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Cotidiano
FUSÃO MINISTERIAL

Ambientalistas e ruralistas do AM dividem opiniões sobre fusão entre ministérios

Ambientalistas veem risco à conservação do meio ambiente e ruralistas acreditam no fim do "cabo de guerra" 01/11/2018 às 02:10 - Atualizado em 01/11/2018 às 08:23
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Proposta de fusão havia sido excluída durante a campanha, mas Jair Bolsonaro voltou atrás dois dias após ter sido eleito. Tânia Regô/Agência Brasil - 28/out/2018
Cecília Siqueira Manaus (AM)

O anúncio da fusão entre os Ministérios do Meio Ambiente e Agricultura feito na terça-feira pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), levantou polêmicas e dividiu opiniões entre ambientalistas e ruralistas do Amazonas. A união das duas pastas é parte do pacote de enxugamento da máquina administrativa e já havia sido cogitada no início da corrida presidencial. No decorrer da campanha, Bolsonaro sinalizou que tinha desistido da ideia. Agora, porém, diz que a colocará em prática.

Um cenário catastrófico, inclusive para o desenvolvimento do agronegócio, é o que o biólogo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Lucas Ferrante aponta com a extinção do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Ferrante, que é mestre em Ecologia, possui diversos estudos sobre a expansão agropecuária, ações humanas na natureza e efeitos de matrizes agrícolas.

“Essa fusão é o primeiro grande desmonte ambiental que a gente tende a observar deste governo. A gente pode observar alguns problemas que tendem a afetar, inclusive a própria agricultura do País. Por exemplo, cientistas já fizeram um modelo matemático da estimativa de desmatamento, no qual as políticas de desmonte ambiental somadas à saída do Brasil do Acordo de Paris devem triplicar o desmatamento na Amazônia e a gente tem que pensar quais as consequências disso”, disse.

Já o diretor-presidente da Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (Adaf), Sérgio Muniz, vê o zoneamento ecológico como meio de controlar os impactos ambientais dentro das regiões com atividades específicas. De acordo com ele, a tecnologia e a informação técnica podem ser grandes aliadas junto aos produtores.

“Tem que existir um entendimento entre as duas partes, sair desse cabo de guerra entre produção e questão ambiental. A gente pode fazer uso da tecnologia, principalmente com assistência técnica sendo colocada no período certo, de maneira oportuna e antes de ocorrer o dano. A falta de entendimento é o maior problema. Uma vez ocorrendo a derrubada, não tem mais como você restabelecer a mata num período curto. Não digo que devemos conter, mas trabalhar essa questão. A gente vai incentivar um projeto, seja de produção de alimento, na área animal ou vegetal, onde todos entrem num consenso antes de começar um projeto”, destacou.

O pecuarista, que já foi gestor do Comissão de Defesa Animal e Vegetal do Amazonas (Codesav), diz que determinar atividades agrícolas por município através de estudos ajudará na potencialização econômica e impede desmatamento ilegal. “Com o zoneamento você tem estudos e controle sobre aquela área. O que acontece é que a produção incentiva, depois o produtor é multado lá na frente, então é bom ter uma orientação conjunta. O ministro tem que ser alguém equilibrado”, opinou.

A reportagem tentou, sem sucesso, contato com representantes da Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas (Faea).

Petição na Internet

Internautas criaram na quarta-feira uma petição pública contra a união dos dois ministérios e já conta com quase 600 mil assinaturas. Dentro do texto do abaixo-assinado estão as principais ações desenvolvidas pelo MMA na preservação da flora e fauna brasileira

Atual ministro vê fusão como temerária

Em nota oficial divulgada ontem, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) informou que elaborou um extenso relatório com todas as ações da pasta nos últimos anos afim de manter a equipe de transição a par das atividades. No documento, Edson Duarte, atual ministro do Meio Ambiente, diz que vê com preocupação a junção dos dois setores, principalmente em virtude de uma possível retaliação econômica dos países que compõem o Acordo de Paris.

“Fragilizar a autoridade representada pelo Ministério do Meio Ambiente, no momento em que a preocupação com a crise climática se intensifica, seria temerário”, diz a nota.

Amazônia pode virar savana improdutível

Sônia Alfaia, que é engenheira agronômica e também pesquisadora pelo Inpa, afirma que juntar os dois ministérios “é a mesma coisa que juntar a raposa e o galinheiro”.  Ela, que também já ocupou o cargo de secretária executiva adjunta de planejamento e projetos da Secretaria de Estado da Produção Rural do Estado do Amazonas (Sepror/AM), enfatiza que, se o desmatamento na Amazônia chegar entre 20 e 25%, será irreversível a recuperação da floresta.

“Historicamente o Ministério da Agricultura é culpado pela bancada ruralista e quer avançar com o agronegócio na Amazônia. Associar as duas pastas é suprimir o meio ambiente, é a maneira mais fácil de acabar com os licenciamentos, as regras ambientais que ainda impedem o avanço do desmatamento. A ciência tem mostrado através de estudos que será irreversível a recuperação da floresta se chegar a esse nível. A área derrubada hoje está estimada em 18%”, expôs.

Ao chegar nessa porcentagem, a pesquisadora diz que a selva poderá se tornar uma espécie de savana, um cerrado, onde praticamente é impossível cultivar. “No Acordo de Paris, o Brasil tem o comprometimento de reflorestar 12 milhões de hectares principalmente na área do sul do Amazonas, mas será um retrocesso se isso acontecer”, lamentou.

Dentro dos impactos da fusão, Sônia chama atenção à questão das terras indígenas. Com interesse de países como a China, sobre o minério sob as demarcações, a manutenção da floresta também é afetada. “Eles que mantém a floresta em pé. Os indígenas cultivam a terra, produzem seus próprios alimentos sem degradar o ambiente. Então abrir mineração nas terras indígenas, fazer com que vendam seus territórios, é temeroso”, finalizou Sônia.

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