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Cotidiano
LÁGRIMAS E DOR

Em clima de tensão, moradores da invasão Buritizal Verde tentam dar a volta por cima

O sentimento também é de tristeza e de aflição e o “começar de novo” ainda é difícil no local onde foi encontrado o cadáver do policial militar Paulo Sérgio Portilho e onde houve o sinistro 02/06/2017 às 05:00 - Atualizado em 02/06/2017 às 08:36
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Patriciana dos Santos Arcanjo e dois dos filhos: perda total da casa incendiada na invasão Buritizal Verde / Fotos: Winnetou Almeida
Paulo André Nunes Manaus (AM)

A invasão Buritizal Verde guarda até hoje, três dias após os casebres do local terem sido incendiados misteriosamente, um clima de indisfarçável tensão no ar e na voz de quem foi vítima e perdeu tudo o que tinha. O sentimento também é de tristeza e de aflição e o “começar de novo” ainda é difícil no local onde foi encontrado o cadáver do policial militar Paulo Sérgio Portilho. O policial desapareceu após sair da sua residência, no conjunto Águas Claras, bairro Cidade Nova, Zona Norte, para trabalhar como segurança em uma pizzaria no conjunto Campos Sales, no Tarumã, Zona Oeste, na última sexta-feira.

Seu corpo foi encontrado na tarde da última terça (30) por uma cadela da Companhia de Policiamento Militar com Cães (CPCães). O cadáver não apresentava sinais de tiro e estava enterrado - policiais ajudaram a cavar com pás e uma retroescavadeira. No mesmo dia, os casebres da invasão foram incendiados e os moradores acusaram policiais militares pelo ocorrido. O enterro aconteceu no dia seguinte e foi marcado pela consternação de familiares e amigos do PM, e pela revolta de colegas da corporação.

Ainda atordoada, a moradora Patriciana dos Santos Arcanjo, de 31 anos, não sabe explicar porquê ela teve o casebre de dois quartos e cozinha incendiado, resultando em perda total. Detalhe: ela está grávida de 9 meses. “Eu e meu marido somos pastores e morávamos com nossos filhos de 3 e 5 anos. Os policiais pediram para nós sairmos de dentro da casa e depois só vimos o fogo, e não deu pra salvar nada. Tivemos minha casa perdida e tudo o que tinha dentro: cama, televisão, colchão, fogão, geladeira... Estamos vivendo de doações e precisando de ajuda. Não temos condições de levantar a nossa casa”, diz ela, que está há 6 meses na invasão.

Dona Nazaré Pena Soares, 66, é da etnia mura: ela não teve a casa incendiada, mas, por sua vez, teve tudo saqueado. “Levaram tudo o que eu tinha dentro. Não sei quem foi. Sofro de pressão alta, na hora eu passei mal e os policiais chegaram e mandaram eu ir embora”, disse a costureira, que mora com mais quatro netos de 7, 8, 10 e 16 anos de idade. “Queria ao menos que devolvessem a minha máquina de costura”, comentou.

A cabeleireira Cláudia da Silva Amaral, 37, que é tikuna, também conta ter perdido tudo o que tinha dentro da casa localizada na invasão. “Perdi as minhas coisas dentro de casa. Não me deixaram nem tirar os documentos: falaram pra mim expedir a segunda via. Tiraram tudo: só deixaram uma cômoda velha. Tem condições de morar lá, mas como vou voltar com as três crianças que eu tenho: eles estão na casa da minha mãe. Não queimaram a casa porque ela é de alvenaria. Tenho que vir pra cá todo dia pra como vai ficar a situação aqui na invasão. As coisas eu estou ganhando de outras pessoas, e o que não serve pra mim eu estou doando para quem precisa, pois não sou apenas eu que estou passando pela situação. Meu esposo que está correndo atrás das coisas, para trabalhar”, relata ela.

Um agravante: Cláudia tem um filho de 1 ano que precisa passar por uma cirurgia de lábio leporino. Além dela, tem outras duas crianças de 7 e 4 anos.
Um alento para quem perdeu seus pertences no incêndio ou saques vem sendo feito por lideranças indígenas e religiosas que vêm repassando alimentos, roupas e conforto psicológico para as vítimas, informou o cacique Francisco Tukano, um dos representantes da coordenação de apoio. “Não queremos problemas com ninguém, e sim ajudar não apenas o nosso povo, os nossos parentes, mas todos aqueles que foram prejudicados por esse ocorrido”, disse ele.

Frase

"Os policiais pediram para nós sairmos de dentro da casa; depois só vimos o fogo. Não deu pra salvar nada. Perdemos tudo" (Patriciana Arcanjo, pastora)

Defensoria vai tomar providências

A Defensoria  Pública Especializada de Atendimento de Interesses Coletivos enviou, na última quarta, uma equipe de assistentes sociais à ocupação Buritizal Verde para verificar se as famílias que perderam as casas onde moravam durante o incidente estão recebendo o devido amparo social por parte do Estado e Município.
“Ainda não temos muitas informações sobre o que aconteceu, mas designamos uma equipe do serviço social para realizar todos os procedimentos. Vamos tomar providências sim, porque até o momento me parece que o município não tem atuado”, ressaltou.

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