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“Agora o seringal é no punho da rede”, afirma seringueiro em relação às mudanças no ramo

Com a modernização dos seringais, rotina das novas gerações de seringueiros é bem diferente da vida dos antepassados deles 24/06/2013 às 08:20
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Para o seringueiro Adolfo Saunier, 55, a modernização dos seringais mudou o processo de extração do látex no Amazonas e permitiu o retorno dos seringueiros
Ana Celia Ossame ---

O cenário dos seringais dos tempos modernos não guarda qualquer semelhança com o do tempo dos Soldados da Borracha, no período da Segunda Guerra Mundial, quando era espaço de escravidão, doença e tragédias, objeto de pesquisa do mestrando Frederico Alexandre de Oliveira Lima. “Agora o seringal é no punho da rede”, afirma Josué Afonso Barbosa, 44, que trabalha no seringal de cultivo Piquié, na comunidade São José 2, no Município de Itacoatiara (a 180 quilômetros de Manaus).

A comparação feita por Josué é para lembrar que nos seringais nativos, os trabalhadores eram obrigados a percorrer longas distâncias para dar conta de uma produção de leite. Nos seringais de cultivo, ainda poucos no Estado, as árvores são plantadas próximas umas das outras e delimitadas a uma área, o que facilita a coleta. Outro fator importante para o crescimento da atividade, são os subsídios dados pelos governos federal e estadual, assim como de algumas prefeituras.

No ano passado, por meio da Agência de Desenvolvimento Sustentável (ADS), o governo repassou, ao pagamento da subvenção da borracha, mais de R$ 800 mil, beneficiando 13 associações, ou 1,2 mil famílias de extrativistas de seringueiros residentes nos municípios de Manicoré, Lábrea, Canutama, Pauini, Boca do Acre, Eirunepé, Carauari e Itacoatiara. O dinheiro equivale ao pagamento de R$ 1 ao seringueiro para cada quilo da borracha natural comercializada, mediante apresentação da nota fiscal de vendas. De acordo com a ADS, duas mil famílias em 18 municípios têm a missão de fazer renascer a matéria prima, o látex, que sai da seringueira.

História

Eleito presidente da Cooperativa de Seringueiros de Itacoatiara e outros seis municípios, Adolfo Saunier, 55, confirma os dias tranquilos para quem trabalha com seringa. Sem precisar fazer o processo de defumação, causador de danos sérios à saúde, ele conta já ter cortado muita seringa quando era adolescente, tarefa abandonada por falta de mercado. Na retomada, sente-se otimista. “Temos outra atividade, além de borracha, mas os ganhos com ela melhoraram para os produtores, pois temos dinheiro que não existia antes”, explica ele, citando que, com o financiamento, os agricultores começaram a melhorar as condições de vida.

Na associação comandada por ele, estão pessoas dos municípios de Nova Olinda, Autazes, Maués, Itacoatiara e Urucurituba e Silves. A produção é entregue a Iranduba e Manicoré.

Casado, com três filhas e um neto, Saunier mora na comunidade Paraná da Serpa, em Itacoatiara, e respira, literalmente, outros ares. A coleta do leite ainda é feita na madrugada, mas não há necessidade de uma jornada tão longa como antigamente e nem de grandes sacrifícios, pois o processo de coalho do leite é facilitado por um produto. Ter conhecido pessoas escravizadas por patrões dos seringais dão a ele a certeza de que hoje vale a pena ser seringueiro. “Nós somos respeitados, isso é novidade que vale a pena saber”, assegura.

‘Má fama’ afasta os novatos

O presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), Manuel Cunha, filho, neto e bisneto de seringueiros atraídos do Ceará com falsas promessas de riquezas, é outro que destaca os novos tempos chegados aos seringais. Para ele, no entanto, o legado de exploração deixado pelos patrões da seringa no século passado ainda é suficiente para desestimular a entrada de novas pessoas na atividade.

Manuel, que passou 18 anos cortando seringa com lamparina, diz que isso impedia os seringueiros verem as onças, que sempre existiram nas matas. 

Natural do município de Carauari (a 702 quilômetros), ele destaca a generosidade de uma seringueira, árvore que, segundo afirma, “dá a sua seiva durante várias gerações”. Segundo ele, que nasceu no Seringal São Romão, colocação Mandioca, foi dali que o pai dele tirou a renda para criar os filhos, da mesma forma que ele também criou os dele. “Se meu pai fosse pescador, eu teria que pegar outros peixes para sustentar minha família, se fosse madeireiro ou agricultor, teria que derrubado madeira ou limpado outras áreas. Esse é o diferencial do seringal, pois as mesmas seringueiras usadas por meu pai e por mim continuam produzindo, porque a natureza é uma mãe”, finaliza.

Memórias do tempo difícil

“Fui Soldado de Borracha no Rio Madeira, em Humaitá. Desde novinho eu trabalhava. Saía 9h da noite chegava ao meio dia para defumar o leite. Dormíamos um pouco e logo tinha que acordar para voltar aos seringais”. O relato é de Manuel Lobato de Castro, 84, que sobreviveu ao tempo em que o adjetivo melhor para estes trabalhadores não era de soldado, mas escravo. “A gente não via dinheiro. Tudo o que era produzido trocávamos por roupa e comida, mas sempre estávamos devendo os patrões”, disse ele, referindo-se aos donos dos seringais, que não os deixavam sair porque estavam em débito.

Das histórias tristes, lembra de um amigo morto por uma onça no seringal e dos escapes de flechadas de índios. Pelas conta dele, conseguia produzir o equivalente a 60 quilos da borracha defumada por semana e para isso tinha que andar na mata carregando uma escada para alcançar o caule das seringueiras mais altas. Manoel disse ter trabalhado com Marina Silva, no Seringal do Bagaço, no estado do Acre, onde conheceu a ex-candidata à presidência da República.

Depois de brincar dizendo ter agarrado uma onça que fugiu deixando só o couro nas mãos dele, Manoel “fala sério” cobrando do governo uma indenização para os soldados da borracha com o dinheiro que os EUA teriam enviado para o País em pagamento à participação dos pracinhas na guerra e dos seringueiros nas florestas. Com um exemplar da poronga, vasilha usada para a coleta do leite, outro da lamparina usada nos seringais, que faz questão de preservar, Manoel pede reconhecimento aos que puseram a vida em risco em prol dos interesses do Brasil. “É só o que precisamos”, afirma.

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