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Após morte de líder comunitária, moradores temem ser ‘expulsos’ por expansão imobiliária

Abalados pela morte de Dora Priante, há 11 dias, moradores de comunidade na Zona Rural de Iranduba ainda evitam comentar assunto e lutam para voltar a ter uma vida “normal” 24/08/2015 às 12:37
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Alguns moradores mudaram de endereço após o assassinato da líder comunitária
Kelly Melo Manaus

O medo e a insegurança ainda persistem na comunidade Portelinha, na Zona Rural de Iranduba (distante 32 quilômetros de Manaus). Abalados pela morte da líder comunitária Maria das Dores Salvador Priante, a “Dora”, 54, há 11 dias, eles ainda evitam comentar sobre o assunto e lutam para voltar a ter uma vida “normal”. Outros porém, preferiram mudar de endereço.

Moradora da comunidade de 2009, dona Maria de Fátima da Silva, 58, conta que está com medo de continuar na comunidade Portelinha. “Quando soubemos que a Dora tinha sido assassinada, fiquei assustada e até passei mal. Tive que ser levadas às pressas a Manaus. Essa semana voltei para cá, mas já pensei em voltar para Manaus”, contou ela que decidiu ir morar na Zona Rural em busca da tranquilidade.

Um dos moradores mais antigos do local, o aposentado Moisés Pereira Rocha, 80, lembra que boa parte dos moradores se mudaram para a comunidade após receberem os terrenos co mo doação de um ex-prefeito de Iranduba. Ele não esperava que a disputa por terras fosse enveradar por um caminho cruel. “Nossa comunidade era tranquila, boa para morar. A maioria dos que estão aqui ganharam os lotes e só depois que alguns começaram a ser vendidos. Mas a gente ficou assustado com a notícia, não esperava que isso fosse terminar assim”, disse ele.

Expansão imobiliária

As brigas entre a líder comunitária e Adson Dias da Silva, o “Pinguelão”, preso como principal suspeito da morte de Dora, revela uma realidade muitas vezes ignoradas pelo poder público: os conflitos por terras.

Conforme as denúncias feitas pela líder, Pinguelão se intitulava como dono das terras da comunidade e vendia os terrenos ilegalmente, chegando a expulsar as pessoas de suas casas e agredi-las verbal e fisicamente. Assim como na Portelinha, moradores de outras comunidades de Iranduba denunciam a repetição da cena em outras localidades do município.

O autônomo João Batista Ferreira, 54, morador da comunidade Vale do Amanhecer há sete anos, relata que  foi ameaçado a mando de empresários que possuem interesses na propriedade dele e de outros comunitários. “Entrei na Justiça porque há um ano um empresário apareceu se dizendo dono da minha terra, mas como isso é possível se tenho os documentos de lá e pago até IPTU? A gente tem medo que algo aconteça e tem outras pessoas sendo ameaçadas. Teve gente que a casa foi até queimada”, disse ele.

O representante da Cáritas Arquidiocesana em Iranduba, confirma que diversas famílias estão passando pela mesma situação devido a falta de regularização fundiária no município  e a expansão imobiliária na Região Metropolitana que tem atraído interesses de empresários e políticos, mas devido o medo de represálias, muitas das vítima se calam e acabam expulsas de seus lares.

Ouvidoria agrária

A superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Maria do Socorro Marques, afirma que  a área da Portelinha  ainda não possue regularização e que o local não é um assentamento, mas uma propriedade particular loteada. O órgão possui uma ouvidoria agrária, onde denúncias dessa natureza podem ser registradas.

Interesse econômico e imobiliário

De acordo com o presidente da Comissão Permanente de Direitos, Cidadania e Legislação Participativa da Assembleia Legislativa do Estado (Aleam), deputado estadual José Ricardo Wendling (PT), Iranduba se tornou uma área de grande interesse econômico imobiliário após a inauguração da ponte Rio Negro, mas o Estado pouco se preocupou em criar políticas públicas para regularizar a situação fundiária de moradores das comunidades da Zona Rural, para evitar os conflitos por terras. Na opinião dele, o Judiciário deveria possuir uma Vara Agrária para dar celeridade aos julgamentos de processos que envolvem esse tipo de conflito, que é crescente no Estado, principalmente no Sul do Amazonas. “Nós produzimos um relatório que foi enviado à Secretaria de Políticas paras as Mulheres da Presidência da República e essa proposta é um dos nossos pleitos pois a situação é preocupante”, afirma o deputado.

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