Publicidade
Cotidiano
Notícias

‘A Petrobras vai superar a crise e revisar governança’, diz especialista em economia

Especialista em economia afirma que a política monetária que será adotada pelo governo provocará  uma redução no  crédito para o consumidor  e para o financiamento produtivo que ficará mais caro 31/12/2014 às 09:29
Show 1
Agostinho Pascalicchio é professor da Universidade Mackenzie, em São Paulo
LUCIANO FALBO Manaus (AM)

O economista Agostinho Celso Pascalicchio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acredita que, em meio aos escândalos de corrupção denunciados pela Operação Lava Jato, a Petrobras vai superar a crise e deverá trazer uma profunda revisão em sua administração e governança corporativa. Para o professor, ao adotar um conjunto de melhores práticas administrativas, a empresa deverá aumentar sua eficiência e produtividade.

Na entrevista concedida para A CRÍTICA, por email, Pascalicchio afirma que os principais problemas da economia brasileira são o controle da inflação e o desequilíbrio das contas públicas. O professor fala ainda sobre as perspectivas para a economia em 2015 e as medidas que acredita serem necessárias nesse setor. A seguir, confira trechos da entrevista.

 

Na sua avaliação, quais os principais problemas da economia brasileira? O que é preciso fazer para corrigir esses problemas?

Os grandes problemas da economia brasileira  são o controle da inflação e o desequilíbrio das contas públicas. As medidas econômicas a serem tomadas nestas áreas serão as que determinarão a retomada da atividade econômica ou o ritmo dos negócios em 2015.  A eficiência ou a rapidez em obter o sucesso para resolver estes  dois problemas determinarão o prazo da retomada econômica e o compromisso oficial de reduzir os riscos de uma  recessão no País. Quanto mais curto o prazo de ajuste, melhor para o Brasil. Das quatro políticas econômicas: monetária, fiscal, cambial e de rendas, as duas primeiras deverão ser as mais utilizadas em 2015. Ocorrerão ajustes sistemáticos nos níveis das taxas de juros básicas, e que também trarão efeitos sobre a contenção do fluxo de câmbio para o exterior; a política monetária também provocará  um “aperto monetário”, ou seja, uma redução no  crédito tanto para o consumidor quanto para o financiamento produtivo, que se tornará muito mais caro. 

E quanto aos gastos públicos?

A política fiscal deverá concentrar-se no controle dos gastos públicos e elevação de alguns tributos e contribuições. O governo não poderá gastar tanto quanto em anos anteriores. Este controle dos gastos do governos é importante para voltarmos a atingir a meta de 2,5% do PIB de superávit no resultado primário do governo. Política monetária e fiscal “andarão” bem juntas. A política fiscal e monetária serão aquelas que vão enfrentar os dois grandes problemas de 2015. Estas políticas econômicas devem superar algumas  incertezas que ainda estão fora do controle direto da equipe econômica: alta nos juros americanos, apreciação do dólar e ainda continuidade no preço baixo das commodities.  O bom resultado no uso dos instrumentos destas políticas econômicas será avaliado quando a equipe econômica trouxer o retorno do  eficiente tripé de sustentação da estabilidade: inflação controlada, gastos públicos adequados e uma política cambial flutuante, administrada pelo Banco Central do Brasil, sem grande volatilidade e favorável ao país.

Será preciso aumentar juros?

O ajuste causado pela política monetária exigirá que os juros sejam elevados. Na política fiscal, ocorrerão a elevação de algumas contribuições e tributos como parte do programa econômico de ajuste. O time econômico apresentado pelo governo ao País: Ministros da Fazenda e do Planejamento e o Presidente do Banco Central deixaram claro o compromisso de ajuste quando estabeleceram as metas de governo nos próximos três anos, através da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o reforço da questão fiscal, das contas públicas, considerado por muitos como o ponto de partida do programa econômico dos próximos anos. Poderemos nos acostumar com algumas notícias: as taxa de juros que serão elevadas são as dos títulos públicos. Esta taxa também é chamada de taxa básica, taxa COPOM ou taxa SELIC. O noticiário econômico informará de forma periódica, a cada reunião do COPOM, o aumento desta taxa de juros durante 2015.

E como se dará essa variação da taxa de juros?

A variação desta taxa  dependerá do sucesso no combate à inflação  e também do controle sobre o fluxo de câmbio ao exterior. Outras medidas de contenção na oferta de moeda poderão ser tomadas, principalmente na área financeira.  Porém não terão a eficiência na redução do hiato inflacionário que a variação nos juros dos títulos públicos oferece ao governo.  A alta nos juros, além de conter o crédito por torná-lo mais caro para o consumidor, causa uma redução nos níveis de investimento da economia, principalmente do setor privado. Ganhos para o setor produtivo ocorrerão apenas quando houver investimento em melhorias de produtividade. O ganho de produtividade será estratégico para alguns setores ou empresas desde que supere o custo das fontes de capital que ficarão muito mais caras. Com relação ao “superávit fiscal”, precisa ser definido em qual conceito está se trabalhando. "Superávit" existe quando uma diferença entre dois valores é positiva.

Qual diferença?

O governo acompanha o “resultado fiscal primário”. Este valor é que deve ser superavitário.

Como é obtido? 

Ele é a diferença positiva entre a receita total do governo obtida com os tributos e demais contribuições e os gastos realizados pelos ministérios e empresas estatais, excluindo os juros pagos na manutenção da dívida do próprio governo. O governo considera que a inclusão dos juros no cálculo do déficit dificulta a mensuração do efeito da política fiscal. Este valor - quando positivo - é conhecido como superávit primário do governo e deve apresentar um “valor ideal” de 2,5% do PIB brasileiro.

Na sua opinião, é possível aumentar gastos sem elevar a carga tributária?

A probabilidade de elevar a carga tributária e as contribuições sociais é muito alta. Mas não existe apenas os recursos tributários para financiar os gastos do governo. Adicionalmente, o governo pode obter receitas com as concessões e aluguéis de bens públicos, transferências constitucionais, empréstimos com origem externa e internas, incluindo o BNDES, além  da emissão de moeda e que podem ser “enxugada” ou “compensada” com emissão de títulos. A gestão desta “carteira” de fontes de recursos financeiros é que pode fazer com que a dependência exclusivamente da carga tributária e das contribuições sociais sejam reduzidas.

O senhor acredita que a Petrobras sairá da crise? Como e por quê?

Sim, vai superar a crise e deverá trazer uma profunda revisão em sua administração e governança corporativa. Deverá trazer, após esta crise, novos processos e métodos administrativos que aumentarão a transparência para toda a sociedade, para o estado brasileiro, seus acionistas e demais colaboradores. Deverá adotar um conjunto de melhores práticas administrativas. O processo, bem conduzido, deverá aumentar sua eficiência e produtividade. Observe, agora,  que um dos grandes problemas da economia brasileira é o controle da inflação. É inegável o potencial de colaboração que esta empresa possui nesta área. Este é um painel que merece reflexão. Qualquer empresa ou eventualmente um órgão público - se tiver necessidade - deve desempenhar perfeitamente o seu papel público, dentro das melhores práticas administrativas, incorporando técnicas de governança corporativa, com eficiência, com melhorias contínuas e com grande transparência para a sociedade que serve.

Muito se fala em um pessimismo em relação ao cenário econômico de 2015. É possível reverter isso?

Não podemos confundir, neste momento, cenário pessimista com processo necessário de ajuste. Não é possível reverter o processo de ajuste de 2015. Não se trata, portanto, de um cenário pessimista. É um cenário de ajuste. O ajuste exige a tomada de medidas que são necessárias. Estes ajustes demandarão tempo. Controlar a inflação, ajustar as contas públicas e adequar parâmetros econômicos que saíram do controle, como a retomada do crescimento econômico e ajustes externos é um processo que exige resgatar boas expectativas que foram desarmadas por alguns agentes na sociedade.


Publicidade
Publicidade