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Cotidiano
Entrevista da Semana

‘A política está mais do que no fundo do poço’, afirma Marina Silva

Para a ex-senadora, que esteve em Manaus nesta semana, o governo de Michel Temer não rompe totalmente com o modelo político que comandou o País nos últimos anos 25/09/2016 às 06:00 - Atualizado em 25/09/2016 às 11:08
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Marina Silva em Manaus (Foto: Aguilar Abecassi)
Geraldo Farias Manaus (AM)

A ex-ministra e ex-candidata a presidente da República, Marina Silva (Rede), afirma que o governo do presidente Michel Temer (PMDB) é uma continuidade do governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), com projetos e medidas econômicas idênticas,  como se fossem ‘irmãos siameses’. Marina Silva esteve em Manaus na última quarta e quinta-feira, cumprindo agenda de viagens pelo Brasil para auxiliar os candidatos da Rede Sustentabilidade, Luiz Castro, nessa que é a primeira eleição do partido. Marina também disse que a operação Lava Jato realiza uma reforma política forçada no País e não confirma se será candidata a Presidência em 2018.

Quais são as metas da Rede  para essa eleição municipal e como está sendo a sua participação nesse processo?

Tenho feito muitas viagens para municípios e Estados da federação. A Rede tem mais de 100 candidaturas a prefeito nos municípios e mais de 100 em que somos vices nas chapas em que coligamos. Temos feito o trabalho de levar um programa que a gente acredita e que somos uma alternativa. Vim a Manaus para mostrar isso. Um dos nossos objetivos é contribuir pa ra melhorar a qualidade da política. A política está mais do que no fundo do poço. É como um poço sem fundo. Nosso primeiro objetivo é reunir candidaturas que unam três coisas principais para melhorar a qualidade da política. Uma delas é ter um bom testemunho  de vida, a outra é ter propostas e a outra é fazer uma ação junto com diferentes setores da sociedade para transformar essas propostas em programa.

Qual a importância de Manaus e do Amazonas para a Rede?

Primeiro, existe a importância estratégica que tem essa região para o Brasil e para mundo e, obviamente, pensar a gestão pública em uma metrópole em meio à floresta amazônica, como é o caso de Manaus e Belém, é um desafio muito grande, pois você tem de trabalhar ao mesmo tempo alternativas de desenvolvimento econômico e social, mas também resolver problemas graves na questão do saneamento básico, na questão do déficit de moradia, na gestão de emprego e renda para a população e um grande esforço para resolver o problema grave da violência. Aqui há uma importância estratégica por ser uma região fundamental para o equilíbrio do planeta em que é necessário pensar o modelo de desenvolvimento de cidade que não tenha de ficar brigando com a floresta, mas ter na floresta a sua principal parceira pra trabalhar alternativas. 

Em 2014 a senhora foi criticada por sua visão de governo, apontando uma crise política. Qual a sua posição agora?

A Rede trabalhou os pilares da sustentabilidade na nossa campanha de 2014 e mantivemos a nossa postura. Fomos o único partido a dizer que estávamos à beira de uma crise na economia brasileira em função de erros políticos que vinham sendo praticados pelo PT e PMDB. O que ficou claro com os altos índices de desemprego, com cerca de 12 milhões de desempregados, se revelou com a elevação da inflação e dos juros. A Rede antecipou que estávamos à beira de uma crise econômica, política, pois acabou prevalecendo a mentira, que venceu as eleições, e deu no que deu.

O que a senhora teria feito de diferente se estivesse no governo para evitar a crise financeira?

O que teria de fazer é não ficar botando a culpa nos outros. Essa história de ficar dizendo que estamos enfrentando uma crise por causa de uma crise global é coisa pra inglês ver. O problema é que, enquanto os EUA, Europa, Japão e a Índia tomavam medidas necessárias para sair da crise em 2008, o Brasil estava dizendo que era uma marolinha. A primeira coisa a fazer é não mentir pra sociedade, não faltar com a verdade. O Brasil não está assim porque aconteceu uma guerra, um maremoto ou uma catástrofe, foram erros e decisões políticas erradas. Como é que o México, EUA, a Europa enfrentavam a crise de 2008 e o Brasil não era atingido? Não dava para acreditar nisso e eu disse isso na campanha e paguei o preço. É o preço que paga quem estava preocupado com o que levaria o Brasil para o abismo e foi o que aconteceu.

A sua candidatura à Presidência da República em 2018 é uma certeza para a Rede?

Eu não sei se serei candidata. Eu tenho um censo de responsabilidade muito grande com os mais de 20 milhões de brasileiros que apostaram em uma outra alternativa, que não fosse só o da polarização de PT e PMDB versus PSDB. Na luz de tudo vou ver se contribuo para melhorar a qualidade da política. Eu vou fazer uma avaliação de como, na nossa visão, poderemos contribuir para ajudar o Brasil a sair da crise. Eu, pessoalmente, no momento, não sei, mas há um acolhimento muito significativo da população do projeto apresentado em 2010 e 2014, e eu tenho responsabilidade com essas pessoas.

A senhora apoiou o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O que tem a dizer para aqueles que dizem que o processo foi um golpe?

O impeachment não é golpe. Todo o processo é previsto na Constituição e foi regido pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e teve a presença da presidente afastada. Houve um crime de responsabilidade. No meu entendimento o melhor caminho seria o do TSE. No TSE, no meu entendimento, haveria uma cassação da chapa Dilma/Temer e a obrigatoriedade de se realizar uma nova eleição, com os partidos tendo a oportunidade de mostrar alternativas para sair da crise, até por que, agora, não daria mais para mentir. Dizer que o Brasil estava cor de rosa, bonito e maravilhoso.

Qual a sua avaliação do governo do presidente Michel Temer?

 O governo do Temer é a continuidade do governo da Dilma. Tanto é que eles foram eleitos juntos. Agora, tem uma coisa, a equipe econômica do Temer é a mesma que seria a do ex-presidente Lula se ele tivesse assumido o cargo de Chefe da Casa Civil. Lembra que ele disse que iria convidar o Henrique Meirelles para ser Ministro de Economia? Que o Henrique Meirelles era o ministro dos sonhos dele e contaria com autonomia para montar a sua própria equipe? O Temer pegou o próprio indicado do Lula e, se ele ia ter autonomia com Lula, ele passou a ter autonomia com o Temer. É por isso que eu digo que eles são irmãos siameses, são faces da mesma moeda. Até porque quem elegeu o Temer não fui eu, meu vice em 2014 foi o Beto Albuquerque, foi a Dilma, o presidente Lula, foram eles.

Qual a sua avaliação das propostas do governo de Michel Temer? A senhora acha que os ajustes apresentados são os corretos?

Não é ajuste fiscal o que se precisa fazer no País, é o ajuste Brasil. O ajuste fiscal é da economia para a economia. E os direitos sociais das pessoas? E aqueles que vivem em fragilidade? Como fazer para aqueles que têm dificuldades de acesso à educação sem que os recursos da educação sejam aumentados? Como fazer da saúde que está aí entregue à própria sorte? Congelando os recursos da saúde? Tem que fazer o ajuste Brasil que é como o Brasil vai recuperar a credibilidade, a legitimidade para ter poder de investimentos para, a partir daí, recuperar a disponibilidade de emprego e sair dessa crise.

Medidas que indicam redução dos direitos trabalhistas e aumento da carga de trabalho são alternativas para sair dessa crise financeira?

Até quando os mais frágeis devem pagar? Não se pode ter uma visão de que quem vai pagar por essa crise devem ser os mais frágeis. Quais são os sacrifícios a serem feitos por setores que historicamente se beneficiaram com créditos dos bancos e isenções fiscais? É preciso que se tenha transparência e se faça o debate transparente. Acho que haverá dificuldade para esse governo que não tem credibilidade e popularidade. Infelizmente, nós temos uma situação que tem um governo que diz que vai fazer medidas impopulares ele mesmo não tem popularidade. Com certeza, teremos momentos que não são tão fáceis de serem manejados.

Uma Proposta de Emenda a Constituição (PEC), apresentada pelo senador Aécio Neves (PSDB) quer reduzir extinguir o fundo partidário e tempo de televisão para partidos como a Rede. O que o partido está fazendo sobre isso?

Os grandes partidos da polarização PT, PMDB e PSDB gostariam de reinar de infinito e que todos os demais partidos fossem apenas os seus satélites. A Rede não é satélite de nenhum desses partidos, nós somos um partido independente. Vamos lutar democraticamente para que nossos direitos de nos expressar sejam assegurados. Vamos lutar para que a gente possa contribuir com a qualidade política. A gente vive um momento difícil da política brasileira. A maioria dos partidos está estagnada. A Rede é uma tentativa de ajudar a melhorar a qualidade da política, mas óbvio  que, para isso, é importante termos a liberdade de colocar as ideias que acreditamos.

Como a senhora avalia o apoio ao senador Aécio Neves na eleição de 2014, o mesmo que agora tenta excluir o seu partido e inviabilizar sua possível candidatura em 2014?

Eu sempre fiz apoios programáticos. No primeiro turno, eu apresentei um programa que foi combatido com mentiras, calúnias e difamações feitas pelo PT. No segundo turno, eu declarei apoio ao Aécio depois que ele se comprometeu prontamente que iria defender a reforma agrária, que iria manter a demarcação das terras indígenas e assinou uma carta que manteria o bolsa família, por isso fiz uma declaração de apoio. Isso não foi um apoiamento gratuito. Isso foi um alinhamento temporário e programático.

Como a senhora avalia o desenrolar da Operação Lava Jato?

A Lava Jato está fazendo um trabalho histórico. Você tem empresários presos, lideranças políticas que já perderam o mandato e outros que estão cumprindo pena, fazendo um trabalho de passar o Brasil a limpo. É claro que nem todas as pessoas, por serem mencionadas, devam ser consideradas culpadas. Da mesma forma que não podem ser, a priori, inocentadas. Ninguém está acima da lei. O que a Lava Jato está mostrando é que nem empresários, nem políticos estão acima da lei. Eu acho que a Lava Jato está fazendo uma reforma política na prática, porque vai tornar a política desinteressante para quem quer fazer negócios escusos com ela. Só vão ficar na política aqueles que, de fato, querem prestar serviço de forma honesta à sociedade.

Perfil Marina Silva

Idade: 58

Nome: Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima

Estudos: Licenciatura em história, pós-graduações em teoria psicanalítica e em psicopedagogia

Experiência: Ex-vereadora, deputada estadual, senadora e ex-Ministra do Meio Ambiente, entre janeiro de 2003 e maio de 2008. Candidata a presidência da República em 2010 e 2014.

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