Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
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Alto Solimões está dois metros acima do nível de 2014, afirma Defesa Civil do Estado

Enchente no Alto Solimões e no Alto Juruá está totalmente alterada. Em Tabatinga, água está dois metros acima de 2014



1.jpg No Município de Eirunepé, na região do rio Juruá, as águas já invadiram as cidades e, ontem, a prefeitura declarou Estado de Emergência e planeja a retirada de ribeirinhos para áreas seguras
03/02/2015 às 21:22

Até esta terça-feira (3), no Município de Tabatinga, na região do Alto Solimões,  o rio está dois metros acima do nível registrado no mesmo período de 2014. Em mais alguns dias essa área e mais a região do Juruá - nos Municípios de  Ipixuna e Eirunepé - vão passar da situação de alerta para a de emergência. Se a subida continuar na mesma velocidade, inevitavelmente, o estado será de calamidade pública. “Já estamos na marca do pênalti. Essa subida está muito fora de época porque geralmente é em abril que essa região atinge situação de emergência. O pior é que esse nível reflete diretamente na enchente que atingirá a região de Manaus” disse o Secretário Executivo de Ações de Defesa Civil,  Roberto Rocha.

O quadro, verificado por três equipes da Defesa Civil do Estado  que chegaram domingo das regiões mais afetadas, levam a crer que a enchente deste ano promete ser grande. Os maiores picos devem ocorrer no final de março. As três equipes se dividiram entre o Alto Madeira, Juruá e Alto Solimões. Nas três regiões, o volume de água está muito alto em relação ao ano passado. O Juruá está sofrendo um impacto muito grande, nos Municípios de Envira, Guajará, Ipixuna, Eirunepé e Itamarati.



“O Alto Rio Negro, na região da Cabeça do Cachorro, está subindo rapidamente. Atalaia do Norte, próximo a Benjamim Constant também está sofrendo com muita chuva. Esse fator tem uma influência muito grande nos rios que vem da Colômbia, do Peru e nos da Calha do Solimões”, relata Rocha.

É grande a preocupação dos prefeitos com a subida das águas. Segundo o secretário, a região do Alto Juruá é considerada nervosa. O rio é estreito, a profundidade não é grande e o volume de água que está caindo lá é muito grande. “E também é uma região próxima à Cordilheira dos Andes, muito isolada do Amazonas e a gente tem muita dificuldade de atender a população. Chegamos a passar até oito dias dentro de um barco visitando as comunidades”, revela.

Chuvas

Ele afirma que durante o restante de fevereiro a previsão é de muita chuva na região entre Rondônia, Acre e Atalaia do Norte. Uma realidade que nem sempre se repete da mesma forma. “As pessoas sempre questionam: ‘não sabem que tem enchente todo ano?’. É bom que saibam que a natureza é muito improvável, principalmente nessas regiões de cabeceira. O Governo do Estado fez uma contenção lá em Guajará e em Boca do Acre, só que dependemos do clima. Secar e encher a gente sabe que ocorre todo ano, só não podemos prever é em que proporções e os danos que eles causarão”, disse o secretário.

Decretos

As prefeituras dos municípios de Itamarati, Eirunepé, Envira e Ipixuna, todos localizados na calha do rio Juruá,  já declararam Estado de Emergência por causa da cheia provocada pelo aumento do volume das águas dos rios. O dado é da Associação Amazonense dos Municípios (AAM), que vai começar a monitorar a situação dos municípios amazonenses a partir de hoje. De acordo com esse levantamento, a situação nessas cidades é crítica e moradores de áreas atingidas começarão a ser abrigados em espaços públicos. O decreto municipal, contudo, precisa ser homologado pela Defesa Civil do Estado.

Manaus com suas variações

De acordo com o engenheiro do Serviço de Hidrologia do Porto de Manaus, Walderino Pereira da Silva, a subida do Rio Negro está mais rápida que no ano passado. Ontem o rio teve uma subida de oito centímetros, atingindo a cota de 23 metros e 65 centímetros. Em relação ao mesmo período do ano passado o nível está 24 centímetros acima, entretanto, na concepção do engenheiro, a diferença ainda não é motivo para preocupações.

“Neste primeiro momento ainda é cedo para qualquer previsão. Quando os rios transbordam na região de fronteira, nem sempre essa água vem toda para a região de Manaus. O período é de muitas variações. Imagine que logo no início do ano a cota chegou a 55 centímetros mais alto que no mesmo período do ano passado”, argumenta Walderino. Mesmo a subida estando mais acelerada, na frente de Manaus, o Rio Negro ainda está 6m32cm abaixo do maior pico registrado em todo os tempos que foi de 29,97, no dia 29 de maio de 2012. A subida das águas vai até meados de junho e início de julho, mas o pico é mesmo no final de março.

Motivos

As enchentes são provenientes de três fatores: chuvas regionais, degelo da Cordilheira dos Andes e, consequentemente, o derretimento das neves andinas. Destes, o mais determinante é o primeiro, considerando a densidade de florestas na região e, consequentemente, o volume de água evaporada, por conta de desmatamentos.

Sem intervalo

A preocupação do coronel Roberto Rocha é com a constância das grandes enchentes. Ao contrário de décadas passadas, quase não existe espaçamento.  “Nós estamos vivendo uma realidade muito atípica. Nos últimos seis anos não conseguimos ter um intervalo de pelo menos dois anos de uma cheia para outra. É uma calçada na outra. Entrou na cota dos 29 metros já podemos considerar uma grande cheia. Não conseguimos ter intervalos”, preocupa-se o comandante.

 Essa intercalação compromete completamente a produção agrícola, inclusive familiar, de toda a região. Durante seis meses o produtor tem que limpar a terra e plantar, mas quando começa a colheita a água já está cobrindo o solo. Rocha acredita que o degelo na Cordilheira dos Andes sempre teve uma contribuição considerável para ocorrer as grandes enchentes, entretanto, é a ação humana direta quem mais contribui.

“No sul do Amazonas (área do Madeira) o grande culpado é o desmatamento, é o Arco do Deflorestamento. E agora com a construção da Usina Hidroelétrica Santo Antônio, no Rio Madeira, perto de Porto Velho (RO) houve um grande desequilíbrio. No momento, já estão evacuando cerca de mil famílias porque as comportas já estão sendo abertas. É muita água se espalhando na região. Não podemos falar tecnicamente do impacto ambiental, mas a água que passa pela hidroelétrica tem contribuído sim para a subida dos rios”, adianta o Cel. Roberto Rocha.


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