Sábado, 15 de Agosto de 2020
HISTÓRIA

Afinal, o que é o fascismo? Termo tem sido usado por contrários ao governo Bolsonaro

Descubra o que significa, o que este movimento defende, quais as suas consequências e como funciona no Brasil



facismo_3163C241-354A-4221-9CEE-22C3A54E8F22.JPG Foto: Divulgação
07/06/2020 às 13:06

Nos últimos dias muito tem se falado em combate ao fascismo. O termo voltou ao centro do debate após manifestantes autodenominados antifascistas saírem às ruas para protestar em defesa do regime democrático e que tomou as redes sociais de posts e hashtags fazendo referência ao movimento antifascista no Brasil. Mas, o que significa esses termos? O que este movimento defende? Quais as suas consequências? E no Brasil, como funciona?

De acordo com especialistas consultados por A CRÍTICA, fascismo é uma ideologia ultranacionalista que surgiu no início do século 20 com a ascensão de regimes totalitários, na Itália (Mussolini), Alemanha, (Hitle), Portugal (Salazar) e Espanha (Franco), que defendiam o Estado forte, culto a tradições, métodos poucos democráticos de debate e aplicação das leis, paramilitarismo, autoritarismo e uso da violência expressa no combate ideológico e repressivo contra minorias étnicas, a ciência e os meios de comunicação livres. O mestre em história, Juarez Clementino da Silva frisa que termos e conceitos não são estáticos, podem ser acrescidos de novos significados e até ressignificados.



No Brasil, o movimento que mais se aproximou do fascismo foi a Ação Integralista Brasileiro (AIB), criada por Plínio Salgado, que resgatou a exaltação aos símbolos nacionais e o paramilitarismo. Segundo Juarez, o fascismo caracteriza-se pela apropriação de símbolos nacionalistas, por exemplo, as cores da bandeira e a camisa da seleção do país, slogan que remete a ufanismo e a um patriotismo exacerbado. “Isso é comum no fascismo no mundo todo e no Brasil não é diferente. Estamos vivenciando um fascismo renascido, remodelado e que mantém muito do fascismo original. Vários slogans que são comuns hoje foram utilizados no fascismo italiano e no nazismo alemão. Algumas técnicas, táticas e propaganda igualmente”, explicou o historiador.

Para o sociólogo Pedro Rapozo, o AIB está ressurgindo no país, citou ainda o movimento de extrema direita ‘300 do Brasil’, que apoia o presidente da República Jair Bolsonaro, e atos em apoio à intervenção militar e o fechamento do Supremo Tribunal Federal. “Me preocupa que um governo eleito corrobora para um movimento que poderia nos levar institucionalmente a um Estado de Exceção e violência em todo o país. Já assistimos uma violência institucional promovida pelo Estado contra povos indígenas, o movimento negro, LGBTQ e tais atitudes dos apoiadores só reforçam a política governamental para acirrar o debate polarizando a discussão entre os que o apoiam e aqueles que o criticam, fragilizando ainda mais nosso sistema de organização político-democrático e suas instituições”, disse.

O historiador pondera que o crescimento do fascismo coloca imediatamente em risco a democracia. Entre as consequências dessa ideologia, segundo Juarez, está o fomento a uma sociedade menos democrática e diversa, tendência ao autoritarismo, à ditadura, o desrespeito à diversidade e o apoio à violência policial. “Mesmo que o fascismo histórico não seja o que a gente tem hoje, na realidade, é uma tentativa de repetir o que já ocorreu. Quando a gente conhece a história, de imediato, reconhece que se está tentando reproduzir o que já foi feito. Não temos a garantia de que as consequências serão as mesmas, mas essa história eu já vi, já sei mais ou menos como vai terminar”, declarou.

Na avaliação do sociólogo, o governo Bolsonaro, embora eleito democraticamente, coaduna com características do fascismo, sobretudo, expressas nos apoiadores. “De maneira racional e irracional, eles corroboram para pôr em pauta esta discussão. Embora Jair Bolsonaro seja desprovido da capacidade intelectual de compreender historicamente o que foi o fascismo, quem o apoia o faz ainda que também não o compreenda. Esta afirmação pode ser entendida no momento em que assistimos seu governo sendo movido por ideologias que historicamente representaram os regimes totalitários como o negacionismo do conhecimento científico, o revisionismo da história e a exaltação aos valores cristãos, ideologias estas ratificadas com apoio popular de seu eleitorado”, enfatiza Rapozo.

Saiba mais

Historicamente, o antifascismo surgiu como frente de oposição ao fascismo e aos regimes totalitários europeus na primeira metade do século 20. O primeiro movimento antifascista, ou antifa, também surgiu na Itália. Segundo o historiador Juarez Clementino, o antifascismo tem raízes históricas no comunismo, socialismo e anarquismo. “O fascismo é antidemocrático e o antifascismo combate essa antidemocracia que o neofascismo vem trazendo. Os valores do antifascismo são democráticos, solidários e anti-autoritários”, explicou.

Blog: Robeilton Gomes, professor de história e doutorando em história

“É necessário considerar o fascismo como experiência, conceito e representação. Do ponto de vista da representação há muitos traços que associam o pensamento e a ação de membros do governo (Bolsonaro) com o ideário fascista. Como experiência concreta nós temos, no Brasil, grupos radicais que se veem representados por diversas falas do presidente, ou mesmo pessoas que estão ou passaram pelo governo, cujas ideias são controversas com Roberto Alvim (ex-secretário de cultura) e seu discurso parafraseando Joseph Goebbels (Ministro da Propaganda Nazista). Internacionalmente tivemos a fala de David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan em apoio ao então candidato Jair Bolsonaro, em 2018. Mais recentemente o grupo autointitulado “300 do Brasil”, liderados por Sara Winter, que reproduz, inclusive na estética e nos slogans, grupos de extrema direita e de defesa da supremacia racial branco de outros países. Ainda que essas manifestações concretas sejam rechaçadas, como foi em 2011 o apoio dado pelos “Carecas do Subúrbio” a Jair Bolsonaro, há de se questionar porque tantos extremistas se veem representados pelo governo atual. Não é mera coincidência. O termo fascista virou ofensa, isso faz com que sejam minorias clandestinas que assim se autodenominam, o que não impede que a identificação ideológica aconteça. Se pensarmos que o slogan “Deus, Pátria e Família”, assumido pelo presidente é literalmente o slogan do Integralismo, no mínimo, vemos uma identificação com todas as pautas daquele movimento. Resta ainda saber se essa adesão é proposital ou inconsciente, já que inconsequente não parece ser. O movimento fascista, tanto o internacional quando o nacional, foi uma ideologia de extrema direita pensada por intelectuais que alcançaram renome. Não é o caso de membros do governo e notoriamente nem do presidente. Plínio Salgado tinha ideias firmes e consolidadas, o atual presidente parece apenas replicar frases prontas que nem sempre sabe a origem, assim seja quando questionado. Aliás, não só ele, o presidente americano Donald Trump, recentemente questionado pela frase “quando começam os saques, começam os tiros” quando das manifestações em Minneapolis, disse não saber a origem da frase, que apenas repetiu o que sempre ouviu. A frase em questão é atribuída a Walter Headley, chefe de polícia de Miami, notório por reprimir violentamente os negros americanos.

Se tomarmos a pé da letra a frase dita pelo Ministro da Educação Abraham Weintraub: “odeio a expressão povos indígenas”, ou o slogan do governo “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e tantos outros gritos mais contundentes nas manifestações pró-governo não tem como não associar a pensamentos fascistas de supressão das diferenças. Isso soa extremamente antidemocrático e incoerente com um país de tanta diversidade cultural e étnica como o Brasil. Diante dessa diversidade até mesmo os integralistas das décadas de 30 e 40 tiveram que se render e adaptar a ideologia fascista para um tipo “à brasileira”, nesse sentido, o governo atual demonstra um autoritarismo maior, a ver pelo pouca importância dadas as milhares de vidas perdidas na pandemia,  descaso com os povos indígenas que morrem à míngua pela mesma doença, a revogação das políticas de demarcação de terras quilombolas, a questionamento constante às cotas sociais para ingresso nas universidade e concursos públicos, ou ainda, mais lamentavelmente quando um representante de uma entidade de classe chama aqueles que deveriam se sentir por ele representados de “escória maldita”.

News larissa 123 1d992ea1 3253 4ef8 b843 c32f62573432
Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.