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Cotidiano
EDUCAÇÃO

AM tem 70 mil pessoas acima de 60 anos que não leem ou escrevem, aponta IBGE

Manaus concentra 21 mil pessoas desse total. Especialistas falam das dificuldades de alfabetizar pessoas adultas 16/11/2018 às 19:58 - Atualizado em 17/11/2018 às 08:43
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Aposentado Antônio Cardoso dos Santos, 74, deixou de lado os estudos para lutar pela sobrevivência (Foto: Jair Araújo)
Priscila Rosas Manaus (AM)

No Amazonas, cerca de 70 mil pessoas acima de 60 anos que ainda não sabem ler ou escrever, segundo a última estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), realizada em 2017. A capital amazonense concentra 21 mil desse total e o aposentado Antônio Cardoso dos Santos, 74, é um deles.

Nascido em 1944, em Minas Gerais, a mãe foi embora para Portugal quando ele ainda era criança e nunca mais voltou. Já o pai morreu quando ele tinha 6 anos. “Nós fomos dormir e ele se deitou ao meu lado. Quando acordei, ele já estava duro. Morreu dormindo”, contou o aposentado, com olhos marejados.

Com a vida difícil, ele não chegou a estudar e teve que lutar por sua sobrevivência. Trabalhou em várias empresas, como circos e parques de diversão, e o estudo acabou ficando de lado. “Eu não tenho ninguém. Deus me livrou de tudo o que não presta. Eu poderia ter sido um bandido da pior espécie”, comentou.

Durante 42 anos trabalhando, Antônio, que também atuou em empresas como a Philco, a extinta Águas do Amazonas,  no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes e até na  Receita Federal, nunca sentiu a necessidade de aprender a ler ou escrever. Tudo o que aprendeu foi olhando outras pessoas fazendo, como a trabalhar com hidráulica, refrigeração e eletricidade. Em 1983, ele coordenou cargos de chefia e liderou uma equipe de quatro pessoas. “Eu era convidado para trabalhar. Fui responsável pelo serviço sem saber ler ou escrever”, relatou.

Aos 17 anos, um professor de faculdade se ofereceu para ensiná-lo a ler e escrever. Porém, Antônio não aceitou por considerar que falta de estudo não se tornou um  empecilho para ele. “Eu tive esse privilégio de trabalhar sem sofrer nada. Nunca fui descriminado em canto nenhum. Sempre me respeitavam”, afirmou.

Ele sabia fazer cálculos “de cor” mesmo sem escrever números e desenhar as letras que compõe o seu nome, habilidades essas já esquecidas devido a idade. Hoje, o aposentado acredita que não tem mais idade para aprender. “A minha neta pelejou comigo. Mas para quê, se eu vou ‘levar para sete palmos de terra’? Eu não tenho vergonha. Vergonha é roubar”, disse. Mas diferente do pensamento do aposentado, a alfabetização é  importante para qualquer cidadão.

Desafios

Para especialistas, alfabetizar é um grande desafio, principalmente quando se trata de adultos e a definição de “analfabeto” tem mudado. Segundo o professor Nilton Carlos Teixeira, gerente de Atendimento Educacional à Diversidade (GAED) da Secretaria de Estado de Educação e Qualidade de Ensino (Seduc), o Brasil adotou outras definições para o termo.

Segundo o gerente de Atendimento Educacional à Diversidade (GAED) da (Seduc), Nilton Carlos Teixeira, até a década de 60, a alfabetização tratava-se apenas de aprender a assinar o nome para casar ou tirar o título de eleitor. Depois, o nível de exigência aumentou. “Mais tarde vieram as exigências da alfabetização funcional, em função das exigências de uma sociedade cada vez mais urbana e letrada. Hoje, o IBGE entende que é preciso pelo menos ler e escrever um bilhete para não ser considerado analfabeto”, explicou o gerente.

Muitos projetos tentam, inclusive, promover a formação profissional, para oportunizar emprego e renda, mas Teixeira alertou para não confundir os objetivos com o processo de alfabetização.

Alfabetizar adulto é mais complicado, diz educador

De acordo com o gerente de Atendimento Educacional à Diversidade (GAED) da (Seduc), Nilton Carlos Teixeira, alfabetizar adultos é bem mais complicado do que alfabetizar crianças e os bons resultados são mais difíceis de alcançar. “Ler envolve a interpretação de sinais gráficos por meio de redes neuronais que atribuem sons a letras e aportam o sentido que vem do léxico. Isso vale para adultos e crianças. Trata-se de uma função cognitiva. O domínio do princípio alfabético e da consciência fonêmica, por exemplo, são os melhores preditores de competência em alfabetização de adultos”, explanou ele, que também é professor.

O desafio maior para a pessoa adulta que quer ser alfabetizada é a motivação. O aluno deve levar em consideração fatores culturais e socioculturais como o medo do insucesso e o sentimento de inferioridade, além das preocupações, do cotidiano e de outras prioridades que podem atrapalhar esse processo. Qualquer dificuldade na aquisição de fluência na escrita pode ser superada com treinamento adequado e esforço.

Para alcançar o sucesso, Nilton Teixeira pontuou  que um programa de alfabetização precisa incorporar os conhecimentos sobre consciência fonêmica, decodificação e fluência em suas práticas; atividades focadas nas competências básicas de leitura, utilização de materiais diversificados não infantilizados e que possibilitem o exercício após o processo de alfabetização.

“Como na alfabetização de crianças, o ensino de adultos requer clareza, estratégias adequadas para as várias competências, professores capacitados e uma gama de materiais de ensino adequados”, frisou.

Segundo ele, para erradicar o analfabetismo ainda existente no Brasil é preciso eficácia na instrução de crianças no primeiro ano escolar, aos 6 anos. “Todo atraso nesse processo significa prejuízo e causa danos que, para milhões de brasileiros, tornam-se irrecuperáveis”, enfatizou.

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