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‘Acredito que dá para fazer uma política diferente’, diz o padre prefeito Calos Goes

Estreante em cargo eletivo, o  prefeito de Maués trocou a batina pela administração pública. Paróco licenciado , Carlos Goes afirma que existe gente honesta na política e que dá para responder aos anseios da população 20/07/2013 às 17:50
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Carlos Goes, prefeito de Maués
Lúcio Pinheiro Manaus (AM)

Primeiro padre a assumir o comando de uma prefeitura no Amazonas, Raimundo Carlos Goes Pinheiro (PT) afirma que a política ampliou a possibilidade dele praticar um dos maiores ensinamentos da vida religiosa: a caridade.

Pároco do Município de Maués até às vésperas da eleição do ano passado, Padre Carlos afirma que após cumprir o mandato pretende voltar ao sacerdócio. Em sua gestão, de pouco mais de seis meses, o prefeito-padre já foi alvo de manifestações populares, segundo ele comandadas por adversários políticos. A seguir a entrevista.

O que motivou o senhor a se afastar da vida religiosa e ingressar na política?

Acho que a necessidade de Maués. Nunca sonhei em ser político. Muito menos ser prefeito da minha terra. Não era um projeto pessoal nem político. Só que houve apelo da Igreja Católica, dos evangélicos, empresários, anônimos. Todo mundo se uniu e durante um ano ficaram, entre aspas, me perturbando para eu ser candidato. Aceitei ser candidato no dia 21 de junho, uma semana antes da convenção. Eu me tornei prefeito para servir. Se não for essa razão não tem sentido pra mim. Não vou trocar a tranquilidade da paróquia por essa vida turbulenta da política se não for para servir. Acredito que existe gente honesta na política. Acredito que dá para fazer uma política diferente e que dá para responder aquilo que a população almeja de você. Eu tenho feito isso. Fico muito feliz quando tenho que assinar cheque para comprar merenda escolar, quanto faço depósito para pagar médicos, comprar remédios. Fico muito feliz quando tenho que ordenar despesa que é para o bem comum da sociedade. Quando fato isso me sinto realizado.

A prática de ser prefeito está próxima do que o senhor imaginava?

Fiz gerência e liderança na área de administração. Então já tinha uma noção. É claro que não de administração pública. Mas como pároco acabava sendo administrador e ordenador de despesa. Isso me deu a noção. E depois tive muita curiosidade em aprender. Mas se a gente coloca cada coisa no seu lugar, não tem porque dá errado. O dinheiro da saúde é para saúde, o da educação é para a educação. Mas com certeza é diferente daquilo que a gente imaginava.

Que características do padre  estão sendo úteis para o prefeito Carlos?

Acho que o espírito caritativo. Fazer caridade não é apenas para quem é religioso. Fazer caridade é para todo cidadão de bem. Antes de entrar na política, uma amigo padre me dizia: Carlos, a melhor maneira de fazer caridade é através da política. Você tem o poder, entre aspas, o recurso e os meios. Então, só não faz se não quiser. E depois a sensibilidade de lidar com as pessoas que ajuda muito. Outra coisa que me ajuda muito é a honestidade e a transparência. Isso me deixa dormir tranquilo. É claro que nesses seis meses teve vezes que eu dormi intranquilo, tive momentos turbulentos. Mas te confesso que o fato de trabalhar com honestidade te dá condições de dormir tranquilo.

O senhor dormia mais quando era padre ou agora?

Eu dormia mais. Como padre, eu achava que trabalhava muito. Mas hoje trabalho muito mais. Cheguei momento, no início do governo, de dormir três horas por dia. Mas percebo que isso não é muito saudável. Acordo cedo e não durmo muito cedo. No fim de semana procuro, na parte da manhã, fazer minhas visitas, tenho um programa de rádio. E à tarde procuro descansar bastante.

O senhor tem um programa de rádio?

Tenho, o “Guaraná com o prefeito”. Todos os domingos, no horário de 8h ás 10h.

O senhor falava em rádio quando era padre?

Como pároco eu também apresentava um programa. O “Encontro com o pároco”.

Essa presença no rádio lhe ajudou ganhar popularidade?

Não sei. Acho que tudo é válido. Um meio de comunicação, dependendo da forma como é usado, pode ser um bem ou um mal. Mas é claro que favorece. Acredito que acabou ajudando. Até porque eu só falava de coisas boas no rádio.

O que o senhor fala no “Guaraná com o prefeito”?

Acaba sendo uma prestação de contas. Todo domingo eu presto conta da semana e faço alguns anúncios, inclusive com dados.

Como a Igreja Católica trata essa questão de padres disputando eleições e ocupando cargos de gestores públicos?

A igreja não prepara padres para a política. Prepara para servir a sociedade, seja na área religiosa ou social. Mas cada caso é um caso. É claro que num primeiro momento, a igreja, de maneira muito sábia, questionou para que eu não fosse candidato. Mas no meu caso houve a sociedade que se reuniu e fez esse apelo. Durante um ano a gente dialogou com a igreja. Mas não foi fácil não. Foi a decisão mais difícil da minha vida aceitar ser candidato a prefeito. A igreja olha com respeito. Ela não aconselha padres seguirem a carreira política, mas respeitaram minha decisão.

Fora da prefeitura, o senhor volta a vestir a batina?

Sim. Eu fui afastado por quatro anos. Vou cumprir esses quatro anos e o futuro pertence a Deus. Vamos trabalhar com tranqüilidade, mas pretendo sim. Nunca cogitei deixar o sacerdócio.

O que lhe motivou escolher o PT como partido?

Lá no município a maioria do pessoal é do PT. Acredito muito que com o presidente Lula o Brasil mudou. Vejo, como prefeito, que nunca houve uma distribuição de renda tão direta para os municípios como agora. O problema é que certos gestores não fazem o recurso chegar a sua finalidade. Sou meio fã do Lula. E acredito que o PT ajudou a transformar o Brasil.

Quais hábitos o senhor teve que mudar após ser eleito prefeito?

Não mudou muita coisa. Hoje não estou rezando a missa. Mas vou à missa quase todos os dias. E procuro levar minha vida o mais natural possível. Atendo o pessoal na prefeitura, já fazia isso não paróquia. Ser prefeito hoje, pra mim, é muito natural. Como a gente costuma dizer, não subiu para a cabeça, não.

O senhor não mora mais na paróquia?

Não. Passei a morar em residência. Meus pais moram lá na cidade, às vezes fico com eles.

A casa é sua?

Não. É alugada. Não tenho residência própria. Às vezes fico na residência dos meus pais, ou na do vice-prefeito.

O senhor mora só?

Não. Moro às vezes na casa dos meus pais. Vou para a casa do vice-prefeito, que tem as pessoas que moram lá. E quando estou numa outra residência sempre tem alguém por perto para fazer companhia.

O senhor anda em carro da prefeitura?

Ando em carro meu mesmo. Já tinha antes de ser prefeito.

Qual o modelo?

Uma Ranger antiga. É um carro simples.

O senhor que dirige?

Eu dirijo. Às vezes o motorista dirige pra mim. Se eu perceber que o motorista está muito cansado, eu dirijo. É muito natural isso pra mim.

Que características o senhor considerou para escolher os secretários e assessores do seu governo?

Desde quando começou a campanha observei as pessoas que estavam ao lado. Pontualidade, responsabilidade, honestidade, garra, compromisso. Comecei desenhar um perfil das pessoas que poderiam me acompanhar. Confesso que não foi uma decisão fácil, mas acredito que tomei a decisão acertada.

Ser religioso foi critério para compor seu time?

Em nenhum momento. Pelo contrário. Quando me afastei da igreja e fui eleito disse que ia cuidar de todos os 52 mil mauesense. O critério de escolha foi a competência de cada mauesense. A grande maioria dos evangélicos votou em mim. Hoje tenho evangélico como cargo de confiança. Eu me propus a cuidar de todo o povo de Maués. Se fosse só para cuidar dos católicos estaria lá na igreja.

O que o senhor acha das manifestações populares nas ruas do Brasil?

Estive em Brasília, vi a manifestação da CUT e vi como algo extremamente positivo. Quando ela tem seu foco e conteúdo, é legítima. E Maués não pode ficar de fora disso. Lá tem um povo que luta e tem esperança. Mas houve manifestação em Maués com coisas completamente isoladas.

Por exemplo?

Pagamento de funcionários atrasados, demissão em massa. Isso não é verdade. A cidade está na escuridão, abandonada. Não é verdade. Então, no meu entender, foi algo totalmente orquestrado e direcionado em cima de uma administração que está apenas começando. E outra coisa: salário baixo. Estamos ajustando salário de professores. Inclusive juntamente com o Sinteam local, para rever a questão do PCCS. No dia seguinte a gente fez um grande anúncio. Complemento de renda cidadão, que gera emprego e renda na cidade, aluguel social.

Mas não tinha nenhuma pauta que o senhor considerou legítima?

Sinceramente, eu não consegui perceber. A única coisa que admito é que o salário é baixo. Isso é verdade. Mas não posso ter a irresponsabilidade de aumentar o salário em questão de meses. Até porque trabalho com orçamento deixado pelo gestor anterior. Mas isso tudo nós estamos ajustando. Acredito que num futuro bem próximo a gente dará respostas.

Com esse grupo que foi às ruas em Maués, é possível algum tipo de diálogo? O senhor conversou com eles?

Como eu disse, foi uma coisa totalmente orquestrada.

Por quem?

Acredito que pelos meus opositores. Porque em nenhum momento eu fui procurado por essas classes para dialogar. Já dialoguei com os transportadores escolares, com os professores, marquei com os enfermeiros. Eu trabalho com aquilo que eu recebi. Para ajustar uma casa demora muito. Mas nenhuma dessas classes me procurou para uma conversa. O  que dizia o vereador (Luizinho Canindé - PDT) que foi detido? Que eles queriam tomar a prefeitura. A manifestação era para tomar a prefeitura.  O povo entende que a coisa é lenta e que muita coisa precisa melhorar. Mas o povo também entende que a coisa não pode ser desse jeito. Fui eleito com 35% dos votos entre quatro candidatos fortes. Foram quase 8 mil votos a meu favor. Ganhei uma eleição limpa. Não precisei tomar a prefeitura de ninguém. Em seis meses querem me tomar a prefeitura? Vejo isso com muita tranquilidade.

Perfil

Nome: Raimundo Carlos Goes Pinheiro

Idade: 40

Estudos: Filosofia (no Rio de Janeiro) Teologia e Gerência e Liderança (em São Paulo).

Experiência:  Nasceu na comunidade Liberdade, em Maués. Aos 16 anos, saiu do município para estudar.  Antes de ser prefeito comandava a Paróquia Nossa Senhora da Conceição e Divino Espírito Santo.

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