Terça-feira, 18 de Junho de 2019
ENTREVISTA

‘Agora o carequinha aqui saiu da toca e foi pra rua’, diz Melo sobre balanço de 2016

José Melo (Pros) chega à metade de sua gestão comemorando equilíbrio das contas públicas e afirma que não aceitará perder o mandato para "alguém citado na Lava Jato por receber propina"



27/12/2016 às 05:00

Sob o peso de administrar em tempos de queda na arrecadação e à sombra de um processo de cassação de mandato, José Melo (Pros) chega à metade de sua gestão admitindo que o cenário tem lhe cobrado um alto preço no campo político. Mas, administrativamente, comemora ser um dos poucos governadores com as contas equilibradas e longe da falência.

Em reação ao desgaste político, Melo diz que mergulhou no governo, e agora o tem nas mãos. O governador comemora o equilíbrio das contas públicas e sustenta que, mais que nunca, não aceitará perder o mandato para “alguém citado na Lava Jato por receber propina”. A seguir, trechos da entrevista.

Governador, 2016 foi um ano difícil para todos os estados, as finanças do Amazonas resistiriam a mais um ano desses?

Se por acaso não houver mais nenhuma novidade e a gente conseguir aprovar a Lei da Previdência, em março, o País começa a respirar muito lentamente. Mas dois fatores foram muito importantes para o futuro da Zona Franca de Manaus. O primeiro uma resolução da Organização Mundial do Comércio que condenou o Brasil por dar incentivos fiscais fora da Constituição e do Confaz. E disse que ressalvada a Zona Franca de Manaus pelo papel que presta à floresta. Significa dizer que essas empresas que estão lá virão para cá com toda certeza. E a outra foi uma decisão do Supremo Tribunal Federal que disse o seguinte: incentivos fiscais só os da Zona Franca de Manaus. Esses dois fatores vão trazer essas empresas cá. Se esses fatores acontecerem e em março a economia começar a crescer imagino que em junho a gente comece a respirar. E se a gente começar a respirar em junho, evidentemente que o próximo ano será melhor que esse. Tomamos muitas medidas no começo do nosso governo. Medidas antipáticas que me desgastaram demais. Mas hoje o Amazonas todo sabe que eu estava certo. Errado estavam aqueles que não tomaram e hoje não pagam o décimo terceiro salário.

Dentre essas medidas, o senhor se arrependeu de tomar a do reordenamento da saúde?

Eu não me arrependi de reformular. Estou fazendo a reformulação. O que me arrependi é de não ter percebido a armadilha em que me colocaram. Reordenamento com fechamento das unidades de saúde. Eu não queria fechar unidade de saúde. Eu queria fazer um arranjo dentro do sistema de saúde para que ele ficasse mais célere e mais eficiente. E eu estou fazendo com um grupo pequeno de pessoas ao lado do meu gabinete sem alarde. Tanto é que você pode ir ao João Lúcio e quaisquer outros hospitais, que estão todos funcionando, apesar da crise. Você vai ao Cecon totalmente repaginado. Você vai ao Francisca Mendes estamos comprando uma nova hemodinâmica, mais três tomógrafos. A rede continua funcionando. Só nós, porque a Prefeitura de Manaus não cumpre o seu papel na atenção básica. Mais de 90% de tudo da urgência e emergência é dentro do meu hospital quando deveria ser em posto de saúde.

Na Operação Maus Caminhos, o Governo do Estado foi roubado mesmo?

Em primeiro lugar, deixa eu te dizer como isso aconteceu. Há uns seis meses a Secretaria de Saude recebeu um ofício da CGU pedindo informações sobre essa empresa e pedindo informações sobre o tipo de serviço que o Estado adquiria dessa empresa, valores gastos e etc. O secretário veio despachar comigo e eu disse: pode fazer. Entregue todas as informações. Afinal de contas, tudo isso está no nosso portal da Transparência. Isso deu início a um trabalho que depois redundou na operação. Eu determinei internamente uma auditoria. E determinei a todos os meus secretários que dessem todas as informações pedidas pelo Ministério Publico Federal, Estadual, seja quem quer que seja, porque eu quero o esclarecimento disso. Eu quero a verdade. E se foi levado o dinheiro da saúde eu quero de volta. Eu quero que me devolvam para eu aplicar na saúde. E quem tem suas culpas que espie, que pague. Eu não posso passar a mão por cima de dinheiro público. Eu sou um homem que a vida toda tive esse tipo de comportamento. Tanto é que enfrentei uma campanha política, a mais sórdida que você pode imaginar. Mas nunca vieram assacar contra a minha honra porque eu não faço.

E sobre o processo de controle da Secretaria?

Na minha avaliação pessoal, a Secretaria de Saúde tinha que ter um sistema de fiscalização mais eficiente. Sistema esse que nós estamos construindo agora. Para se ter uma ideia da loucura, a Susam tem mais de 600 contratos. Tinha gente comprando cibalena. Agora determinei e as compras estão todas centralizadas. Agora eu tenho comando, eu tenho estrutura para ajudar o Pedro Elias a gerir a saúde porque ele estava sozinho, coitado. Ele não tinha essa condição. Todo o meu governo, toda a estrutura de inteligência do meu governo esta a serviço da secretaria de Saúde para a gente poder ajustar a saúde, retirar as gorduras, a má gestão aqui e acolá para que os recursos da saúde se destine para o remédio, para a cirurgia, para o exame, para aquela finalidade.

Durante o processo eleitoral deste ano, alguns aliados como o prefeito Artur Neto se afastaram do senhor. Outros aliados também se afastaram?

As pessoas me consideraram leproso nesse processo político porque as medidas que eu tomei para sustentar a economia do Estado foram duras e antipáticas e me desgastaram politicamente. Essa história do fechamento de unidade de saúde também me desgastou demais. Veio o processo político e as pessoas imaginaram: o governador está leproso. Deixa ele pra lá. Como me consideraram leproso, eu fiquei na minha. Mergulhei para dentro do meu governo para poder organizar o meu governo, para chegar em dezembro, enquanto todo mundo chora, eu sorrio. Estou pagando as minhas contas. Estou pagando o décimo, passei o dinheiro para os poderes. Estou socorrendo com R$ 5 milhões a Defensoria Pública que não tinha dinheiro para pagar o décimo terceiro. Estou feliz da vida porque fiz dois contratos de R$ 300 milhões cada um. Feliz da vida porque tenho R$ 350 milhões para investir. Eu mergulhei para poder fazer a minha gestão enquanto a campanha política corria. Agora são outros quinhentos. Agora eu tenho um Estado moderno, administrável. Agora eu tenho o governo na minha mão. E agora o carequinha aqui saiu da toca e foi para a rua.

Como o senhor avalia o fato de Manaus ter um prefeito citado na Lava Jato?

Tem duas coisas que eu me meto muito pouco. Uma eu nem me meto. É a questão de família. Você nunca vai me ver falar mal das pessoas. A outra coisa é uma operação que está judicializada. O que eu acho é que tem muita gente que se diz vestal e de repente você descobre que de freira não tem nada. Eu espero que isso aí tenha o esclarecimento necessário para que população e o eleitor saiba exatamente quem é quem. De minha parte, eu durmo todo dia tranquilo. Porque eu não me abasteço daquilo que não é meu. Não meto minha mão na coisa pública. Mas quem tem que cuidar disso é o Judiciário. Não pré-julgo. Não tenho acesso ao processo para estabelecer culpa de ninguém.

E o seu recurso no TSE?

Eu me recuso a aceitar que tomem o meu mandato que foi conquistado com muita luta e foram 173 mil votos de diferença. Que tomem o meu mandato no tapetão para colocar na mão de alguém que está acusado na operação Lava Jato. Por isso vou lutar até o fim para mostrar aos tribunais superiores os erros e as inconsistências daquele processo onde eu fui cassado por compra de votos e não tem uma testemunha que diga que vendeu o seu voto. Onde tem um relatório que diz assim: tudo leva a crer. Então se cassa um governador porque tudo leva a crer? Sem nenhuma consistência. Eu vou até o fim porque eu me recuso a entregar o governo que eu batalhei para organizar na mão de alguém que está sendo citado na operação Lava Jato por recebimento de propina.

As máquinas do governo e da prefeitura vão conversar?

Eu tenho vários investimentos que vou fazer em Manaus. Desses R$ 300 milhões, R$ 150 milhões vou aplicar na cidade. Eu tenho compromisso com Manaus. O meu governo continuará cumprindo os compromissos com a cidade. O prefeito vai cuidar das coisas dele pra lá e eu vou cuidar da cidade de Manaus pra cá. Eu perdi a eleição no interior do Estado no primeiro turno e ganhei em Manaus. Dos 173 mil votos que tive de diferença para o Eduardo Braga, 168 mil foram a cidade de Manaus que me deu. Vou honrar esses compromissos todos. Mas do meu jeito, com os meus caminhos. E os outros que sigam o caminho deles.


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