Terça-feira, 25 de Junho de 2019
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Arcebispo metropolitano de Manaus avalia a ocupação na AM-070

Dom Sérgio Castriani defende ainda que haja uma investigação sobre quem, de fato, detém a posse da terra. Segundo ele, a Assembleia de Deus afirma ter comprado a posse da terra, mas tem que verificar se essa posse é válida.



1.jpg Dom Sérgio conheceu a invasão da Manoel Urbano e garante que operação policial nenhuma vai acabar com ela
18/09/2013 às 07:57

“Todos sabíamos que haveria a necessidade de um projeto de urbanização do lado de lá (Iranduba) com a construção da Ponte Rio Negro. O poder público deveria ter se antecipado, em vista do histórico de invasões existente em Manaus. Faz-se a ponte e cria-se uma Cidade Universitária. Como não saber que isso aconteceria?”. A análise sobre a invasão entre os kms 4 e 6 da rodovia Manoel Urbano (AM-070) é do arcebispo metropolitano de Manaus, dom Sérgio Castriani que esteve no local há mais de uma semana. “Como igreja, ouvimos os problemas da sociedade”, disse.

Uma missa, inclusive, chegou a ser realizada no local pelo padre André, de Iranduba. “Eles pediram apenas uma coisa: que eu dissesse ao Governo do Estado que eles não são marginais, não são desocupados e querem apenas um lugar para morar”, disse o arcebispo.

A questão fundiária, entre outros problemas sociais enfrentados na Amazônia e que acabam sendo assumidos pela igreja está em debate por bispos, do Amazonas e de Roraima, coordenadores de pastoral e organismos da instituição em âmbito regional até quinta-feira, na 41ª Assembleia do Regional Norte 1 da Conferência Naiconal dos Bispos do Brasil (CNBB).

Casais jovens, ribeirinhos oriundos do distrito de Iranduba, Cacau Pirêra, gente que paga aluguel, que não tem o que comer, indígenas e a presença de muitas crianças foi o que motivou a ida de dom Sérgio até a invasão. “É claro que os que só querem aproveitar da situação”, disse. “Quem tem que fazer a triagem é poder público”, completou. “A invasão cria uma situação de injustiça para ser resolvida por outras gerações. Na prática, sabemos que nunca serão bairros urbanizados a contento”.

Dom Sérgio Castriani defende ainda que haja uma investigação sobre quem, de fato, detém a posse da terra. Segundo ele, a Assembleia de Deus afirma ter comprado a posse da terra, mas tem que verificar se essa posse é válida.

Em relação ao crime ambiental, o arcebispo acredita que somente o trabalho de muitas máquinas conseguiria executar o estrago daquele tamanho, a fim de atender uma grande obra.

“A grande pergunta que se faz agora é: como vai se fazer para retirar todo mundo? Uma operação de guerra? Não tem muito mais o que se fazer. Cada dia em que a decisão sobre a permanência da invasão é adiada, cria-se um problema maior”.

Para o arcebispo, este não é um problema que se resolve com polícia, mas com ação planejada e organizada do poder público. Ele alerta ainda para outra complexidade: a a presença de crianças em condições precárias de higiene e fora da escola. “Onde está o juizado de menores?”.

Apoio à construção do plano diretor
A igreja é totalmente a favor do esforço em torno da construção do Plano Diretor, segundo o arcebispo metropolitano de Manaus, dom Sérgio Castriani. “Falta política de ocupação do território. A cidade precisa ser verticalizada, diminuir as áreas períféricas porque as pessoas preferem morar mal, em uma invasão que está a 20 minutos do Centro, do que se instalar no final da Zona Leste e demorar mais de uma hora pra se deslocar”, disse.

“Isso não quer dizer que a igreja apoia invasões. No interior você vê a mesma coisa, no Brasil também. É com grande tristeza que vemos essa situação”.

Segundo ele, o plano diretor deve ser respeitado pela cidade, uma vez que significa a escolha da cidade que queremos. “E Manaus tem características únicas: é uma cidade que está à beira de um “rio-mar” e no meio da floresta, por isso, o desafio é nosso”.

Preocupado com o futuro que o projeto que vai nortear o crescimento da cidade pelos próximos 10 anos, ele alerta: “O trecho após a ponte (Rio Negro) ainda vai explodir”.

Tema
Este ano, o tema da assembleia regional da CNBB é “Comunidade de comunidades, uma nova Paróquia”, que propõe uma discussão sobre a atuação da Igreja no Brasil, voltada para a renovação paroquial. O evento acontece no Centro de Treinamento Maromba, até quinta-feira.

Amazônia
“Este é um momento de celebração das alegrias e tristezas, dos sonhos e das esperanças dos povos da Amazônia, além da percepção dos sinais da presença de Deus”, disse o presidente da CNBB Norte I e bispo de Roraima, Dom Roque Paloschi.

Padre relata violência e acomodação em Coari
Dentro da prelazia de Coari, que engloba 10 paróquias em seis municípios, o trabalho dos 20 padres diocesanos e redentoristas é posto à prova de ameaças por conta da participação na resolução de questões como preservação ambiental, desemprego, prostituição, conflito de terras e corrupção.

Exemplo disso foi o assassinato do ribeirinho Ivo dos Santos, em 2000. Cristão atuante, ele defendia a preservação do lago Mamimá junto do trabalho desenvolvido pelo Centro de Defesa de Direitos Humanos (CDDH) e Comissão Pastoral da Terra (CPT). Após o crime, o trabalho continuou, mas teve que desacelerar e tenta se refazer.

Há três anos atuando na prelazia de Borba (a 150 quilômetros de Manaus), o padre Jânio Assis afirma que a falta de atuação do poder público levou a sociedade à acomodação. “Os jovens não questionam, não reivindicam e as pessoas têm a sensação de que nada vai acontecer”. Segundo ele, uma jovem da pastoral da Igreja foi atropelada por um Policial Militar há alguns dias e até agora, nada foi feito. Os pais registram um boletim de ocorrência, mas ninguém foi chamado ou ouvido. A jovem segue internada em uma UTI, segundo ele.

Além disso, há muitos jovens consumindo drogas nas praças. “A delegada que estava fazendo um bom trabalho de combate ao tráfico foi afastada e o juiz que ficava no município respondia por outras comarcas também, o que deixava tudo meio solto. Agora trocaram. Vamos ver”, completou.

Em São Gabriel da Cachoeira (a 858 quilômetros de Manaus), a Igreja é praticamente co-partícipe da rede de serviços públicos, segundo o arcepisbo dom Edson Damian. “Até 1990, o Estado esteve ausente e quem mantinha escolas e posto de saúde eram a Igreja e o Exército”. Hoje, segundo ele, ambas instituições atuam em sistema de parceria com o poder público.

Exemplo dessa “quase audência”, é a “adoção” do município feita pelo deputado federal Paulo Teixeira (PT/SP), cujo filho, Pedro Yamaguchi Ferreira, advogado de causas indígenas, morreu afogado no rio Negro. “Ele visita a cidade três vezes por ano e leva todos os nossos projetos adiante. É o nosso interlocutor em Brasília”.

Comissão voltada para a Amazônia
A igreja tem ainda a Comissão Episcopal para a Amazônia, que reúne membros de todo o Brasil para enviar missionários - religiosos ou não - para a Amazônia, além de destinar recursos para a evangelização. “A igreja tem um papel importante em toda questão social da Amazônia”, afirmou dom Edson Damian.

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