Domingo, 13 de Outubro de 2019
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‘Aprendi o quanto eu devo ter cuidado em me aliar’, diz Hissa Abrahão em entrevista

O vice-prefeito Hissa Abrahão renunciou sexta-feira, 30, ao cargo para assumir o mandato de deputado federal, que inicia neste domingo (1). Ao jornal A CRÍTICA, o político diz que chega à Câmara mais experiente e cauteloso com os aliados



1.gif Hissa Abrahão concede entrevista
31/01/2015 às 16:41

Em menos de um ano, o vice-prefeito de Manaus, Hissa Abrahão (PPS), viu o conceito que o prefeito e ex-aliado Artur Neto (PSDB) tinha dele mudar: de xodó - durante as Eleições de 2012 - para renegado.

Demitido do cargo de secretário de Obras em rede de rádio e colocado de canto pela administração tucana no final de 2013 - segundo ele por motivações políticas -, Hissa lançou-se candidato a deputado federal em 2014.

Eleito, Hissa se torna o segundo vice-prefeito de Manaus a renunciar ao cargo (na sexta-feira, 30) em menos de cinco anos. Em entrevista ao A CRÍTICA, o político de 34 anos fala dos conflitos com o ex-aliado, das escolhas que fez ano passado e dos planos para a Câmara a partir de hoje, quando toma posse.

Com base no seu discurso de juventude e renovação, não teria sido mais coerente o senhor se aliar a Marcelo Ramos (PSB) do que ao ministro Eduardo Braga (PMDB) nas eleições de 2014?

É muito relativo isso. A gente vive dentro de um sistema eleitoral brasileiro. Esse sistema é imposto e existe um fator chamado Quociente Eleitoral. Quais foram os critérios para a gente se aliar à candidatura do ministro? Primeiro, que foi uma decisão de partido, precisávamos formar um deputado federal no Amazonas. Segundo, das duas opções reais de candidaturas, o PPS entendeu que o ministro era o que possui a maior competência administrativa. E o terceiro é a chance de você eleger um deputado federal. Eu não teria chance alguma em outra coligação, em virtude do sistema eleitoral.

Mas o projeto nacional que o PPS dizia defender não estava mais alinhado ao do PSB do que ao do PMDB, aliado do PT?

Sim. No campo nacional, nada mudou. Faço parte do bloco com o PSB, PV e SDD. Continuo fazendo parte de uma oposição construtiva. E as peculiaridades locais  são peculiaridades locais e o próprio partido nacional compreendeu isso. Para a gente chegar ao campo nacional e defender as ideias, precisávamos fazer esse realinhamento aqui.

O senhor acha que o eleitor entende essa contradição?

Existe um sistema. Eu não tenho como escapar dele. Se eu pudesse ser candidato sem me aliar a quem quer que seja e ter chances de me eleger, seria ótimo. Mas não dá. A legislação eleitoral impõe isso. Tanto que só quem elegeu deputado federal foi a coligação do governador e do ministro. As opções eram muito poucas para nós.

Quais suas impressões do desempenho do deputado Marcelo Ramos nas eleições de 2014?

Qualquer um que estivesse na situação dele ali teria feito um bom papel. Eu, em 2010, fiz um bom papel, o Henrique Oliveira, em 2012, fez um bom papel. Eu acho extremamente natural isso. Seria estranho se fosse diferente.

O senhor conclui o mandato de deputado federal ou tem interesse em disputar a prefeitura em 2016?

Sou um homem de partido. Meu objetivo é trabalhar os quatro anos, ser a nova voz do Amazonas em Brasília. Minha pretensão é essa. Mas sou ligado a um partido e em 2016 esse partido vai discutir a eleição.

Em linhas gerais, qual será sua agenda na Câmara dos Deputados? E quais temas devem ser defendidos pela bancada do Amazonas?

Ainda não tive reunião com a bancada. Mas pretendo focar em alguns temas. Entre eles, a BR-319, a implementação de um novo desenvolvimento econômico-social baseado nas vocações regionais, uma grande reforma na Segurança Pública e também ser um fiscal do Governo Federal. Para a Zona Franca, a gente começa a pensar um novo modelo de legislação, que está desatualizado e todo solto.

Como o senhor avalia os nomes eleitos para essa nova bancada?

Todos têm seu valor e alguma afinidade com algum tema. Aqueles que se dispuserem a trabalhar pelo Amazonas, merecem aplausos. Aqueles que forem lá para passear, o povo vai avaliar daqui a quatro anos.

Os congressistas, de um modo geral, reclamaram do tratamento dado a eles pelo Executivo no primeiro governo de Dilma Rousseff (PT). O senhor acredita que nesse segundo governo essa relação vai mudar?

Se a presidente pretende aprovar os projetos que ela enviará ao Congresso, ela precisa mudar sua postura de diálogo em relação aos congressistas porque a oposição está muito forte. Sem contar que há parlamentares dentro da base que estão insatisfeitos.

Chegando a Brasília e se juntando à bancada de oposição, como fica sua relação com o ministro Eduardo Braga?

Normal no campo local. No campo nacional, nossas ideais são diferentes. Torço para que ele consiga fazer uma boa gestão no Ministério das Minas e Energia.

O que tem de errado nesse cargo de vice-prefeito de Manaus?

Quando fui convidado pelo prefeito para deixar de ser candidato e me tornar vice dele, imaginava que iríamos romper com esse histórico negativo. Imaginava que essa parceria ia ser muito próspera, pela experiência que ele tem e pela minha juventude. Mas desandou. Mas mesmo desandando, o meu oxigênio se renova a cada dia.

O senhor se arrepende de algo nesse rompimento com o prefeito?

Tive que tomar algumas decisões porque não admitia ser sugado, ser usado. Eu servi para ser vice, para trabalhar numa campanha, para ajudar o prefeito na secretaria de Obras, estava sendo convidado para servir ao filho dele naquele momento (campanha de 2014)... Então, quer dizer, eu era muito útil para ajudar, mas não podia ser ajudado em algum momento? A gente trabalhou muito (na secretaria de Obras).

Uma das causas do rompimento com o prefeito foi a sua insistência em tentar uma candidatura ao governo em 2014. O que lhe fez recuar e se candidatar a deputado federal?

Naquela altura, imagina que tanto o prefeito quanto eu tinha o dever de participar do processo (eleitoral). O prefeito entendeu que ele não deveria ser candidato e o meu partido me lançou candidato. Depois do lançamento, a minha situação política começou a ficar séria porque comecei a crescer e a sofrer uma perseguição tremenda de bastidores para me isolar. Em virtude do cenário conflitante para o PPS, o partido mudou os planos e viu que era melhor participar de um projeto nacional, que era eleger de 15 a 20 deputados federais no Brasil. E como eu tava com uma densidade eleitoral boa, decidimos optar pelo projeto do partido.

Dentro dessa pressão que o senhor diz ter sofrido ao se lançar pré-candidato houve alguma proposta que o senhor se negou a aceitar?

Houve proposta, sim. Inclusive o próprio prefeito, três, quatros dias antes da convenção, estranhamente, nos procurou pedindo para eu ser candidato a governador. Olha que contraditório. Ele passa os últimos seis meses me criticando e, dias antes da convenção, ele nos procura para dizer para eu ser candidato. Eu disse: ‘Está bom, prefeito. Mas o senhor se coliga a mim? Porque se a dupla continuar junta, eu topo’. Simplesmente ele titubeou, disse que não era bem assim, mas que eu tinha que ser candidato.

Ele explicou o porquê da mudança?

Ele falou que iria contribuir com alguma estrutura de campanha, só que não queria se aliar. Eu pensei: Espera aí. Tem alguma coisa estranha. Tem algo no ar. Foi então que eu disse que continuaria seguindo a decisão do meu partido.

Seria para ajudar o candidato (governador José Melo-Pros) que ele apoiava?

A minha conclusão foi justamente essa. Ou seja, mais uma vez seria utilizado para servir.

Em 2010, sua candidatura foi para valer ou foi para ajudar a outro candidato?

Olha, em 2010, minha candidatura foi para a gente mostrar as novas ideias, para fazer um palanque para o candidato (José) Serra – PSDB, e para contribuir na eleição do candidato ao Senado Artur Neto. Alguns imaginavam que aquela campanha seria só para ajudar o candidato Serra e o Artur, quando nós do PPS entendíamos que era o momento de romper a barreira dos que estão saindo e dos que estão entrando na política amazonense. E a conjuntura mostrou isso.

Como o senhor iria administrar essa relação com o prefeito por mais dois anos caso não tivesse sido eleito deputado federal?

Aprendi nesse rompimento o quanto eu devo ter mais cuidado em me aliar. Meu olhar é mais experiente. Tenho uma preocupação maior para com as pessoas que eu devo me aliar e confiar. Esse foi o grande ensinamento disso. A eleição de 2014 foi a mais difícil. Eu tinha a máquina da prefeitura contrária a nossa campanha. Porém foi uma campanha prazerosa de vencer porque eu não usei dinheiro de caixa dois, apoio de empresas ligadas à operação Lava Jato e, mesmo sendo vice-prefeito, não usei a máquina.

O senhor não confia mais no prefeito?

Não. É difícil confiar no Artur, viu.

Por quê?

Porque ele é muito inconstante. Dez dias depois que virei secretário de Obras tudo desandou, sem mais nem menos.

O senhor fez pressão para ser secretário?

Não. Nem imaginava ser secretário. Porém, na campanha, eu conheci boa parte dos problemas de Manaus. Sabia o que precisava ser consertado. Na campanha para prefeito e vice eu tinha autonomia. Imaginei que na gestão teria alguma.

O prefeito promete fazer mudanças no time de secretários. Quais pastas precisam mudar?

A saúde está muito ruim, merece uma intervenção urgente. O povo sofre com a ausência de médicos e os remédios não chegam quando a população precisa. No transporte público, é lamentável esse reajuste. Não há nada que justifique isso.

Os secretários atuais têm capacidade para as áreas que dirigem?

Muitos são qualificados, mas não têm percepção política. Não entendem o que o povo está sentindo. Não sabem e não tem a preocupação de executar os serviços com mais qualidade porque não têm capacidade de perceber o que a população está sentindo. Então, só a qualificação não basta. Você tem que mescla capacidade política e administrativa. Falta isso.

Para além da sua relação com o prefeito, que avaliação o senhor faz desses dois anos de administração em Manaus?

Poderia estar melhor. Vejo uma prefeitura que não conseguiu fortalecer suas instituições e projetos que foram prometidos na campanha de 2012 ainda não saíram do papel.

Por exemplo?

O complexo viário da Bola do Produtor. Quando eu era secretário já estava conseguindo a verba. Parou. O BRT fizemos um plano de ataque do início da obra e antes da Copa era para estar pronto mais de um quilômetro e parou. Vejo muita publicidade e pouca ação.

O prefeito reclama de falta de recursos para investir mais. O senhor não concorda?

O Governo Federal passou para a prefeitura mais de R$ 1 bilhão. Outro ponto é que se você não for atrás o dinheiro não vem. Dinheiro tem. Com projeto você consegue. Essa desculpa de que não tem dinheiro, para mim, não vale.


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