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Cotidiano
OUTUBRO ROSA

Acesso precoce ao diagnóstico do câncer de mama ainda não é realidade no interior

Secretaria de Estado de Saúde informou que o exame de mamografia está disponível em 26 municípios do interior 04/10/2017 às 08:03
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(Foto: Winnetou Almeida)
Isabelle Valois Manaus (AM)

Foi por acaso que a artesã Vanucia Morais de Oliveira, 38, recebeu, ainda em 2015, um convite para participar de uma palestra sobre o “Outubro Rosa” em uma escola perto da casa onde morava, em Tabatinga (a 1.105 quilômetros da capital), ocasião em que aprendeu a realizar o autoexame da mama. Instigada pelas palestrantes e pelo tema envolto em tabus -  o câncer -, assim que chegou em casa Vanusa procurou o espelho e, no quarto, fez o primeiro autoexame da vida. Durante o toque, ela sentiu um caroço do tamanho de um grão de arroz e esse dia marcou o início de uma verdadeira luta pela cura.

Os três meses seguintes foram de peregrinação pelas poucas unidades de saúde do Município, sempre sem resposta e com a mesma orientação: viajar para a capital para se submeter a uma ultrassonografia mamária. O que só foi possível mais de 90 dias depois da primeira suspeita, quando Vanusa decidiu largar tudo em Tabatinga e se mudar para a casa de parentes em Manaus, demora que pode ter prejudicado o tratamento. “Tive muita dificuldade para saber onde deveria ir, quem buscar, sem contar que ficamos mais apreensivas sem um diagnóstico. Por fim, quando finalmente consegui fazer, os exames deram positivo para o câncer e ele estava no estágio 3”, lembrou. 

Após o diagnóstico fechado, Vanucia realizou uma quadrantectomia -  cirurgia que remove o tumor mas deixa a maior parte da mama - e seguiu o tratamento de quimioterapia e radioterapia na Fundação Centro de Oncologia do Amazonas (FCecon). Para se manter na capital, onde não tinha emprego nem residência fixa, ela contou com a ajuda dos familiares, que a acolheram. Mas nem todas as mulheres que vêm do interior para se tratar na FCecon têm essa sorte, disse Vanusa. “Quem mora no interior, tem mais dificuldade. Como tenho família em Manaus, consegui vir para a capital. Se não fosse isso, talvez estivesse até hoje no interior, sem nenhuma assistência, como tantas outras”, comentou.

Novos casos

Outras 60, mais especificamente, segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que prevê que 440 novos casos de câncer de mama sejam confirmados ao longo de 2017, 14% deles no interior. 

E é pensando em poupar essas mulheres dos obstáculos que enfrentou em busca do diagnóstico e tratamento que Vanusa passou a integrar o Grupo de Apoio às Mulheres Mastectomizadas da Amazônia (Gamma), uma das instituições da capital que oferece apoio a mulheres do interior que precisam vir a Manaus para exames e tratamentos. “Hoje ajudo a orientar mulheres como um dia fui orientada, na esperança de poder fazer, na vida delas, a diferença que essa informação fez na minha”. 

Mamógrafos no interior

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou que o exame de mamografia está disponível em 26 municípios do interior do Estado. O exame é feito com prescrição médica e recomendado para as mulheres acima de 40 anos. Conforme a secretaria, as mulheres podem se informar nas unidades de saúde para saber quais procedimentos devem seguir.

Mais de 5 mil são assistidos 

Mais de 5 mil pessoas de toda a Amazônia ocidental fazem tratamento ou acompanhamento atualmente na Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon), referência na região.  A fundação não soube projetar quantos desses pacientes são relacionados ao câncer de mama, nem quantos são provenientes de municípios do interior do AM.

Oriona Ohse - Pres. fundadora do Gamma

"No interior a realidade é totalmente diferente da capital. Quase não há atenção necessária quando falamos de diagnóstico e tratamento do câncer de mama. Por conta das campanhas do Outubro Rosa, hoje as mulheres que vivem  municípios do interior do Estado têm buscado realizar o autoexame. Se encontram ou desconfiam de algo durante este exame, elas sempre nos procuram para pedir auxílio e orientações sobre qual procedimento devem seguir para buscar um diagnóstico preciso e, em alguns casos, até mesmo o tratamento. Nós do Gamma temos buscado ajudar em tudo o que está ao nosso alcance”.

Marinha  envia assistência

Uma parceria entre a Fundação Centro de Controle de Oncologia do Amazonas (FCecon) e a Marinha vai levar assistência de saúde a mulheres que vivem em comunidades do interior do Amazonas, com foco na campanha Outubro Rosa. 

O navio de assistência hospitalar do 9º Comando do Distrito Naval, Doutor Montenegro, deixou a Estação Naval do Rio Negro no início desta semana, com  destino a 11 localidades do baixo Juruá, onde profissionais de saúde ofertarão também atendimento médicos e odontológicos aos moradores. Isso sem contar com atendimentos ginecológicos, exames de mamografia, pré-natal, além de palestras relacionadas à saúde da mulher, prevenções e cuidados. O barco segue com os atendimentos até o dia 24 de outubro, quando regressa à capital. 

Conforme a Marinha, 110 mamografias deverão ser realizadas nesse período, primordialmente em mulheres acima de 40 anos, mas suspeitas de problemas em mulheres mais jovens também poderão ser investigadas.  Além das mamografias, também serão realizados mais de 1,6 mil atendimentos médicos, 260 atendimentos odontológicos, 260 atendimentos farmacêuticos e mais de 1,6 mil de enfermagem.

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