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'A prefeitura está sendo gerida como uma empresa'

Ex-executivo da Masa, hoje à frente  Secretaria de Finanças de Manaus  Ulisses Tapajós  diz que lidera um grupo de executivos que sonham fazer da capital do Estado a melhor cidade para se viver 15/06/2013 às 19:35
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Secretário municipal de finanças de Manaus concede entrevista exclusiva à A CRÍTICA
Cinthia Guimarães Manaus (AM)

Ulisses Tapajós foi o primeiro amazonense a assumir o comando de uma multinacional no Distrito Industrial, tradicionalmente gerido por executivos estrangeiros ou nascidos em outros estados brasileiros. Anos depois de deixar o comando bem sucedido da indústria e investir no mercado de ações, ele resolveu assumir um novo desafio na sua carreira de 45 anos.

Há seis meses trocou a rotina de empresário pelo desafio de administrar as finanças do município de Manaus, se propondo uma meta ousada de aumentar a arrecadação pública, cortando gastos desnecessários e reduzindo a burocracia estatal.

A intenção de Ulisses é transformar a mal vista gestão pública em uma gestão privada de eficiência, com a mesma referência que administrou por duas décadas a Masa – companhia que esteve à beira da falência em 1993 – e que anos mais tarde foi eleita a melhor companhia para se trabalhar no Brasil, pela revista EXAME.

O carisma e a habilidade para liderar fizeram a diferença na vida de Ulisses, indicado recentemente com um dos 100 executivos com a melhor reputação do Brasil pela consultoria alemã Merco, ranking publicado pela EXAME na semana passada.

Aliás, foram suas referências profissionais que o credenciaram a assumir o posto de secretário de Finanças da 6ª cidade mais rica do País, cargo de confiança depositado pelo prefeito Arthur Neto, figura política que Ulisses não tinha contato pessoal. “Eu nunca havia conversado com o prefeito antes de ele me fazer o convite”, ressaltou.

A marca de líder de sucesso está impressa nos seus hábitos cotidianos desde os tempos de industriário. Ele costuma resumir tudo em três pontos, olha nos olhos das pessoas, cumprimenta a todos com um forte aperto de mão e chama as pessoas pelo nome. “O líder deve ser o exemplo”, frisa ele com a impressão de quem fala lições de um livro de autoajuda. Confira entrevista a seguir.

Como o senhor vê a indicação da Merco lhe colocando entre os executivos de melhor reputação no Brasil?

Pensava eu já estava esquecido porque havia saído do mundo empresarial, dos eventos, etc. Foi efetivamente a maior homenagem que eu recebi na minha vida pessoal. Já tinha recebido inúmeras homenagens nacionais, locais internacionais pelo desemprenho da empresa que eu presidia, a Masa. Queria creditar a três situações que me levaram até isso: o fato de eu ter recebido fortíssima educação doméstica, meus pais incutiram valores morais muito forte que pautaram toda minha vida; segundo ter escolhido ambientes saudáveis para viver, evitando as más companhias que levam à degradação moral e desonestidade e sempre fui cuidados com a seleção dos meus amigos; em terceiro lugar, o fato de eu ter sido criado com o sentimento de valorizar as pessoas. Meu pai e minha mãe sempre me ensinaram que em qualquer posição que você esteja, você tem que ser absolutamente humilde, entenda que você é simplesmente um ser humano igual a todos que você convive. Você precisa aprender a respeitar as pessoas, motivar, reconhecer e recompensar as pessoas. Tem um ditado que diz: Quem planta o bem, colhe o bem. Seguramente eu estou colhendo o que plantei ao longo dos meus 45 anos de vida profissional.

O que o senhor trouxe de experiência do setor privado para a administração pública?

Sou manauara, nascido e criado em Manaus. Essa cidade propiciou que um menino muito humilde tivesse todas as oportunidades na vida para crescer e se tornasse presidente de um multinacional. Essa cidade me propiciou ter a família que eu tanto amo, os filhos maravilhosos que tenho, os netos que são um mais bonito do que o outro (risos). Foi uma cidade muito generosa comigo, sempre tive o sentimento de querer servir a minha cidade, um sentimento de gratidão. Mas até então não tinha tido oportunidade porque estava no mundo empresarial. Quando cheguei ao momento de aposentadoria, encontrei a felicidade de encontrar um líder que me motivou e vir para a prefeitura poder contribuir no processo de transformação da nossa cidade.

Cada ano você vê a cidade pior, mais degradada. E me fazia muitas reflexões se essa era a cidade que eu queria deixar de legado aos meus filhos e netos. Vindo da atividade empresariado, trabalhando na Masa, tendo a vida inteira concorrentes como chineses e coreanos, você acaba aprendendo um modelo de gestão empresarial que traz muitos resultado, eu tinha confiança que modelos que eu usava no distrito poderia transformar nossa prefeitura. Daí recebi o convite do prefeito Artur e do doutor Jorge Gerdau, me senti motivado a enfrentar esse grande desafio que é mudar a cultura da gestão publica à gestão empresarial. A diferença é muito grande. Um das coisas que vejo hoje é um excesso de burocracia e controles. Numa empresa você toma decisão hoje e as coisas começam a acontecer amanhã. Numa prefeitura entende um problema hoje e só consegue tomar decisão 60 dias depois. Isso é muito penoso porque atrasa, eleva o custo e as despesas.

Que medidas serão essas?

Tenho a maior fé que nos próximos cinco anos consigamos mudar Manaus e tornar uma cidade mais agradável. Trouxemos do Distrito Industrial seis executivos, alguns que já estavam aposentados. Criamos para este ano apenas duas metas, as mais prioritárias: aumentar as disponibilidades financeiras (assumimos com um déficit de pagamento de R$ 350 milhões). No segundo semestre é o último verão antes de Copa. Temos que ser muito ágeis. Vamos aumentar as disponibilidades financeiras em R$ 800 milhões para fazer frente ao volume de obras e honrar os pagamentos de fornecedores e impostos; desburocratizar os processos internos e externos da prefeitura. O Brasil vai crescer este ano 3% e prefeitura 17%. Eu credito esse crescimento à equipe da secretaria de finanças. A prefeitura está sendo gerida como uma empresa. Portanto, vamos revisar contas, corte de despesas desnecessárias, contratos de locação de imóveis, locação de carros, relicitarmos todos os contratos com preços acima do mercado. Faremos um enxugamento técnico, sem cortes, como acontecem. É um enxugamento técnico, não moral.

O que considera mais arriscado para a sua carreira: assumir a gestão da Semef ou o mercado de capitais?

O mercado de capitais surpreendentemente é muito fácil e não é arriscado, porque em primeiro lugar você tem que se preparar, fazendo os cursos adequados para você entender o mercado. Hoje também existem inúmeros tecnologias de informática que te propiciam uma visão completa e segura do mercado. Em terceiro lugar quando você usa valores morais, disciplina na gestão dos investimentos de pessoas que se tornam nossos clientes, você encontra sucesso. No mercado de capitais, a Ação é o maior escritório do grupo XP investimentos, que é maior grupo de investimento autônomo fora dos bancos que temos no Brasil. A Ação nasceu em 2009 e, em quatro anos, por força de uma metodologia correta se tornou a maior. Não fui um risco, foi uma satisfação.

O que conseguiu executar na Semef até agora? O que planeja até o final do ano?

Na prefeitura temos um serie de desafios: 1) mudar a cultura para uma gestão privada; 2) levar para equipe as necessidades de trabalhamos com o máximo de eficiência e de qualidade possível; 3) levar pra prefeitura a cultura que você só pode dar o passo conforme a perna. Quando você faz isso num ambiente de práticas republicanas o sucesso vai vir. Embora o desafio, administrar a prefeitura é mais fácil do que o setor privado, que vive num ambiente de constante competitividade. Lá, nossos concorrentes são os chineses e coreanos. Na prefeitura não, estou escutando as moedas entrando, o pagamento dos impostos e taxas. Temos um monopólio. Você só tem que administrar custos.

Que características suas foram essenciais para o êxito da sua vida profissional?

Eu destacaria três itens: 1) honradez – fazer tudo corretamente com honestidade, cuidar como se fosse a minha empresa; 2) busca da eficiência – amanhã tem estar melhor que hoje; 3) estilo de liderança servidora– mostrar preocupação com as pessoas que trabalham com você, com a sociedade.

 

O senhor ainda está se dedicando à Ação Investimentos?

Estou totalmente afastado. A Ação é gerenciada pelo meu filho Gustavo Tapajós, que tem um curso chamado CFP (Consultant Financial Profissional).

Porque continua trabalhando após 45 de profissão? Liderar pessoas lhe satisfaz?

Liderar pessoas para a realização de sonhos que contribuam para a formação de uma sociedade mais próspera, mais justa e mais feliz, para mim, é o elemento de maior motivação pessoal. Tudo que eu faço na prefeitura, pelo sentimento de gratidão à minha cidade, é liderar pessoas, um grupo de executivos competentes que tem como o principal sonho transformar Manaus em uma das melhores cidades para se viver no Brasil. Eu meço o quanto estou em um momento de rara felicidade porque que voltei a acordar às 4h da manhã para trabalhar às 7h, como no Distrito Industrial. E faço isso sorrindo com as possibilidades de realização que a gente faz durante o dia.

Como está a situação do rombo na Manausprev?

A Manausprev foi encontrada numa situação de extrema dificuldade. Em primeiro lugar havia déficit atuariais que precisavam ser corrigidos; em segundo, as dívidas da prefeitura que estavam se acumulando e que precisavam ser negociadas; em terceiro que 30% a 40% das reservas que a Manausprev possui estão empregadas em fundos problemáticos. Os dois primeiros estão sendo equacionados junto ao Ministério da Previdência social. Agora queremos saber como recuperar o dinheiro perdido em fundos não eficientes.

O que fez com que a Masa fosse considerada uma das melhores empresas para se trabalhar no Brasil?

Trabalhamos a força da equipe para atingir as metas dessa companhia, que ia fechar em 1993, na melhor empresa para se trabalhar em 2006, 13 anos depois. Apenas pela força das pessoas. Na Masa foi criada uma cultura que o beneficio não é dado, é conquistado pelo colaborador. Entre eles, um plano de carreira para ser reconhecido pelos méritos, um plano de carreira, alimentação primorosa, preocupação com a família do colaborador, entre outros.

O senhor já teve a pretensão de se candidatar à politica?

Nunca tive intenção de me candidatar a cargo público. Pois o meu perfil é na área executiva. Já fui convidado inúmeras vezes, mas nunca quis. Não tenho experiência pública. Prefiro ser reconhecido como um dos 100 líderes com melhor reputação. Ser líder é mais eu ser executivo, ser líder você influencia na vida das pessoas, ser executivo você cumpre uma tarefa.

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