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Cotidiano
Comportamento

Amizade abusiva é mais comum do que se pode imaginar, diz especialista

Em amizades, pode-se entender que a relação tende a beneficiar o abusador, de forma a fortalecer erroneamente sua autoestima 21/05/2017 às 05:00 - Atualizado em 23/05/2017 às 12:24
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(Foto: Reprodução)
Laynna Feitoza Manaus (AM)

O produtor de conteúdo André Maia, 26, conheceu um amigo em 2012, primeiro na internet e depois pessoalmente. “Essa pessoa começava a botar muito para baixo uma amiga em comum da gente (e eu participava disso, o que é pior ainda). Quando reparei que aquilo estava fazendo mal a ela, decidi parar com as brincadeiras, mas ele continuou”, diz ele. André não sabia ainda, mas estava sendo influenciado por uma amizade abusiva. Não, não são só os relacionamentos amorosos que sufocam as pessoas. Amizades também podem ser abusivas e isso é mais comum do que parece. E prejudicial também.

Os primeiros sinais detectados por André de que aquela amizade o estava prejudicando diziam respeito à desproporcionalidade da relação. “Sempre era eu quem tinha que ceder, fazer um favor, ir visitá-lo, fazer o que era mais cômodo”, afirma. Por ser uma pessoa que tem problemas com o embate direto, Maia poucas vezes chegou a bater de frente com o amigo. “Eu costumava ignorar mensagens e dar algumas desculpas, o que não é nada recomendável, mas chegou a um ponto que se tornou insuportável, que foi quando a amizade foi acabando”, pondera ele. 

O produtor resolveu dar um basta na relação quando o amigo parou de entender que, assim como ele, André também tinha os seus problemas e que precisava de um tempo para si mesmo. “Fui me distanciando aos poucos, até que ele me bloqueou e eu fiz o mesmo em outras redes. Uma amizade só se sustenta se houver cumplicidade e sinceridade de ambas as partes, mas sem cobranças por ‘contrapartidas’. É estar perto de quem te faz bem e que compartilha contigo sua vida. Acho que a maior lição que ficou para mim é cultivar uma relação de construção, não de lacunas”, declara ele

Bola de neve

A estudante de design Luana Ribeiro não percebia que uma de suas amizades era abusiva. “Sempre levei as atitudes que incomodavam como algo que era da personalidade da pessoa, e se eu era amiga de verdade tinha que aceitar e entender. Acho que sempre houve sinais, mas eu nunca quis aceitar”, conta ela. Coisas pequenas no dia a dia comprometiam a amizade de Luana com a outra pessoa. “Como mandar mensagem pedindo conselho e colocar em questão a minha amizade se eu não respondia na mesma hora, esconder coisas desnecessárias, se comprometer com alguma coisa comigo e sumir, depois aparecer como se nada tivesse acontecido”, assegura ela. 

Outra questão da amiga de Luana que pesava era o fato de não aceitar as opiniões dela e tentar mudá-las a todo custo. “Eu sempre estava à disposição para ouvir e dar conselhos, mas no momento que eu precisava desabafar sobre algum problema, ela aparecia com um dela que era sempre maior que o meu”, conta ela. Ribeiro achava que os abusos faziam parte da amizade. "Em alguns situações eu até cheguei a falar minha opinião ou que sentia sobre determinada atitude, mas se gerava atrito eu deixava pra lá”, comenta ela.

A estudante decidiu romper a amizade no momento em que percebeu que estava deixando de fazer coisas que queria, que eram de acordo com os seus valores, em nome da relação. “Teve tentativa de conversa, mas acabou virando discussão. Explodi, dei um tempo, me isolei, excluí das redes sociais. E mesmo tendo partido de mim dar um fim na amizade, fiquei muito mal, achei uma pena terminar do jeito que terminou. Foi bem traumatizante, acho que terminar uma amizade é pior que terminar namoro”, garante.

O que fazer

Abusadores geralmente são pessoas que já sofreram algum tipo de abuso anteriormente. É o que diz a psicóloga Ananda Maria Gomes, 28. “Em relação a amizades, pode-se entender que a relação estabelecida tende a beneficiar o abusador, de forma a fortalecer erroneamente sua autoestima e lhes dar a primazia do poder neste relacionamento, no qual ele (o abusador) tem o controle”, coloca ela. Uma amizade pode ser caracterizada como abusiva quando não há contrapartida em questão de amizade, ou esta é muito diminuída. 

“Além disso, costumeiramente pode-se observar o comportamento do abusador de controle excessivo da vida/atividades do amigo em questão ("Pra onde você vai? Com quem? Que horas volta?"); a proibição de que ele faça novos vínculos de amizade ("Não pode sair com fulano, só comigo"); a depreciação e até mesmo humilhação, ("Você nunca faz nada certo, não presta pra nada. Se não fosse eu..."). Com isso, a pessoa que sofre os abusos tende a modificar a imagem que tem de si, e passa a introjetar os conceitos e conteúdos negativos que lhes são impostos”, declara a psicóloga.

E como agir diante de uma amizade abusiva identificada e opressora? “A questão de relacionamento abusivo na amizade é algo bastante delicado. Muitas vezes, mesmo em amizades de anos não se percebe sinais de abuso que, com o tempo, podem se agravar. Acredita-se sempre que o diálogo seja o melhor caminho para a resolução de conflitos, mas como o abuso não pode ser compreendido como um conflito (é uma forma de violência), o melhor caminho é tentar sair do aprisionamento desta relação e procurar ajuda. Recomendável que quem passe por este tipo de situação, procure um psicólogo para trabalhar melhor as questões de ordem afetiva”, encerra ela.

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