Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
DEBATES

A primeira coisa que os indígenas me perguntam é 'onde está sua esposa?', diz bispo

A questão explosiva dos padres casados tem sido insistentemente durante o Sínodo da Amazônia, que acontece desde domingo (6), no Vaticano



itemImage_teaser__1__64F05078-DDEA-4589-9FD2-35428DCF36BA.jpg Foto: Prelazia do Xingu
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10/10/2019 às 10:05

Muitos prelados da América do Sul estão abertos à ideia de ordenar homens casados na Amazônia, diante da falta de padres nesse imenso território isolado, mas a opção, debatida em um sínodo de bispos da região no Vaticano, ameaça provocar uma divisão dentro da Igreja. Dos 184 prelados do sínodo, 113 são da região amazônica, principalmente do Brasil (30%). O bispo Erwin Kräutler, um missionário austríaco que é bispo emérito do Xingu no Brasil, estima que dois terços dos bispos da região sejam a favor dos "viri probati".

A questão explosiva dos "viri probati" - padres casados com idade avançada e comportamento católico irrepreensível - tem sido insistentemente abordada desde o início dos debates da assembleia especial episcopal dedicada aos problemas da Amazônia.



"Não há outra possibilidade. Os povos indígenas pedem isso claramente", disse o bispo à imprensa nessa quarta-feira (9). "A primeira coisa que me perguntam nas aldeias indígenas é 'onde está sua esposa?'. Explico a eles que não sou casado, e eles sentem um pouco de pena de mim!", contou.

A Eucaristia, ou comunhão, sacramento essencial na doutrina cristã, é prerrogativa de um padre celibatário. Kräutler julga que a Eucaristia seja, porém, mais importante do que o celibato dos padres, imposto apenas a partir do século XI. "Uma ideia dividida" na sala do sínodo, segundo uma testemunha dos debates.

"O ecossistema eclesiástico não é mais capaz de despertar e apoiar vocações sacerdotais e religiosas suficientes. Existe uma espécie de desmatamento da cultura católica", descreveu um bispo de língua espanhola, segundo esta testemunha.

O cardeal brasileiro Cláudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e relator do sínodo, considera que "é necessário definir novos caminhos para o futuro" em resposta às demandas dos povos indígenas.

"Heresias"

Na Amazônia, a Igreja Católica está preocupada com o aumento vertiginoso da presença de igrejas evangélicas pentecostais, que contam com pastores casados.

Mesmo que o debate não se concentre realmente no fim do celibato dos padres, os tradicionalistas católicos estão, no entanto, irados diante do fantasma de uma possível exceção regional.

O mal-estar se dá, em especial, porque uma parte progressista da Igreja alemã também vem defendendo a possibilidade de padres casados. O cardeal americano Raymond Burke - um dos opositores declarados do papa - anunciou em meados de setembro "uma cruzada de 40 dias de oração e jejum" contra o documento do sínodo, salpicado de "erros teológicos e heresias". Ele pede especificamente ao papa para não abolir o celibato.

Os bispos da Amazônia vão discutir até o final do mês um texto de sugestões para Francisco, que escreverá sua própria exortação. Em setembro, no avião que o levou de volta para casa depois de uma viagem à África, ao ser questionado sobre seus inimigos mais virulentos, o papa disse: "Rezo para que não haja cisma, mas não tenho medo".

É uma mensagem clara para os prelados rebeldes presentes até mesmo na Cúria (governo do Vaticano) e que julgam que o papa argentino fala muito das desigualdades sociais e dos excluídos, em detrimento da moralidade sexual.

Em uma missa matinal celebrada na terça-feira em sua residência de Santa Marta, o papa criticou fortemente os cristãos que denunciam, com frequência, a "heresia" e dizem "não, não, essas mudanças não são cristãs".

Esses crentes "preferem a ideologia à fé", "preferem julgar tudo, mas a partir da pequenez de seu coração", lamentou. O pontífice defende uma Igreja centrada nas realidades humanas, em linha com os bispos da Amazônia, que pedem, por exemplo, uma adaptação de suas formações.

"É necessário que a formação teológica não seja realizada em seminários que muitas vezes se assemelham a hotéis de quatro, ou cinco estrelas", abordou um bispo brasileiro, durante os debates. Além disso, muitos seminaristas não têm a base necessária e não completam uma formação muito árdua.

Leia mais >> Arcebispo de Manaus defende ordenação de padres casados na Amazônia


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