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Cotidiano
DOENÇAS TROPICAIS

Amazonenses sofrem constrangimentos na hora de doar sangue fora do Estado

Há uma semana, Giuliane Souza tentou doar sangue em uma ação no órgão que trabalha na cidade do Rio de Janeiro, mas não conseguiu porque era de Manaus 14/11/2017 às 05:14 - Atualizado em 14/11/2017 às 10:09
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A triagem em Manaus também exclui pessoas de bairros de risco. Foto: Euzivaldo Queiroz/Arquivo AC
Silane Souza Manaus (AM)

Qualquer pessoa pode se candidatar para ser um doador de sangue, mas a aceitação leva em conta uma série de fatores que muitas vezes por falta de conhecimento e sensibilidade pode gerar certo mal-estar. A servidora pública Giuliane Souza, 25 (foto), que o diga. Há uma semana, ela tentou doar sangue durante uma ação realizada no órgão onde trabalha na cidade do Rio de Janeiro, mas não conseguiu porque era de Manaus.

De acordo com ela, que mora há dois meses no Rio de Janeiro, a moça que lhe atendeu quando soube que se tratava de uma pessoa do Norte do País a olhou “como se fosse uma doente”. “Na hora, ela disse que eu não podia doar porque era de uma região que tem risco de doenças tropicais, como a malária. E que eu nunca poderia doar por viajar para Manaus. No site do hemocentro do Rio não fala nada sobre isso. Senti-me discriminada”, afirmou a servidora.

O esposo da jornalista Thaís Brianezi, 37, passou pela mesma situação em um hospital na cidade de São Paulo. De acordo com ela, o fato aconteceu no dia 28 de outubro quando ele foi doar sangue para ajudar uma criança conhecida da família que foi diagnosticada com leucemia e precisava de transfusão. “Ele ficou uma hora esperando e foi descartado na triagem quando disse que tinha estado em Manaus no fim do ano passado”, destacou.

A explicação que a moça lhe deu foi a de que fazia menos de um ano da viagem a Manaus, uma área endêmica para a malária, portanto, não poderia doar sangue. “Ele achou estranho, ainda questionou a moça, mas ela deixou bem claro que com menos de 12 meses não pode doar. Eu também estranhei porque na época da faculdade a pergunta que me faziam era se eu tinha estado na floresta, se tivesse ficado na cidade podia doar”, disse Thaís.

Esses casos não acontecem apenas na região Sudeste. Na própria capital amazonense tem candidato a doador de sangue que se torna inapto na hora que diz em qual bairro mora. Foi o que aconteceu com o microempresário Joe Santos, 40. “Há um mês mais ou menos fui tentar doar sangue para ajudar uma amiga que estava precisando, na hora de responder as perguntas, quando disse que era do Jorge Teixeira, Zona Leste, fui descartado”, contou.

Quem pode doar sangue

Qualquer pessoa com boa saúde, com idade entre 16 a 69 anos e peso a partir de 50 quilos, pode doar sangue. No geral, não pode doar sangue a pessoa que teve hepatite depois dos 10 anos de idade; tem comportamento sexual de risco; usa drogas; teve malária, recebeu transfusão sanguínea ou teve doenças sexualmente transmissíveis nos últimos 12 meses; teve febre nos últimos 30 dias.

Quem recebe doação

Quem recebe o sangue doado são pessoas que necessitam repor o sangue perdido em cirurgias, hemorragias ou acidentes. Além desses casos,  há ainda aqueles de pessoas que necessitam receber sangue regularmente, como é o caso de pacientes, incluindo crianças e adolescentes, que sofrem de câncer no sangue (leucemia e linfoma) e os portadores de anemias graves e hemofilia.

Os motivos do procedimento padrão

A gerente de triagem e coleta da Fundação de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (FHemoam), Lana Sulamita, explicou  que é um procedimento padrão e de segurança  que uma pessoa que tenha estado no Norte do Brasil passar pelo menos um ano ficar sem poder doar sangue ao retornar ou ir para qualquer outra região do País. O motivo é realmente por causa das doenças tropicais. “Muitas vezes a doença demora a ser detectada e o risco nesses casos é grande”, apontou.

O mesmo acontece com quem vem de outras regiões do Brasil para o Norte. Só que, nesse caso, a pessoa fica no mínimo 30 dias sem poder fazer doação de sangue.

O processo é rigoroso e segue portaria do Ministério da Saúde para garantir não só a qualidade do sangue, mas a segurança do receptor e também do doador, de acordo com a subgerente de Coleta Externa da Fundação Hemoam, Eleonora Araújo. “Por isso, a importância de a pessoa ser verdadeira na hora de responder as perguntas. Um detalhe, por menor que seja, pode agravar o quadro de quem já está fragilizado e precisando de uma transfusão no leito da UTI”, ressaltou.

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