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Cotidiano
Pais e Filhos

Afinal, devemos ou não devemos deixar as crianças rabiscarem as paredes da casa?

Polêmica envolvendo paredes desenhadas pelos filhos da culinarista Bela Gil propõe um novo olhar sobre os rabiscos - e a ausência deles 14/05/2018 às 12:08
Show aqua
Os pequenos ficam mais interessados em representar suas emoções por meio dos rabiscos dos dois aos cinco anos
Laynna Feitoza Manaus (AM)

Duas crianças aparecem num vídeo da culinarista Bela Gil escorregando em colchões. São os filhos da moça, Nino e Flor, cujo momento de lazer a alegra: afinal, quando criança, Gil também tinha esse costume. Bela filmou a brincadeira e postou em suas redes sociais. Logo, o que foi protagonista de um grande debate não foi a brincadeira em si, mas o fundo do vídeo, que mostrava as paredes da casa pintadas e rabiscadas com canetinhas de colorir. Teve gente que repudiou a permissividade da mãe, e teve quem apoiasse a atividade. Entre os limites e a expressão artística, qual é o significado dos rabiscos (e da ausência deles) nas paredes?

A atriz Hortênsia Labiak, mãe de Ariel, 10, delimitou em sua casa uma parede ao filho, onde ele pode fazer o que quiser (desde que a parede continue em pé, segundo ela). “Os amigos vem, desenham junto, ele cola adesivos, tira, pinta com tinta, giz, cola, lápis, faz experimentos, se diverte e se reconhece nisso. É pura expressão de sentimentos, identidade, confiança mútua e autonomia. Afinal, parede a gente lixa, pinta e está nova. Mas a criatividade, confiança e lembrança ficam para sempre”, comenta ela.

(Hortênsia e o filho Ariel pintam as paredes até hoje. Foto: Divulgação)

Por outro lado, o fotógrafo Bruno Zanardo alega que a filha, Alice, 5, nunca rabiscou as paredes e que não aceitaria que isso acontecesse. “Acho que é uma questão de disciplina. Uma diferenciação entre o que é dela (as bonecas dela são todas riscadas, maquiadas) e o que é coletivo. Além do respeito pelo que não é dela. Assim como eu respeito e incentivo, ela brinca da forma que quiser com os brinquedos, papéis, livros dela. Ela nunca fez isso [riscar as paredes] e nunca precisei repreender por ter feito”, pondera ele.

(Ao invés de riscar as paredes, a pequena Alice rabisca as bonecas. Foto: Evandro Seixas)

Durante a primeira infância de Letícia, 8, filha da instablogger Renata Andersson, era difícil limitar a criatividade apenas na folha de papel. “Mas sempre buscávamos ensinar sobre a importância de manter o lar bem cuidado (ainda mais pelo fato não ser moradia própria). Uma alternativa que optamos foi desde sempre dispor de kit arte com papel ofício, lápis de cor, tinta e afins, e a liberdade de expor suas obras na geladeira. Era algo que ela sempre se orgulhava... quando fazia um desenho ela corria para colocar na porta da geladeira. Hoje com 8 anos ainda desenha e recebe desenhos das amigas. Temos uma pasta onde guardamos suas artes”, coloca

Desenvolvimento

O desenho é a base do desenvolvimento da criança, e é essa a atividade que irá anteceder a escrita e ser a forma de expressão dos pequenos. É o que aponta a psicóloga Thatyanny Fernandes. “É importante ressaltar que cada criança se desenvolve de um jeito diferente, cada criança tem seu ritmo e é importante respeitarmos isso. No entanto, a maioria das crianças consegue segurar um giz de cera e rabiscar um papel por volta dos 12 ou 13 meses. A partir daí, entre os 2 e os 5 anos de idade, os pequenos ficam cada vez mais interessados em expressar e representar e suas emoções por meio dos desenhos”, pontua.

(A psicóloga Thatyanny Fernandes justifica o desejo das crianças por rabiscos na parede. Foto: Divulgação)

Ainda segundo ela, quanto mais permitimos e estimulamos as crianças a realizarem seus desenhos e rabiscos, mais estamos contribuindo para o seu desenvolvimento ao nível cognitivo, motor e emocional. E a escolha das crianças pelas paredes não é aleatória. “Alguns estudos apontam que o desenho na parede tende a se tornar mais expressivo do que no papel em virtude da necessidade de uma combinação bem afinada entre a mão, o objeto utilizado (pincel, lápis etc.) e os gestos da criança ao desenhar. E a explicação para isso se dá por causa da posição vertical da parede, que faz com que o desenho se torne mais expressivo para a própria criança”, explica ela.

Expressão

A artista plástica Luciana Severo, que mantém o atelier de artes infantil Luciana Severo Kids, apoia a expressão infantil, embora avalie ser importante a imposição de limites. “Toda criança tem que ter o seu espaço no mundo para expressar suas aptidões, seus desejos e sua criatividade. Os pais devem apenas limitar este espaço. Muitos pais reservam um local da casa para que as crianças possam riscar e rabiscar seus desenhos de forma livre. Isso é educar, com responsabilidade, é dar limites e ao mesmo tempo despertar as crianças para as brincadeiras lúdicas e saudáveis. Nesse mundo cada dia mais tecnológico, nossas crianças passam tempo demasiado nos aparelhos eletrônicos e perdem parte de sua infância”, acrescenta a artista.

(A artista plástica Luciana Severo. Foto: Paula Moreira/Divulgação)

Severo adianta, porém, que são necessários alguns cuidados na hora dos pequenos rabiscarem as paredes. “O ideal é usar sempre tintas solúveis em água. E observar alguma reação alérgica nas crianças. Há muitos produtos nacionais e importados que são antialérgicos. Há inclusive receitas de tintas que podemos facilmente encontrar pelos canais de Internet, que são feitas artesanalmente e totalmente antialérgicas. Outra opção para muitos pais é pintar uma das paredes da casa com a tinta especial para giz. Eles podem riscar à vontade e basta passar um pano úmido para limpar a bagunça e começar tudo de novo”.

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