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Cotidiano
Realidade Urbana

Agências bancárias servem de abrigo noturno para moradores de rua em Manaus

Espaços internos e as calçadas das instituições bancárias da cidade são moradia para dezenas de "habitantes da noite"; histórias permeadas por dramas, perdas e violência marcam a vida dessas pessoas na capital amazonense 09/04/2016 às 23:05 - Atualizado em 09/04/2016 às 23:23
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Solitário morador de rua dorme tranquilamente tendo a companhia de um usuário do Banco Itaú, da avenida Sete de Setembro, fazendo uma operação bancária / Fotos: Aguilar Abecassis
Paulo André Nunes Manaus (AM)

O vai-e-vem das agências bancárias da cidade dá lugar, à noite, ao sono gelado de vários moradores de rua que escolheram esses locais para “pernoitar” e evitar o máximo possível o frio e o relento. Esse tipo de “moradia” não escolhe cor, sexo e credo, observou a reportagem de A CRÍTICA, que acompanhou algumas dessas pessoas que utilizam tanto a área externa quanto a interna (caixas eletrônicos) desses estabelecimentos bancários.

O lavador de carros e catador de latinhas Ercílio Fernandes Guimarães, 35, há 10 anos é morador de rua e há 5 deles “deita em berço esplêndido” de 22h às 5h30 no interior da agência do banco Itaú da avenida Sete de Setembro, Centro. Assumindo ter sido o vício pela bebida, especialmente a cachaça, a causadora por lhe fazer sair de casa (morava no bairro Braga Mendes), ele diz que prefere a segurança das instituições bancárias a ter que dormir em outro banco: o das praças. “Por exemplo: Deus me livre de ter que dormir nos bancos dessas praças em Manaus. É muito perigoso até para nós que estamos acostumados com as ruas”, disse ele, pai de uma criança de 9 anos.

Vítima das ruas

Nascido em Boa Vista, Geraldo Gomes de Souza, de 57 anos de idade, desde os 9 perambula pelas ruas de Manaus. Ele “escolheu” há alguns anos a entrada da agência Praça 15 de Novembro do Banco do Brasil, na Praça da Matriz, para pernoitar. “Durmo aqui e em todo canto. Peço dinheiro dos outros”, conta ele, de poucas palavras.

Geraldo é uma das vítimas dos crimes noturnos da cidade: aposentado por invalidez, ele sofreu há alguns anos uma fratura na bacia e na perna direita, que dificultam sua locomoção e o obrigam a se mover com um andador metálico. E, pra piorar, há dois meses ele teve roubado seu cartão de benefício social do INSS e, por conta de não possuir nenhum documento, não consegue bloqueá-lo.

“Ele está em uma situação complicada pois tem problemas de saúde e ainda foi lesado. Já tentamos ajudá-lo, mas seus documentos foram furtados. O seo Geraldo precisa de ajuda”, alerta Selma Frade, que diariamente acompanha a via crucis do morador de rua: é recepcionista da agência onde ele dorme.

Facilidade

A entrada dos moradores de rua, especificamente na área de caixas eletrônicos, é facilitada porquê nem todos os bancos costumam bloquear esse setor em especial. Por determinação do Banco Central, esses guichês deveriam funcionam de 6h às 22h, sendo que, em agências como o Banco do Brasil, por exemplo, é de 6h30 às 18h30.

“Após esse horário nós fechamos as portas, impedindo que eles durmam no interior. Mas mesmo assim os mendigos se alojam na porta de entrada, fazendo suas  necessidades e sujando o local”, disse o administrativo predial da agência 15 de Novembro (Praça da Matriz) do Banco do Brasil, Caio Lopes.

Aspecto que divide opiniões entre população

O fato dos moradores  de rua dormirem no espaço das agências bancárias divide opiniões. Contra, por exemplo, está o comerciante David Batalha, 33, que tem uma banca de café regional próximo ao banco Santander da avenida Ayrão com rua Comendador Clementino, onde geralmente uma família de rua se “hospeda” à noite. “Eles abordam os clientes e pedem dinheiro. Mas a gente não permite que eles mexam com ninguém”, destaca ele.

O casal Camila Amorim, 57, e Moisés Farias da Silva, 71, utiliza o Itaú da avenida Sete de Setembro e também critica a permanência deles na área. “Acho isso muito errado. Sou totalmente contra. É perigoso. O certo seria que as agências trancassem as suas portas evitando que eles  entrassem pra dormir”, aconselha o aposentado que, junto com a sua esposa, mora no Rio Pioriní, Zona Leste.

A favor dos moradores de rua está o jornaleiro Olivar Timóteo Almeida, 58, que há 35 anos trabalha em uma banca de revistas em frente ao Itaú entre a avenida Sete de Setembro e Floriano Peixoto. Ele ressalta a solidariedade e prestividade dessa parcela excluída da sociedade: “Os moradores de rua são pessoas bacanas. Eles até fazem serviços pra gente, como  ir na loteria fazer pagamentos” .

No entanto, até o próprio Olivar Almeida tece críticas aos pedintes. “Eles não pertumbam a gente, nem roubam e tampouco matam ninguém, mas ficam bebendo e mijando nesses locais, deixando um odor desagradável”, pontua o jornaleiro.

EM NÚMEROS

Há 1.331 moradores de rua cadastrados em Manaus no banco de dados da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh). Desse universo, cerca de 140 é acompanhado pelo Centro de Referência Especiaizado para a População em Situação de Rua (Centropop) do órgão. A informação é da coordenadora do Centropop, Bárbara Silva. E 340 já saíram da condição de moradoers de rua.

"Esses moradores de rua que dormem nas agências também são acompanhados. Eles ficam nessa situação devido a maioria passar o dia nas ruas trabalhando, e como moram longe, utilizam a rua como espaço de trabalho. A maioria em torno do Mercado Adolpho Lisboa como estivadores e trabalhadores. E para não voltar para a casa eles acabam dormindo nas ruas", explica Bárbara Silva.

FRASE

"Moro há 10 anos na rua e há 5 eu durmo dentro dos bancos” - Ercílio Guimarães, 35 anos, morador de rua que dorme em agências bancárias

BLOG

Caio Lopes, Administrador Predial do Banco do Brasil

“Trabalho na área de administração predial aqui da agência da Praça 15 de Novembro (Matriz) e sobre esse problema de mendigos estarem dormindo e andando nas calçadas  nós já tentamos apoio dos órgãos competentes, mas pelo visto nada foi feito ainda. “Temos” um que dorme direto aqui, e faz as suas necessidades no local. Todos os dias pela manhã nós lavamos as calçadas que ficam cheia de comidas, urina, fezes... Mas infelizmente isso não compete só ao Banco do Brasil. A rua é estreita, tem vários ambulantes. Enfim,  aqui é um caos. Acho que aqui não é um local adequado para essas coisas. No caso dos mendigos, aqui deveria ser feita uma ação social. Infelizmente não podemos tirar quem “habita” aqui na calçada do banco. Vamos pelos meios legais. Além disso tudo os clientes do banco reclamam pois vêm utilizar os serviços do banco e não é nada bom se deparar com uma situação dessas. A genge tenta explicar mas eles não compreendem. Acham que o problema é só dos bancos, que são as agências que têm que tomar alguma atitude. Solicitamos mais rigidez dos órgãos envolvidos quanto a essa questão. Aqui é a entrada da cidade. Imagino um turista chegando via fluvial, descendo as rampas  do Porto e encontrando esse cenário que não nada agradável para a nossa cidade”

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