Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020
Violência contra a mulher

Amazonas tem longo caminho no combate ao feminicídio

Terceiro Estado em número de vítimas tem ocorrências e números que atestam a delicadeza da situação



mulher_protesto_2E05273C-3590-4D15-B978-5F7DA616A2C8.JPG Foto: Arquivo/A Crítica
26/01/2020 às 18:37

O Amazonas é o 3º Estado do Brasil com maior proporção de casos de feminicídio a cada grupo de 100 mil mulheres. Basta ler o noticiário policial para atestar este levantamento do Conselho Nacional de Justiça apresentado em 2018. Segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), em 2019 foram registrados 12 homicídios caracterizados como feminicídio, quando a vítima é morta apenas por ser mulher.

Apesar das diversas ações de punição, acolhimento e até mesmo de prevenção por parte do Estado, a diminuição dos índices de violência contra as mulheres amazonenses ainda é um longo e árduo caminho.



Só para ilustrar, no final do ano passado, a vendedora ambulante Maria Yolanda Avelino de Souza, 44, foi encontrada morta e enterrada no quintal da própria casa, no Monte das Oliveiras, Zona Norte de Manaus. Na ocasião, o principal suspeito apontado pela polícia foi o marido dela, com quem a vítima era casada há seis anos.

Já este ano, no último dia 16, a jovem Miryam Moraes da Cruz, 21, foi encontrada morta com nove golpes de faca no Igarapé do Mindu, Tancredo Neves, Zona Leste de Manaus. O namorado da vítima é o principal suspeito e atualmente é considerado foragido da Justiça.

Crimes nestes moldes são registrados praticamente todos os dias no Amazonas, quase sempre praticados por um homem, seja ele companheiro, marido, namorado ou noivo.
tomando conta

Do alto de sua experiência lidando diariamente com casos de violência contra a mulher, a delegada Débora Mafra, titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), destaca que os agressores, geralmente, são pessoas muito educadas, que estudam e trabalham. “Porém, quando estes homens começam um relacionamento, querem tomar conta da mulher; são pegajosos e, rapidamente, eles já querem firmar um compromisso mais duradouro sem ao menos a conhecer melhor. Com o tempo já demonstram um ciúme excessivo, justificando que tudo isso é por amor”, disse.

Mafra lembra que, na maioria das vezes, a violência psicológica precede as agressões físicas e, em casos extremos, o assassinato. “Dentro de um relacionamento abusivo os agressores começam a dar voz de comando: proíbem a mulher de sair com os amigos, afasta ela da própria família, fazendo, também, com que a vítima mude a personalidade dela, a deixando mais triste e afastada de tudo”, explanou.

A delegada destaca que a principal motivação dos crimes contra a mulher é o machismo. “Isso porque o homem acredita que ele tem que dominar a mulher por meio de agressões físicas, verbais ou até mesmo quebrando objetos na vítima, senão ele será considerado fraco e dominado por ela, e isso não é verdade”, observou Débora Mafra. “Muitos homens já conhecem os direitos da mulher, mas outros acreditam que ela é um objeto que pertence a eles e, com isso, eles acham que têm direito de fazerem o que bem entenderem com ela’’, completou.

Um caminho

O caminho para que o Amazonas deixe de registrar índices vergonhosos de violência contra as mulheres é a prevenção ser trabalhada desde o berço. É o que defende a advogada Jacqueline Suriadakis, coordenadora do Projeto Fênix Amazonas, uma rede de apoio para mulheres que sofrem violência, atuante em Manaus há um ano e meio.

‘’O que eu vejo, de uma maneira geral, é que a preocupação com a mulher acontece quando a violência já aconteceu. Vivemos em um mundo machista. Faria toda a diferença se educássemos os nossos meninos a terem um comportamento respeitoso com as mulheres desde a infância. E também deveríamos incentivar o empoderamento em nossas meninas desde criança, para que elas não aceitem certas atitudes. Só assim poderíamos mudar essa realidade’’, apontou ela que, voluntariamente, dá apoio jurídico e psicológico a mulheres que passam por todo tipo de violência.

Para a produtora cultural Michelle Andrews, do Coletivo Difusão, o papel das escolas é fundamental no combate ao feminicídio, principalmente no sentido de orientar as meninas a saberem identificar que estão em uma situação de violência, assim como também conhecerem os seus direitos.

“Precisamos de mais agentes políticos comprometidos com a redução da violência contra as mulheres e de programas e políticas públicas mais eficazes, que compreendam que nós estamos rodeadas de machistas violentos que não respeitam a condição da mulher. Há muitos crimes sem respostas em nosso Estado. A sensação de impunidade é horrível’’, comentou.

Andrews opina que o que tem sido feito no Amazonas ainda é muito pouco para proteger as mulheres de todo tipo de violência . ‘’Se não houver um aumento no investimento de programas preventivos, a gente não conseguirá reduzir os casos violentos, e, infelizmente, continuará acontecendo esta naturalização da violência contra a mulher que vemos hoje’’, disse.

Denúncias

Uma das formas de acionar a polícia em casos de violência também é utilizando o aplicativo ‘’Aviso Polícia’’. Em casos de urgência, quando a vítima necessita sair de casa, há também o programa ‘’Abrigo Mulher’’, mantido pela Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), que manda uma equipe até o local recolher os pertences da vítima e abrigar a mulher até que ela possa voltar para casa em segurança. Em Manaus, as denúncias podem ser feitas em uma das três Delegacias Especializadas em Crimes Contra Mulher (DECCM).

DECCM Parque Dez. Endereço: Avenida Mário Ypiranga Monteiro.Contato: (92) 3236-7012.Horário de Atendimento: Plantão 24h.

DECCM Colônia Oliveira Machado. Endereço: Rua Desembargador Felismino Soares. Contato: (92) 3214-3653. Horário de Atendimento: Das 8h às 17h.

DECCM Cidade de Deus. Endereço: Rua Nossa Senhora da Conceição.Contato: (92) 3582-1582. Horário de Atendimento: Das 8h às 17h.

Iinquéritos

Segundo levantamento feito pelo Sistema Integrado de Segurança Pública (SISP), braço estatístico da SSP, entre janeiro e novembro de 2019 foram enviados 6.685 inquéritos de violência contra a mulher, um crescimento de 28,3% em comparação com o mesmo período de 2018, quando pouco mais de 5,2 mil inquéritos foram finalizados.

News guilherme 1674 2977771b 6b49 41af 859a ef3c3b62eae8
Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.