Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2021
SÍMBOLO DE CULTURA

Artista plástico amazonense Juarez Lima completa 54 anos de fé e 40 de arte

O cenógrafo e produtor cultural parintinense traz uma imensa contribuição artística, transcendendo os limites de ser membro renomado do Conselho de Arte do Boi Caprichoso



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22/06/2020 às 14:06

O 2020 do artista plástico, cenógrafo e produtor cultural parintinense Juarez Lima ficará marcado para sempre como um ano de renovação na fé, reinvenção e reflexão sobre tudo o que ele viveu. Prestes a completar 54 anos, amanhã, ele também chega nesta temporada a 40 verões amazônicos de uma imensa contribuição artística, transcendendo os limites de ser membro renomado do Conselho de Arte do Boi Caprichoso.

O ano é intenso para aquele menino parintinense aprendiz da antiga oficina de artes plásticas e esculturas do padre italiano Irmão Miguel de Pascale, de quem é contemporâneo junto a outras pessoas lendárias como o famoso curandeiro Waldir Viana. Que bebeu na fonte de ícones renascentistas como Leonardo Da Vinci e Michelângelo, que tem como mestres o próprio Miguel de Pascalle, e os geniais Joãosinho Trinta - histórico carnavalesco maranhense consagrado no Carnaval carioca – e Jair Mendes – chamado de Mestre por todos em Parintins por ter dado movimento ao Boi Garantido e às alegorias do Festival Folclórico numa época em que o evento já era lindo, mas bem mais rudimentar e no qual não havia nem o Bumbódromo.



A pandemia atingiu diretamente Juarez. Não que ele tenha sido infectado pelo Covid-19, mas pela questão emocional da não-realização dos dois maiores e mais tradicionais eventos da cidade de Parintins e dos quais ele tem ligação direta: o Festival Folclórico em junho e a Romaria das Águas em louvor à Nossa Senhora do Carmo, que é realizada todo dia 14 julho dentro dos festejos em homenagem à padroeira de Parintins – cuja data maior é 16 de julho.

“O Festival poderá acontecer de uma forma diferente, mas não no padrão anterior. Se uma Olimpíada mudou, imagina o Festival. Mas ele estará lá na nossa imaginação pois ele não é físico e sim uma centelha de cultura acesa dentro de mim. O Corona não vai nos tirar o Festival pois ele não é uma coisa física. Somos movidos pela esperança, fé. Vejo que não seria mais uma festa, mas com uma nova percepção de espetáculo que os dois bois darão, do renascimento, da renovação do Espírito, de agradecimento e algo excepcional que recebemos. Uma coisa diferente. Um espetáculo sustentável. Com discurso e prática. Campanhas de verdade cuidando do rio, do índio, das pessoas. Em cima das responsabilidades ambientais, de saúde e comprometimento de um legado que a partir do próximo Festival vamos ter. De tocarmos ao sagrado e dizermos que se nosso espetáculo conseguiu fazer algo diferente é porque realmente nossa raiz ancestral é portadora de fé e que nossa musa inspiradora, Nossa Senhora do Carmo, é a grande guardiã de Parintins e da Amazônia”, destaca ele.


Foto: Pedro Coelho

Não fosse o adiamento do Festival, estaria nos galpões do Caprichoso coordenando a produção das suas gigantescas estruturas alegóricas. Como a espantosa alegoria “Boitatá", de 2018, que “explodiu” num espetáculo de fogos, cores é luz na entrada de uma cobra gigantesca na Arena do Bumbódromo, num dos grandes momentos do Festival de Parintins naquele ano.

O artista sugere que uma das opções de novo formato do Festival neste ano inclua o engajamento das galeras azul e branca. “Os torcedores dos dois bois-bumbás poderiam utilizar, na arena, máscaras azuis e vermelhas. Já pensou que espetáculo, que mensagem de conscientização nós daríamos para o mundo? Tem que ser o Festival da Solidariedade, da fé, para dar exemplo ao mundo” diz ele, sobrinho de Braulino Lima, autor da famosa toada “Tic Tic Tac”, do repertório do Boi Garantido.

Romaria

A Romaria das Águas nos moldes atuais, homenageando Nossa Senhora do Carmo com uma gigantesca imagem da santa posicionada em uma balsa, surgiu há 12 anos em cumprimento a uma promessa de Juarez pela recuperação do Mestre Jair Mendes ter se curado de um AVC. Este ano, ela não acontece por conta das proibições de aglomeração em face da pandemia.

“Infelizmente, este ano não teremos a Romaria das Águas por determinação do pároco . Queríamos fazer algo diferente, a Catedral está fazendo 60 anos e nosso projeto era que os filhos de Parintins, em Manaus, saíssem aqui da capital de balsa até Parintins para agradecer a intercessão de Maria, no que talvez seria o maior cortejo de romaria das águas da Região Norte. Mas tenho fé que no dia 16 vamos receber uma grande notícia, uma grande revelação. O Festival pode ser adiado, mas a festa de Nossa Senhora do Carmo, não. É uma grande oportunidade de mostrarmos nossa fé nesse momento”, emociona-se o fervoroso artista do Caprichoso, que carrega sempre consigo dois terços católicos (um no pescoço e outro no bolso direito).

Cruz

As provas da fé de Juarez são constantes. Em 10 de abril desta ano, ele carregou nas costas uma cruz de madeira da sua casa, no conjunto Campos Elíseos, até a Praça 15 de Novembro, ao lado da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, no Centro Histórico de Manaus, pedindo pela  intercessão de Maria junto à Jesus pela graça da saúde do povo de Parintins, artistas, médicos e sua mãe Florinda e esposa Irleni e de todos que iriam ser penalizados pela situação do Covid-19.

“Quando coloquei a cruz me senti pequeno perto do que a Jesus passou há dois mil anos. Chorei e percebi a força da mensagem. No trajeto, uma cena interessante: um mendigo de rua veio até mim e disse que poderia carregar a cruz pra mim. Eu agradeci falando que era uma promessa. Ali eu vi Simão Cireneu ( homem que, segundo os Evangelhos, carregou a cruz de Jesus em parte do caminho até o Vale do Gólgota). Antes de chegar na Matriz, vários venezianas tocaram na nossa cruz. Na chegada, eu já não sentia dores e nem cansaço; estava leve e com sensação de que tudo aquilo que eu havia pedido iria acontecer. Minha mãe melhorou , minha esposa diminuiu as tensões e isso me deu  conforto. A cruz me deu a sensação de que eu tive uma experiência transformadora. Nunca imaginava como que pequenos atos de ser, através da arte, tocam as pessoas”, relata o artista.

Em julho ele pagará uma nova promessa, desta vez percorrendo algumas das principais áreas de Parintins, novamente carregando uma cruz.

Balanço

O menino aprendiz das artes parintinense, que se transformou há 40 anos numa das referências da cultura amazônica, exportou seu talento para o Carnaval do Rio de Janeiro (Salgueiro e Beija-Flor) e São Paulo (X-9 Paulistana e Nenê de Vila Matilde), e que já passou duas temporadas no Boi Garantido (97 e 98) pede mais reconhecimento do poder público não só para ele, mas para pessoas como seu Mestre Jair Mendes.

“Será que só vão nos dar valor quando sumirmos?. Porque não querem nos ouvir?”, indaga ele.

Aos 40 anos de vida artística, esse verdadeiro pássaro sonhador, que assume ser irrequieto como quase todo bom mestre, diz ser como o vinho. “Algumas pessoas dizem que eu estou ultrapassado, mas eu me espelho no vinho: quanto mais me batem, mais eu tento ser melhor!”.

Frase

"Infelizmentez este ano, não teremos a Romaria das Águas. Mas tenho fé que no dia 16 de julho vamos receber uma grande notícia, uma grande revelação".

Juarez Lima, artista devoto de Nossa Senhora do Carmo

Atelier na própria casa

A residência de Juarez Lima, em Manaus, localizada no conjunto Campos Elíseos, Zona Centro-Oeste de Manaus, foi transformada em um atelier da multicultura parintinense e, claro, amazônica. 

No local, ele cria obras, como quadros e pinturas em relevo, entre outras artes, junto com os talentosos filhos Thyago Lima e Juarez Filho, que além de terem herdado o talento artístico do pai, também comandam a Juarez Lima Parintins Produções Artísticas. O irmão de Juarez, que se chama Luciano, também faz parte da talentosa equipe. 

Entre os vários projetos futuros estão um documentário, revista e uma exposição em alusão aos seus 40 anos, além de maquetes de obras, inclusive colossais, que estão guardadas a sete chaves.

A família é completada pela esposa do artista, a matriarca Irlani Lima, que herdou dom da culinária e que inaugurou, recentemente, na própria casa/atelier, o empreendimento chamado “Tacacá da Cunhã", um cantinho de Parintins na capital amazonense. 

“Existe uma potência da economia criativa regional que pode fomentar o turismo de forma diferenciada”, explica Juarez que, junto com sua equipe, há cinco anos, trabalhou na revitalização do Parque Estadual Sumaúma, na Cidade Nova, que ganhou sua decoração à base das belezas naturais e lendas amazônicas, além de estimular a consciência ambiental.

Retorno de David Assayag ao Caprichoso

Poucas pessoas sabem, mas o gênio  sensibilidade de Juarez Lima foi primordial para o retorno de David Assayag, em 2009, para a Associação Folclórica Boi Caprichoso. Até então, a saida do apresentador oficial do Garantido para o lado azul era uma possibilidade considerada bem remota, ainda mais levando-se em conta a identificação do músico com o boi vermelho e branco da Baixa do São José e todo status da “Voz que vem da Floresta”.

Na época, Assayag era candidato à vice em uma chapa que concorreu, mas foi derrotada, à presidência do Boi Garantido. Após a derrota para o candidato Telo Pinto, o cantor passou a receber críticas de alguns setores do boi, o que lhe incomodou, manifestando a pessoas como Juarez Lima (que atuou na logística da chapa de David mesmo sendo do Boi concorrente) a sua insatisfação e possibilidade de sair.

Estava ali, disse Juarez Lima, a chance de contar com o levantador e virar o jogo em relação a uma antiga insatisfação do Caprichoso: as sucessivas derrotas no bloco musical para a bela e estridente voz do próprio Assayag.

“Aquele momento era a oportunidade de trazer o David pro Caprichoso. Recebi carta branca do presidente à época, Carmona Oliveira e, ao telefone, em nome do Caprichoso, lhe convidei para ser o novo levantador do boi. Ele ficou 30 segundos em silêncio, perguntou se era verdade, e eu disse que sim. Pediu um tempo ao telefone, depois voltou e aceitou. Aí o passo seguinte  foi assinar o contrato”, disse Juarez, que Foi percussionista do Regional Azul e Branco e do Grupo Canto da Mata.

No retorno, David Assayag foi pé quente e conduziu o Caprichoso a mais um título. E já são 11 anos de uma história em azul e branco cujo coadjuvante, Juarez Lima, foi essencial.

Repórter de A Crítica

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