos no Inmetro.

Muito se questiona a respeito da falta de autonomia do CBA. Como o senhor avalia isso?

A questão da autonomia é muito relativa, porque, por exemplo, nós temos lá no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) diversas Organizações Sociais (OS) e todas elas têm a mesma autonomia e algumas com grande sucesso e outras não. E o que diferencia isso é a liderança científica, por exemplo, o Inpa é uma OS e autônoma, mas tem uma grande liderança cientifica, tem todo um corpo preparado para isso. Entretanto têm outras que não tem tanto sucesso assim, porque não tem a mesma liderança. Do ponto de vista humano, todos somos iguais, mas do ponto de vista profissional não é assim, as pessoas têm valores diferentes. É evidentemente que as pessoas têm seus valores, são importantes, não são substituíveis, tem a questão metrologia científica e das lideranças científicas.

Perfil

Carlos Azevedo

Idade: 65

Naturalidade: Rio de Janeiro

Formação: técnico mecânico formado pelo Cefet, graduado em física pela a  UERJ, mestrado em física pela UFF, doutorado em Astrofísica pelo Observatório Nacional e pós-doutorado pelo Real Instituto de Tecnologia da Suécia.

Experiência: está desde julho de 2016 no comando do Inmetro.

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