Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
MEIO AMBIENTE

Após Brasil retirar candidatura para sediar COP-25, Bolsonaro diz que influenciou decisão

A COP-25 é a conferência internacional sobre clima, destinada a negociar a implementação do Acordo de Paris. ONGs ambientais e ligadas a povos indígenas afirmam que Brasil pode perder protagonismo nas discussões climáticas



bolsonaroebc-1_E36571AF-3EC4-45B4-B3A9-81FB1E64F998.jpg Foto: Agência Brasil

O presidente eleito Jair Bolsonaro disse hoje (28) que teve participação na decisão do governo brasileiro de retirar sua candidatura para sediar a COP-25 (Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas), destinada a negociar a implementação do Acordo de Paris, que ocorrerá de 11 a 22 de novembro de 2019.

O Itamaraty informou ontem (27) sobre a decisão ao Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima da Organização das Nações Unidas. Bolsonaro disse que queria evitar controvérsia entre o governo dele e setores ambientalistas sobre a criação do corredor ecológico internacional Triplo A e ainda alegou restrições orçamentárias.



“Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro [Ernesto Araújo, indicado para o Ministério das Relações Exteriores], eu recomendei para que evitasse a realização desse evento aqui no Brasil. Até porque, eu peço que vocês [jornalistas] nos ajudem, está em jogo o Triplo A. Esse acordo, que é uma grande faixa, que pega a [Cordilheira dos] Andes, Amazônia, Atlântico, de 136 milhões de hectares, ao longo da calha dos rios Solimões e Amazonas, que poderá fazer com que percamos nossa soberania nessa área. Se isso for o contrapeso, nós teremos uma posição que pode contrariar muita gente, mas vai estar de acordo com o pensamento nacional. Então, não quero anunciar uma possível ruptura dentro do Brasil, além dos custos, que seriam, no meu entender, bastante exagerados tendo em vista o déficit que temos no momento", disse o presidente eleito.

A ideia do corredor ecológico Triplo A propõe a construção de um corredor ecológico ligando a região da Cordilheira dos Andes ao Atlântico, com uma extensão de mais de 200 milhões de hectares. O projeto envolveria a região amazônica de oito países (Colômbia, Brasil, Peru, Equador, Venezuela, Guiana Francesa, Guiana e Suriname), afetando mais de 30 milhões de pessoas, incluindo 385 povos indígenas. No Brasil, abrangeria os estados do Amazonas, de Roraima e do Amapá, representando 62% do território geral do corredor.

Questionado se a decisão de suspender a COP-25 poderia trazer prejuízos à imagem do Brasil no exterior, Bolsonaro voltou a criticar a atual política ambiental e defendeu uma mudança de rumo no setor. "O país que mais preserva no mundo somos nós, agora não pode uma política ambiental atrapalhar o desenvolvimento do Brasil, nós queremos uma política ambiental de verdade. Todos nós queremos preservar o meio ambiente, mas não dessa forma que está aí. Hoje, a economia, quase está dando certo apenas na questão do agronegócio e eles estão sufocados por questões ambientais, que não colaboram em nada para o desenvolvimento e a preservação do meio ambiente. Isso é um contraponto, mas uma verdade, por isso a demora na escolha do ministro do Meio Ambiente", disse.

ONGs lamentam

Organizações não-governamentais (ONGs) ligadas às questões ambientais e aos povos indígenas lamentaram a retirada da candidatura do Brasil. Em nota, o Observatório do Clima alertou que ao retirar a candidatura para sediar a COP-25, o Brasil poderá perder o papel de protagonista nas discussões climáticas. “Com o abandono da liderança internacional nessa área, vão-se embora também oportunidades de negócios, investimentos e geração de empregos”, alerta o Observatório.

Nesta semana autoridades da cidade de Foz do Iguaçu e o governador eleito do Paraná, Ratinho Junior, enviaram para Brasília um ofício em defesa da realização da próxima COP-25 no Paraná. Segundo o documento, o evento poderia movimentar R$ 400 milhões e a circulação de cerca de 35 mil pessoas.

A ambientalista e ativista Natalie Unterstell embarca para Polônia para participar da COP-24, de 8 a 15 de dezembro. Segundo ela, sua expectativa que a decisão tomada seja revertida. A brasileira é uma das embaixadoras globais do programa Homeward Bound, que promove a participação das mulheres na ciência e na política.


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